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12 de Março

Diário de bordo: histórias do FICA

Toca o telefone no Rio de Janeiro, e do outro lado da linha a voz pausada e grave do amigo Washington Novaes embala o convite de Goiânia: “Nós gostaríamos que você viesse participar do FICA este ano. Que tal?” Senti uma ponta de constrangimento, por não saber rigorosamente nada sobre o FICA. Estávamos no início de 2003, e o tal do FICA já ia para a sua quinta edição. Fora do eixo Rio-São Paulo, longe dos holofotes da mídia no Sul Maravilha, o maior festival de cinema e vídeo ambiental do Brasil, o quarto maior do mundo, era algo solenemente ignorado por estas bandas. Bom, vindo do Washington, o convite só poderia ser coisa boa, pensei. Eu estava sendo chamado para participar de uma mesa-redonda que discutiria mídia ambiental. De quebra, poderia acompanhar a exibição dos filmes, animações e documentários do Festival, as oficinas, e, por último, mas não menos importante, conhecer a cidade de Goiás, que sabia ser a terra de Cora Coralina e da Procissão do Fogaréu. Mas jamais havia ouvido falar do FICA.

Desembarquei no aeroporto de Goiânia com outros convidados, seguimos de ônibus para Goiás, e quando me dei conta estava irremediavelmente atraído pelo conjunto da obra: uma linda cidade histórica – que mais parece cenário de filme – recebendo gente de várias partes do Brasil e do mundo numa pajelança cósmica, um formigueiro humano cobrindo de esperança as ruas de pedras cravadas nas margens do Rio Vermelho. Nessa Babel cultural, Goiás se transforma na capital mundial da rebeldia em favor da vida; da conspiração contra o atual modelo de desenvolvimento “ecologicamente predatório, socialmente perverso e politicamente injusto”; do uso subversivo dos recursos audiovisuais em favor da luta por um mundo melhor e mais justo, um mundo sustentável.

Com a máquina fotográfica a tiracolo, no melhor estilo turista acidental, gastei quase um rolo de filme na inútil tentativa de explicar por imagens a grande loucura do FICA: a transformação de um ginásio esportivo num cinemão com direito a ar-condicionado, tapete, telão e som de alta definição. O povo entra de graça e assiste ao que quiser numa intensa movimentação que reúne alunos de escolas públicas e particulares, estudantes universitários, professores, cinéfilos, turistas, ambientalistas, curiosos e uma coleção de tipos que emprestam um colorido especial ao Festival. E assim fui me deslumbrando, me deixando levar pela magia de um evento que promove muita informação, diversão e… piedade. Sim, não há como deixar de sentir pena dos jurados do FICA. Para acompanhar toda a mostra competitiva, eles participam de uma verdadeira maratona que exige, sobretudo, resistência física. Em três dias, os jurados assistem a quase vinte horas de projeção. O massacre só é compensado pela qualidade e variedade dos filmes, invariavelmente distantes do padrão hollywoodiano de entretenimento barato com final feliz.

Deixei Goiás levando comigo uma garrafinha de “Atitude” – a cachaça local cujo nome é absolutamente sinérgico com os propósitos do Festival -, além de fotos do Morro do Macaco Molhado, onde os gringos são apresentados ao forró brasileiro. Mas o que pesou na bagagem foi uma tremenda inquietação. Por que o Brasil desconhece o FICA? Por que não levar os filmes do FICA para outros lugares do País?

Semanas depois, por iniciativa do jornalista Zuenir Ventura – outro carioca entusiasmado com o FICA -, “Bottom Line – Privatizing the World”, de Carole Poliquin, vencedor do prêmio especial do Festival naquele ano, foi exibido no cineminha do Museu da República, no Rio. Uma única exibição, gratuita e aberta aos privilegiados que tomaram conhecimento do evento. Meses mais tarde, minha mulher, Carla Oliveira, então coordenadora de projetos especiais da UNESCO do Rio, realizava a primeira Edição do “FICA no Rio”, no Museu dos Correios, quando todos os filmes premiados no festival foram exibidos em uma mostra gratuita. Durante três dias, a exibição dos filmes era precedida por uma palestra de um especialista convidado para falar sobre um dos temas ambientais abordados no Festival. De Goiás, a organização do FICA acompanhava a evolução dos acontecimentos no Rio, onde o Festival começava a ser conhecido e comentado.
No ano seguinte (2004), novamente por intermédio do amigo Washington Novaes, recebi surpreso o convite para presidir o júri do VI FICA. Lembrei-me do massacre dos jurados na longa maratona de filmes, mas a honra do convite superou qualquer hesitação em aceitar. Lá estava eu novamente embarcando para Goiás, agora com um novo sentimento: a ansiedade de presidir pela primeira vez o júri de uma megafestival de cinema e vídeo. Dos 299 trabalhos inscritos de 34 países, apenas 28 se classificaram para a mostra competitiva. Devo dizer que foi uma das experiências mais incríveis da minha vida. O elevado nível dos meus companheiros de júri emprestou um sabor especial aos debates que definiram os vencedores. Lembro-me que até o último dia do Festival nenhum filme havia impressionado os jurados de forma arrebatadora. Foi quando vimos “Surplus”, de Erik Gandini, um documentário genial, ácido, demolidor, que denunciava as mazelas da sociedade de consumo. Para minha alegria, o júri não teve dificuldades em sacramentar o resultado.

