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Domingo, 24/07/16, às 08:31

Já não se fazem telhados como antigamente

Tente imaginar as cidades brasileiras vistas de cima. Agora repare no desperdício que é a soma dos telhados de todas as edificações.

O modelo construtivo convencional banalizou a função dessa parte de casas, prédios, escolas, ginásios, estádios etc. Ainda hoje, ensina-se em muitos cursos de engenharia e arquitetura que o telhado é apenas um telhado.

Um reles arremate que cobre o que está embaixo. Não seria exagero chamar a isso de crime de lesa-cidade. No século 21, essas áreas ganham progressivamente importância e prestígio na promoção da qualidade de vida de seus donos com múltiplos usos inteligentes. Quem mora em São Paulo aprendeu isso na raça. No auge da crise hídrica, muita gente adaptou às pressas o telhado para captar água de chuva.

Segundo a ANA (Agência Nacional de Águas), uma casa com 100 m² de área de telhado no centro da capital paulista pode captar água suficiente para abastecer uma família de quatro pessoas em suas necessidades de limpeza e descarga do vaso sanitário, por exemplo.

Dependendo da localização, o telhado pode ser uma miniusina solar. Um kit completo, incluindo inversores e outros acessórios, custa cerca de R$ 15 mil e é capaz de reduzir em até 80% a conta de luz, com o retorno do capital investido em, no máximo, 12 anos. É caro, mas o valor vem caindo 5% ao ano.

O telhado verde, com o plantio de certas espécies mais indicadas para esse fim, promove o isolamento térmico e acústico e, se desejar, captação de água de chuva. Tudo isso sem falar no ar caprichoso da casa, que fica parecendo ter saído de um conto de fada dos irmãos Grimm.

Quer experimentar algo mais simples e barato? Pinte todo o telhado com tinta branca reflexiva e reduza em até 70% a temperatura no interior da construção, além de refletir os raios solares que agravam o efeito estufa. Um projeto simples, de eficácia indiscutível e que assegura bem-estar pessoal e munição extra contra o aquecimento global.

Faltou ainda falar das lajes, que permitem ter jardins e hortas. Mas isso já é outra história.

 

André Trigueiro

 

Fonte: Folha de S. Paulo

 

 

 

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Domingo, 26/06/16, às 12:28

Papa, formigas e Black Friday

Elas são pequenas, frágeis, aparentemente vulneráveis, mas não há força conhecida que tenha conseguido erradicá-las do planeta. Já resistiram a glaciações, inundações, incêndios, formicidas… Preconceituosamente, há quem as considere uma praga, principalmente ao rivalizar conosco a disputa por alimentos.

Pode até ser. Mas as formigas que chegaram por aqui antes de nós, há aproximadamente 100 milhões de anos, nos trazem um ensinamento valioso nestes tempos de crise (ou de múltiplas crises que se entrelaçam caprichosamente).

Se elas ainda não desapareceram do mapa é porque, na base da sofisticada organização social de um formigueiro, está implícito um conhecimento adquirido ao longo de um complexo processo evolutivo, “ensinando” que a resiliência do grupo passa por um projeto coletivo. Podemos chamar esse comportamento -comum a muitas espécies- de instinto de sobrevivência.

Enquanto as formigas se mantêm em constante estado de alerta, nós, que também somos dotados de instinto, seguimos perigosamente distraídos, indiferentes ou distantes dos acachapantes sinais de perigo que nos cercam. Todos causados por nossos estilos de vida e atuais padrões de consumo.

Já percebemos a nossa parcela de culpa na crise climática, na falta d’água ou na péssima qualidade do ar que respiramos. Abalamos o software inteligente da vida, mas hesitamos em instalar o antivírus correto porque sabemos que isso implicaria em uma profunda revisão de valores, atitudes e comportamentos.

Que tal um novo mundo onde a Black Friday não tenha efeito hipnótico, o closet só guarde o que seja efetivamente útil, tenhamos objetivos existenciais mais nobres do que consumir, acumular, ostentar?

Há um ano o papa Francisco apresentou em sua encíclica “Laudato Si” o que para muitos vem a ser a grande síntese dos tempos modernos. Segundo ele, o atual modelo de desenvolvimento promove a exclusão social e a destruição da natureza, enquanto a ganância, o individualismo e o consumismo ameaçam a nossa espécie.

Que as formigas nos inspirem. Nada pode ser mais importante que a sobrevivência. Ainda há tempo.

 

André Trigueiro

 

Fonte: Folha de S. Paulo

 

 

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