Deixei Goiás já envolvido na segunda edição do “FICA no Rio”, que mobilizou, além da UNESCO, os apoios do SESC, da REBEA (Rede Brasileira de Educação Ambiental) e da Rádio CBN. Logo no primeiro dos três dias programados para a mostra, o susto: o Rio de Janeiro era castigado por uma tempestade daquelas que anunciam enchentes. Temíamos a ausência de público no moderno auditório do SESC (Arte Sesc – Flamengo), zona sul da cidade. Para nosso alívio, todos os duzentos lugares foram rapidamente ocupados, e o SESC teve de providenciar uma televisão de 29 polegadas para as mais de 50 pessoas que ficaram do lado de fora acompanharem do foyer as palestras e a projeção dos filmes. Casa cheia também nos outros dois dias de evento. Era o FICA comprovando sua força, qualidade e empatia.

Em 2005, fui convidado novamente para presidir o júri do festival, que ostentava um número recorde de inscrições: quase 700 filmes, animações e documentários vindos de mais de cem países. A maturidade do FICA poderia ser medida apenas por estes números. Mas haveria um teste ainda mais importante e definitivo. Quis o destino que o corpo de jurados do VII FICA, no entendimento de que se tratava de fato do melhor filme, oferecesse o prêmio mais importante ao documentário francês de média metragem “A Morte Lenta pelo Amianto” (“Asbesto, a Slow Death”), de Sylvie Deleule. O documentário mostra a luta contra a utilização do mineral cancerígeno em vários países, incluindo o Brasil. E é justamente em Goiás que está situada a maior mina de amianto do País, em plena atividade, que estaria sendo explorada com recursos supostamente menos impactantes para a saúde e com o apoio de amplos setores da política local, inclusive o Governo do Estado, que promove o FICA. Pois bem, a escolha do júri foi respeitada, o prêmio de R$ 50 mil foi entregue a Sylvie Deleule – que parecia não acreditar no que estava acontecendo – e o FICA, na minha opinião, firmou-se como um festival com absoluta credibilidade e isenção

Também em 2005, no Rio de Janeiro, a III Mostra FICA no Rio consolidou a parceria do ano anterior (UNESCO, SESC e Rádio CBN), com ótima presença de público nos três dias de evento e uma inovação importante: depois que todos os filmes vencedores foram exibidos gratuitamente no Arte Sesc, seguiu-se uma mostra itinerante denominada “Circuito Universitário”, em que os filmes do FICA foram exibidos em 8 universidades (PUC, UERJ, UNIRIO, UNICARIOCA, UNIGRANRIO, FEUC, MSB, SIMONSEN) públicas e privadas. Ao final da maratona, a UNESCO publicou um relatório com palestras e papers dos especialistas que participaram como convidados do “Circuito Universitário”, proferindo palestras sobre os temas dos filmes. Milhares de pessoas puderam acompanhar o melhor da produção audiovisual exibida em Goiás, num esforço coletivo para divulgar o FICA e os temas absolutamente pertinentes e urgentes que todos os anos são exibidos no Festival.

Tenho um carinho enorme pelo FICA, pela cidade de Goiás e pelos inúmeros amigos que fiz nessas idas e vindas do Cerrado. Aprendi muito com essas experiências, todas elas de fundamental importância na minha formação e na definição dos meus projetos profissionais nas áreas de jornalismo e educação. Sinto-me, portanto, privilegiado por ter feito parte dessa história.André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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10 de Novembro

Refazendo as contas

“A Terra pode oferecer o suficiente para satisfazer a necessidade de todos os homens, mas não a ganância de todos os homens.” (Mahatma Gandhi)

O mais importante estudo já realizado para mapear os impactos da humanidade sobre os ecossistemas do planeta mobilizou 1.350 cientistas de 95 países. Durante 5 anos (2001 a 2005) o grupo de notáveis recrutado pela ONU revelou o tamanho do estrago causado por um modelo de desenvolvimento que agrava o efeito estufa, devasta com velocidade jamais vista a biodiversidade, exaure a fertilidade do solo e os suprimentos de água doce e limpa. O relatório final do estudo chamado de “Avaliação Ecossistêmica do Milênio”, é taxativo na parte endereçada aos economistas: “É preciso refazer as contas”.

No mundo dos negócios, quem “faz as contas” leva em consideração duas regras básicas do capitalismo: a maximização do lucro e o retorno do capital investido no menor tempo possível. Esses ensinamentos são repetidos como mantras sagrados nas diversas escolas de administração que preparam o futuro homem de negócios a marcar posição num mercado extremamente competitivo. Alçado a uma posição de destaque, ele terá de apresentar um relatório anual, confirmando (ou não) o cumprimento dos prazos e metas estabelecidos peça direção da empresa. Em última instância, o que será avaliado é a capacidade dele fazer as contas do jeito certo. E garantir os resultados esperados.

Sepação de materiais recicláveis: um belo investimento

Nas compras governamentais – que no Brasil movimentam aproximadamente 10% do PIB -, boa parte das licitações se resolve pelo menor preço. E pronto. Assim como ocorre nos segmentos mais atrasados do meio empresarial, os investimentos em energia limpa, madeira certificada, reciclagem de água, coleta seletiva, e outros empreendimentos sustentáveis, são muitas vezes relegados a segundo plano porque perdem cacife na matemática fria da relação custo-benefício.
Vejamos o exemplo da coleta seletiva. Não é difícil encontrar dentro das companhias de limpeza quem considere a separação de materiais recicláveis perda de tempo e principalmente de dinheiro. A razão é simples: para instituir a coleta seletiva será necessário estabelecer uma nova rotina com uma frota diferenciada de caminhões, funcionários treinados e mais espaço para recolher e separar os recicláveis. Tudo isso custa dinheiro, mas não pode ser entendido como despesa. Trata-se na verdade de um belo investimento, que dá retorno no médio e no longo prazos, quando se contabiliza os seguintes resultados: geração de emprego e renda para os que trabalham no setor reciclagem; redução do volume de lixo transportado para os aterros, uma vez que os recicláveis representam aproximadamente 40% de todos os resíduos sólidos urbanos; aumento da vida útil dos aterros, que passarão a receber predominantemente matéria orgânica e materiais não recicláveis; economia de matéria-prima e energia com o retorno dos recicláveis à cadeia produtiva.

Um outro bom exemplo de que é preciso refazer as contas vem da Amazônia. A maior feira de produtos florestais sustentáveis (realizada em São Paulo neste início de novembro) atraiu as atenções de importantes empresários do Brasil e do mundo. Apenas da Holanda vieram aproximadamente 40 empresários de diferentes setores interessados em fechar negócios num mercado em expansão: o da sustentabilidade. Para os europeus, tem sido cada vez mais importante consumir produtos que gerem emprego e renda na floresta, assegurando a manutenção das áreas verdes do Brasil. Essências aromáticas, couro vegetal, palmito de pupunha, bijouterias de sementes, madeira certificada e outros produtos sustentáveis atraem investimentos que tornam possível o casamento do lucro com a preservação ambiental.

Essa é a visão de longo prazo, do lucro perene, numa floresta protegida. A visão de curto prazo, do dinheiro rápido de forma não sustentável, é aquela que ainda prevalece na região. Quando se desmata para plantar capim e criar gado; quando se retira milhões de árvores para vender madeira no mercado negro a um preço irrisório deixando para trás um rastro de destruição; quando se planta soja em área de floresta, matas ciliares e cabeçeiras de rios; quando se promove o garimpo abrindo buracos no leito dos rios atrás de pepitas de ouro sem nenhum controle, cuidado, ou regulamentação, espalhando mercúrio nos rios amazônicos; quando tudo isso acontece, nos distanciamos rapidamente do sonho de vivermos num país onde o exemplo de desenvolvimento sustentável seja emblemático no mundo.

Em resumo: quando se considera apenas o curto prazo, os números favorecem os inimigos da sustentabilidade. Quando se verifica o retorno do investimento no longo prazo não há a menor dúvida: os produtos florestais, a reciclagem de materiais e todas as iniciativas na direção da sustentabilidade dão lucro.

“Refazer as contas” significa portanto enxergar mais longe, e perceber que as iniciativas apressadas, que visam apenas o maior lucro no menor tempo possível, respondem por boa parte da destruição que castiga hoje o planeta. Que possamos descobrir no nosso dia-a-dia quais as contas que precisam ser refeitas no orçamento doméstico, na contabilidade das empresas e nos projetos nacionais de desenvolvimento.

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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07 de Outubro

Resposta ao aquecimento

É possível que você ainda não tenha se dado conta da situação, por isso, vale o aviso: os próximos anos prometem muitas emoções num planeta onde a temperatura vai subir, e o clima deverá se comportar de forma cada vez mais estranha.
A atual temporada de furacões nos Estados Unidos – e os prejuízos espetaculares causados por sucessivas tormentas – levou o presidente da Comissão Real Britânica para o Meio Ambiente, John Lawton, a afirmar que não há mais dúvidas de que o fenômeno está associado ao aquecimento global. 

Para Lawton, negar que as atividades humanas – principalmente a queima de petróleo, gás e carvão – estejam mudando o clima, seria o mesmo que negar as evidências de que o cigarro causa câncer.

De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU, um colegiado internacional de cientistas que estudam o assunto, a temperatura da Terra deverá aumentar entre 1,4 e 5,8º C nos próximos 100 anos. Entre outras conseqüências, a elevação da temperatura deverá provocar a elevação do nível dos mares – entre 10 e 90 centímetros – e a mudança do ciclo das chuvas.

O aumento do nível de certeza em relação a essas previsões deveria inspirar mudanças importantes em diferentes setores da sociedade para atenuar os impactos que já estão acontecendo. No que diz respeito ao Brasil, há muito o que fazer. O planejamento urbano e as regras para o uso do solo nas cidades costeiras – sob a tutela dos prefeitos – precisam incorporar nos projetos o risco de o mar avançar sobre o continente.

Temos mais de 8 mil quilômetros de litoral que se revelam de forma desigual: praias, falésias, dunas e manguezais. Estudos recentes desenvolvidos por um grupo multidisciplinar de pesquisadores recrutados pelo Ministério do Meio Ambiente revelaram que aproximadamente 40% das praias brasileiras seriam mais vulneráveis ao avanço gradual do mar.

Em pelo menos 22 pontos da costa, da região Norte ao extremo Sul do país, essa vulnerabilidade é maior em manguezais, dunas e áreas densamente povoadas próximas de estuários, como é o caso de Rio de Janeiro e do Recife, que oferecem menos resistência ao mar.

A sugestão dos pesquisadores aos prefeitos de cidades litorâneas é a seguinte: toda nova construção em áreas urbanas deveria guardar uma distância mínima de 50 metros da praia. Nas regiões ainda desocupadas, a distância mínima deveria ser de 200 metros. São recomendações técnicas que, se respeitadas, poderão evitar grandes prejuízos num futuro próximo.

Uma outra medida importante é investir em sistemas de monitoramento do clima mais eficientes. Num cenário em que se prevê o aumento da freqüência e da intensidade das tormentas, não podem faltar recursos que garantam o conhecimento prévio do fenômeno. O violento temporal que castigou o Rio de Janeiro na manhã do último dia 23 de setembro surpreendeu os cariocas, que não foram avisados antecipadamente sobre a chegada da tempestade. Os meteorologistas do Sistema Alerta-Rio denunciaram à imprensa que o radar meteorológico no Pico do Couto (em Petrópolis), que poderia prever a chegada da tempestade com 3 horas de antecedência, estava desativado para reparos há mais de um mês. Será cada vez maior a demanda de eficiência e agilidade no repasse dos informes meteorológicos, principalmente no Sul do país, onde tivemos a primeira ocorrência de furacão de nossa história. E tudo leva a crer que o fenômeno Catarina não será o único na região.

Na esfera empresarial, o dever de casa começa pelas montadoras de veículos. Sendo os automóveis os maiores contribuintes de gases estufa nas cidades, seria ótimo que as montadoras brasileiras repetissem o exemplo da indústria automobilística da Califórnia, nos Estados Unidos, onde a cada nova geração de carros há menor consumo de combustível, mais autonomia, e principalmente metas audaciosas de redução de gás carbônico na atmosfera. Se há conhecimento técnico para reduzir as emissões dos motores, por que não fazê-lo de forma mais agressiva, em benefício de todos?

Nunca foi tão importante promover projetos de reflorestamento (árvores seqüestram carbono da atmosfera) e disponibilizar madeira e lenha certificados, com selo verde, recompensando os esforços de quem retira a madeira da floresta sem destruir a floresta, graças à aplicação dos planos de manejo.

A destinação inteligente dos resíduos sólidos também tem implicações importantes sobre o aquecimento global. No processo de decomposição da parte orgânica do lixo libera-se CH4 (metano), cuja capacidade de reter calor na atmosfera é 23 vezes maior que a do CO2 (dióxido de carbono). Por ser um gás combustível, o metano poderia ser aproveitado para gerar energia a partir dos aterros de lixo, como já acontece em São Paulo, que abriga a maior usina de energia sobre um aterro de lixo do mundo. O Aterro Bandeirantes oferece energia para 200 mil pessoas, com capacidade para dobrar a oferta.

Um levantamento feito pelo Ministério do Meio Ambiente mediu o potencial energético nos 37 maiores aterros de lixo no Brasil. De acordo com a pesquisa, a energia acumulada nestes aterros é suficiente para abastecer uma população estimada em 6 milhões e 800 mil pessoas. Em 2025, o estoque de biogás poderá atender 8 milhões e 800 mil pessoas. O equivalente à população de Pernambuco.

Os orientais nos ensinam que crise é sinônimo de oportunidade. Que o aquecimento global – talvez o maior problema ambiental do século 21 – possa abrir novos caminhos na direção da sustentabilidade, e ajustes importantes nos meios de produção e de consumo.

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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24 de Maio

O tempo dirá

“Eu estou 24 horas por dia nesta causa”. Com a voz firme, apesar da saúde frágil, a ministra Marina Silva enumerava no sábado, 21, dados e estatísticas para justificar sua confiança nos resultados do Plano Nacional de Desmatamento, bombardeado de forma implacável pela imprensa nacional e estrangeira logo depois do anúncio do mais novo índice de desmatamento da Amazônia. Entre agosto de 2003 e agosto de 2004, a maior floresta tropical úmida do mundo perdeu uma área verde equivalente ao estado de Alagoas, ou, como preferem dizer os europeus, superior ao território da Bélgica. O primeiro índice de desmatamento registrado durante o governo Lula é o segundo maior da história: 26.130 quilômetros quadrados de florestas destruídos, inferior apenas ao resultado de 1995, ocorrido durante o primeiro governo Fernando Henrique, quando 29.059 quilômetros quadrados de área verde desapareceram.

“É preciso mais tempo para julgar os resultados do plano de desmatamento”, disse Marina, que durante 25 minutos de conversa por telefone demonstrou serenidade e confiança no futuro. O plano em questão reúne 13 ministérios e está em vigor há apenas 5 meses. A ministra ressaltou que há um processo de desaceleração do desmatamento, que regrediu de 27% em 2002 para os atuais 6%. “Não estamos conformados nem satisfeitos, mas as taxas estão caindo”.

Marina Silva manifestou preocupação com os números referentes ao estado de Mato Grosso, onde o desmatamento vem crescendo ano a ano. No período 2001/2002, Mato Grosso era o segundo estado que mais desmatava, com 35% do total da área destruída. No relatório 2002/2003, o percentual subiu para 42%, com o estado assumindo a liderança do ranking.

Neste último relatório 2003/2004, Mato Grosso dispara com 48% de toda a área desmatada na Amazônia, bem à frente do segundo colocado, o Pará, que aparece com 25%. A ministra chama a atenção para o fato de Mato Grosso ter recebido recursos federais para estruturar a fiscalização e despontar como o estado mais bem aparelhado para conter o desmatamento.

Enquanto o estado governado por Blairo Maggi – que antes de ser político já era o maior produtor mundial de soja – aparece com quase metade da área desmatada em toda a Amazônia, os índices apurados nos outros estados da região pelos satélites do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) revelam uma situação diferente: houve queda nas taxas de desmatamento nos estados do Amazonas (-43%), Acre (-23%), Pará (-9%), Maranhão (-31%), e Tocantins (-47%). Ou seja, o desempenho de Mato Grosso “contaminou” a média anual de destruição dos estados amazônicos. Por conta disso, o governador Blairo Maggi foi convocado pelo CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) para prestar esclarecimentos sobre a devastação da floresta na área sob sua jurisdição.

Sem demonstrar mágoa ou ressentimento, Marina lembra ter encontrado o ministério com apenas 75 funcionários de carreira e inúmeros pedidos de licenciamento ambiental acumulados no IBAMA. Até o fim do governo, segundo a ministra, 900 funcionários deverão ingressar por concurso no ministério emprestando agilidade ao que já deveria estar funcionando bem muito antes da chegada dela.

Para contrabalançar o desgaste político sofrido com a nova lei de biossegurança (que abre caminho para os transgênicos), o polêmico projeto de transposição das águas do rio São Francisco, entre outras medidas do governo Lula que levaram o Partido Verde a abandonar a base aliada, Marina Silva relembra os esforços de sua equipe para emplacar alguns projetos relevantes na área ambiental. Como a transformação de 8 milhões de hectares de floresta em áreas de conservação (principalmente no belicoso estado do Pará); o aumento das áreas de florestas certificadas onde há plano de manejo, de 300 mil hectares para um milhão e 500 mil hectares; a exigência de recadastramento – em parceria com o INCRA – de todos os proprietários de terras com mais de 100 hectares; o “esverdeamento” da BR-163, estrada que liga Cuiabá-Santarém, cujo projeto sofreu inúmeros ajustes na direção da sustentabilidade; a instalação de 19 postos avançados do IBAMA na região amazônica produzindo dados e executando um serviço de inteligência dentro do Instituto.

São realizações que, segundo a ministra, ficaram em segundo plano na mídia. “Meu compromisso é com a realização de medidas estruturantes, não com a pirotecnia”, diz Marina Silva, explicando sua aversão a declarações bombásticas ou medidas de impacto no curto prazo que não tenham efeito pouco tempo depois.

Respeitada por inimigos políticos e ex-aliados, a ministra sabe que empresta ao governo sua biografia e prestígio. Mas confia na sua equipe – boa parte recrutada em organizações ambientalistas – e em Deus. Pode se dizer que sua permanência no governo seja uma questão de fé. No futuro e no Brasil.André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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28 de Março

De olho nos “gatos”

Quem não conhece um devedor, ou já não passou pelo aperto de ser inadimplente? Os endividados estão por toda parte. É gente que no desespero procura banco, agiota, ou lota as missas na Igreja de Santa Edwiges, no dia da padroeira dos endividados. Pois na comunidade Nova Holanda, no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, quem não está em dia com as contas de luz não perde mais o sono. É que a partir de agora, dinheiro não é mais a única forma de pagamento para a fornecedora de energia. Uma parceria inédita entre a Light e a Latasa, oferece descontos na conta de luz em troca de latas de alumínio ou garrafas PET. Desde a segunda semana de março, os moradores interessados no desconto podem levar os materiais recicláveis para o posto da Light na comunidade (Rua Principal s/n°, esquina com Rua Sargento Silva Nunes, das 8h30 às 17h) onde tudo é colocado na balança.

O desconto é proporcional ao peso do material reciclável separado pelo consumidor: R$ 3,40 por cada quilo de lata de alumínio e R$ 0,50 por quilo de embalagem PET. Após a pesagem na balança, o morador leva para casa um comprovante, chamado de vale-luz, que incidirá na conta do mês seguinte. Se por acaso alguém conseguir juntar uma quantidade de vales superior à própria dívida com a Light, o compromisso da companhia é oferecer crédito extra, ou seja, um bônus de energia que será debitado das contas futuras. Todo o material reciclável oferecido pela comunidade para pagar as contas de luz será recolhido pela Latasa, que repassará à Light os valores do desconto.

O projeto tem o mérito de agradar a todos. A Light estima que, graças ao vale-luz, poderá reduzir a inadimplência na comunidade, que hoje é de alarmantes 56%, para 20%. A Latasa espera coletar uma quantidade expressiva de recicláveis, pagando por ela um preço justo, sem reduzir as perspectivas de lucro da empresa. E os moradores inadimplentes, que se angustiam por não poderem pagar a conta de luz, recorrendo muitas vezes ao gato – crime previsto no artigo 155 do Código Penal Brasileiro, com pena de um a quatro anos de prisão e multa –, têm como saldar suas dívidas prestando um enorme serviço social e ambiental. O projeto será avaliado no final do semestre e, se os resultados forem positivos, poderá ser replicado em outras comunidades de baixa renda no Rio de Janeiro.

É interessante imaginar a resolução desse projeto numa escala maior, onde o bom senso possa inspirar o pagamento dos mais variados tipos de dívida – de luz, de água, de gás, etc. – daqueles que comprovadamente experimentam dificuldades financeiras em comunidades de baixa renda, e que seriam contemplados com a possibilidade de honrar seus compromissos de pagamento com outra moeda. Num país onde o número de inadimplentes chega fácil à casa dos milhões, é fundamental que se busquem soluções criativas para reduzir o número de devedores sem institucionalizar o calote.

O projeto piloto “Reciclar vale energia”, em execução na comunidade Nova Holanda, sinaliza um novo rumo nas negociações entre credores e devedores. Enquanto este for um país onde há tanta miséria e pobreza, desemprego e falta de oportunidades, concentração de renda e injustiça social, todos os esforços para reduzir o número de inadimplentes são bem-vindos. Mas esse esforço é absolutamente necessário, quando a solução encontrada for boa para todos os lados.

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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28 de Março

De olho nos "gatos"

Quem não conhece um devedor, ou já não passou pelo aperto de ser inadimplente? Os endividados estão por toda parte. É gente que no desespero procura banco, agiota, ou lota as missas na Igreja de Santa Edwiges, no dia da padroeira dos endividados. Pois na comunidade Nova Holanda, no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, quem não está em dia com as contas de luz não perde mais o sono. É que a partir de agora, dinheiro não é mais a única forma de pagamento para a fornecedora de energia. Uma parceria inédita entre a Light e a Latasa, oferece descontos na conta de luz em troca de latas de alumínio ou garrafas PET. Desde a segunda semana de março, os moradores interessados no desconto podem levar os materiais recicláveis para o posto da Light na comunidade (Rua Principal s/n°, esquina com Rua Sargento Silva Nunes, das 8h30 às 17h) onde tudo é colocado na balança.

O desconto é proporcional ao peso do material reciclável separado pelo consumidor: R$ 3,40 por cada quilo de lata de alumínio e R$ 0,50 por quilo de embalagem PET. Após a pesagem na balança, o morador leva para casa um comprovante, chamado de vale-luz, que incidirá na conta do mês seguinte. Se por acaso alguém conseguir juntar uma quantidade de vales superior à própria dívida com a Light, o compromisso da companhia é oferecer crédito extra, ou seja, um bônus de energia que será debitado das contas futuras. Todo o material reciclável oferecido pela comunidade para pagar as contas de luz será recolhido pela Latasa, que repassará à Light os valores do desconto.

O projeto tem o mérito de agradar a todos. A Light estima que, graças ao vale-luz, poderá reduzir a inadimplência na comunidade, que hoje é de alarmantes 56%, para 20%. A Latasa espera coletar uma quantidade expressiva de recicláveis, pagando por ela um preço justo, sem reduzir as perspectivas de lucro da empresa. E os moradores inadimplentes, que se angustiam por não poderem pagar a conta de luz, recorrendo muitas vezes ao gato – crime previsto no artigo 155 do Código Penal Brasileiro, com pena de um a quatro anos de prisão e multa –, têm como saldar suas dívidas prestando um enorme serviço social e ambiental. O projeto será avaliado no final do semestre e, se os resultados forem positivos, poderá ser replicado em outras comunidades de baixa renda no Rio de Janeiro.

É interessante imaginar a resolução desse projeto numa escala maior, onde o bom senso possa inspirar o pagamento dos mais variados tipos de dívida – de luz, de água, de gás, etc. – daqueles que comprovadamente experimentam dificuldades financeiras em comunidades de baixa renda, e que seriam contemplados com a possibilidade de honrar seus compromissos de pagamento com outra moeda. Num país onde o número de inadimplentes chega fácil à casa dos milhões, é fundamental que se busquem soluções criativas para reduzir o número de devedores sem institucionalizar o calote.

O projeto piloto “Reciclar vale energia”, em execução na comunidade Nova Holanda, sinaliza um novo rumo nas negociações entre credores e devedores. Enquanto este for um país onde há tanta miséria e pobreza, desemprego e falta de oportunidades, concentração de renda e injustiça social, todos os esforços para reduzir o número de inadimplentes são bem-vindos. Mas esse esforço é absolutamente necessário, quando a solução encontrada for boa para todos os lados.

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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22 de Fevereiro

Kioto virou tratado

Depois de sete anos de intensas negociações, entrou em vigor no último dia 16 de fevereiro um acordo internacional sem precedentes na história, que pretende resolver, por etapas, o mais grave problema ambiental do século 21. Impedir o avanço do aquecimento global já havia sido entendido como prioridade durante a Rio-92, quando 175 países assinaram a Convenção sobre Mudança do Clima, que reconhecia a necessidade de uma estratégia internacional para enfrentar a elevação da temperatura da Terra. Cinco anos depois, o Protocolo de Kioto emprestou dentes a essa Convenção, estabelecendo metas e prazos para que os países industrializados, aqueles que historicamente mais contribuíram para o acúmulo de gases-estufa na atmosfera, reduzissem as suas emissões. Dos 141 países que ratificaram o protocolo até agora, 32 pertencem ao seleto grupo dos industrializados, o chamado “Anexo 1”, e deverão, entre 2008 e 2012, reduzir suas emissões em pelo menos 5%, tomando por base o ano de 1990.

Que ninguém espere desse Protocolo a salvação da humanidade. Ele é apenas o primeiro passo, como afirma o próprio documento ao se referir ao prazo de execução das metas como o “primeiro período de compromisso”. Estima-se que o esforço necessário para impedir o avanço do aquecimento global seria uma redução imediata de aproximadamente 60% nas emissões de gases-estufa (dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e outros). Ora, se com um objetivo bem mais modesto os Estados Unidos ─ país que responde sozinho por 25% das emissões globais de gases-estufa ─ ficaram de fora, é de se imaginar o estardalhaço que metas mais ousadas causariam.

O fato é que mal o Protocolo saiu do papel e já se discute intensamente nos meios diplomáticos o que será o Pós-Kioto. À frente do G-8 e assustado com os efeitos colaterais do aquecimento, o primeiro-ministro britânico Tony Blair está empenhado em atrair os Estados Unidos para o “segundo período de compromisso”. O Governo Bush considera a implementação do Protocolo ─ e eventuais mudanças na matriz energética daquele país ─ sinônimo de custos extras e aumento do desemprego. Mas a Casa Branca também critica o fato de o Protocolo ter livrado de compromissos formais de redução países como China, Índia e Brasil, que, segundo estimativas da ONU, terão superado no ano de 2015 os países desenvolvidos nas emissões de gases-estufa. Essa crítica dos Estados Unidos encontra ressonância em outros países ricos, que também exigem o enquadramento dos países em desenvolvimento a partir de 2012. A posição do Governo brasileiro, em sintonia com o bloco dos emergentes, é a de que 90% dos gases acumulados na atmosfera desde o início da Revolução Industrial têm origem nos países industrializados, e que não seria justo punir com metas de redução os países que se desenvolveram mais tarde.

Como se vê, a posição dos países no tabuleiro das negociações fica mais ou menos vulnerável conforme a escala de tempo escolhida. No caso do Brasil, por exemplo, se a contabilidade das emissões resgatar o passivo de todos os países nos últimos 150 anos, nossa parcela de contribuição se restringiria a aproximadamente 1% do total de gases acumulado na atmosfera. Este é o número que o Itamaraty exibe mundo afora e que justificaria nosso suposto direito de poluir sem prejuízos para o desenvolvimento. Numa escala de tempo menor, que é a que interessa aos países ricos, os emergentes aparecem como vilões. A China, que queima carvão mineral para alimentar sucessivos recordes de crescimento do PIB, já seria o segundo maior emissor de gases-estufa do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Brasil e Índia estariam entre os seis maiores emissores.

Nosso calcanhar de Aquiles continua sendo a Amazônia. Segundo estudo divulgado recentemente pelo próprio Governo brasileiro, mais de 77% do gás carbônico lançado na atmosfera tem origem nas queimadas. O fogo na floresta apaga em certa medida a vantagem de possuirmos uma matriz energética limpa (baseada principalmente na hidroeletricidade), o uso do álcool como combustível e outros indicadores que nos distinguem positivamente nas negociações do clima.

Apesar de todas as dificuldades, sair da inércia é o grande mérito do Protocolo de Kioto. A simples vigência desse acordo já está desencadeando uma avalanche de investimentos na economia ─ energia limpa, aterros sanitários, projetos de reflorestamento etc. ─, com importantes impactos ambientais. Há muito o que fazer, e os desafios pela frente são imensos. Mas o primeiro passo, por ser o mais difícil, é também o mais importante.

* Este artigo foi publicado no jornal O Globo, em 11 de fevereiro passado.
André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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28 de Janeiro

Perguntando às árvores

Tente se lembrar de tudo o que você já ouviu dizer por aí sobre as vantagens de se plantar árvores. Embelezam a paisagem, oferecem frutos e sombra, seguram o solo nas encostas, atraem passarinhos…A lista é grande. Mas em tempos de aquecimento global, há algo de muito importante em relação às árvores que precisa entrar na sua lista. É que a árvore, para crescer, retira carbono da atmosfera. Tão importante quanto a água, os nutrientes do solo e a luz do sol, o carbono disponível na atmosfera é alimento para a árvore.

Desde o início da Revolução Industrial, há quase 200 anos, desenvolvimento é sinônimo de fumaça. A queima progressiva de petróleo, gás e carvão – os chamados combustíveis fósseis – gerou prosperidade e riqueza, mas fez com que a quantidade de carbono na atmosfera passasse de 280 ppm (partes por milhão) em 1860, para 360 ppm nos dias de hoje.

A saturação de CO2 na atmosfera agravou o chamado efeito estufa, já que a radiação solar que entra na Terra produzindo calor não consegue retornar ao espaço sem esbarrar num imenso colchão de gases situado a aproximadamente 20 quilômetros de altura. Estima-se que a humanidade lance 7 bilhões de toneladas de carbono por ano na atmosfera. Quatro bilhões são absorvidos pelos oceanos e florestas. O resto vai se acumulando lenta e perigosamente, gerando impactos importantes sobre o clima do planeta.

Não há como resolver esse problema sem mudar a matriz energética dos países industrializados, ou seja, substituir petróleo, gás e carvão por fontes mais limpas de energia. É sobre isso que se detém o Protocolo de Kioto, que entra em vigor no próximo dia 16 de fevereiro. Mas plantar árvores é uma alternativa reconhecida pelo próprio Protocolo como uma das ferramentas importantes para reduzir o estoque de carbono da atmosfera.

Os países industrializados poderão recorrer a projetos de reflorestamento (recomposição de áreas verdes) ou aflorestamentos (plantar onde nunca houve floresta) num limite que corresponde a 1% do total de gases a serem reduzidos por cada país, entre 2008 e 2012.

Nesta área da ciência ainda há mais perguntas do que respostas. Não se sabe exatamente como as árvores seqüestram esse carbono, e como reagem ao acúmulo de CO2 na atmosfera. No Laboratório de Mudanças Climáticas do Jardim Botânico de São Paulo, cientistas brasileiros desenvolvem experiências inéditas no mundo na busca dessas respostas.

Já se sabe, por exemplo, como o jatobá – uma espécie nativa do Brasil – se comporta num ambiente saturado de gás carbônico. Mudas de jatobá foram colocadas numa câmara que reproduz a atmosfera que o planeta deverá ter daqui a 50 anos, com o dobro de carbono. A reação da planta chamou a atenção dos pesquisadores. Ao mesmo tempo em que o número de estômatos – as “bocas” da planta situadas do lado de baixo das folhas – caiu de 70 mil para 50 mil, a capacidade de reter carbono aumentou em 30%. O coordenador da pesquisa, Dr. Marcos Buckeridge, se referiu assim à experiência: “Nós últimos 400 mil anos as plantas não viram uma concentração de gás carbônico tão alta. Então elas estão tão surpresas quanto nós ao ver essas mudanças na atmosfera”.

Em outras espécies, o acúmulo de carbono provocou queda de folhas. Para os cientistas, é bastante provável que a razão pela qual as folhas caem seja o aumento da produção de radicais livres, que reduzem a longevidade dos seres vivos. Se nos seres humanos o excesso de alimento faz mal, nas plantas não seria diferente.

Uma das linhas de pesquisa mais interessantes é a que vai investigar a matéria-prima do açúcar e do álcool. “Nós estamos estudando intensamente a cana-de-açúcar. Nós vamos fazer agora um experimento de um ano e meio para ver se a produtividade da cana aumenta quando há mais gás carbônico na atmosfera”, explica Marcos Buckeridge. Segundo ele, o fato de o Brasil ter sido pioneiro da descoberta do código genético da cana-de-açúcar estimula a realização de pesquisas de melhoramento da espécie.

“Nós podemos usar esse conhecimento para melhorar a cana e produzir variedades que possam seqüestrar mais carbono da atmosfera”, diz o cientista. Um dos desdobramentos possíveis dessa pesquisa seria o de replicar em diferentes espécies vegetais o potencial de absorver mais carbono. As mesmas plantas, modificadas pelos cientistas, reteriam muito mais carbono da atmosfera.

Tudo isso ainda é muito novo e as pesquisas estão apenas começando. Mas na guerra contra o aquecimento global, não há dúvida de que as espécies vegetais têm um papel estratégico importante. Num país do tamanho do Brasil, onde metade do território é ocupado pela Amazônia, não desmatar de forma criminosa e inconseqüente já seria um bom começo.André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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