Matérias atualizadas a cada um domingo por mês.

Domingo, 05/03/17, às 14:02

Preste atenção aos sinais

Brasília está completando hoje a primeira semana de sua História com racionamento de água no Plano Piloto. Cumpre-se a profecia dos hidrólogos que há anos vêm denunciando o risco de um colapso no abastecimento da capital federal.

Falta de chuva e um gigantesco desperdício estão por trás da medida, que está longe de ser um fato isolado. A estiagem que desidrata importantes reservatórios do país (especialmente na Região Nordeste) levou a Aneel a determinar dias atrás o religamento das térmicas – mais caras e poluentes – e o resultado disso vai pesar na sua próxima conta de luz.

Não faz muito tempo, São Paulo registrou dois verões seguidos sem chuva, o Sistema Cantareira secou, e sem dispor de um plano “B” que evitasse a redução do consumo, a cidade mais rica e populosa do Brasil foi obrigada a experimentar o gosto do “volume morto”.

A mudança do ciclo da chuva também surpreendeu a maior floresta úmida do planeta. A Amazônia enfrentou em 2005 o que foi chamado na época de “a seca do século”. Especialistas afirmavam que estiagens severas como aquela costumavam acontecer em intervalos de aproximadamente 100 anos. Pois bastaram apenas cinco anos para que a Floresta Amazônica registrasse em 2010 uma seca ainda pior, com impactos importantes sobre a população e o bioma.

É preciso ligar os pontos e prestar atenção aos sinais. O país que detém o maior estoque de água doce do mundo (12%) transformou seus rios em valões fétidos de esgoto (a agenda do saneamento segue ralentando), aprovou um Código Florestal que enfraqueceu a resiliência das bacias hidrográficas, permitiu a destruição da Bacia do rio Doce (maior desastre ambiental do Brasil) com licenciamento frouxo e fiscalização ineficiente. Também está prestes a autorizar a exploração da maior mina de ouro a céu aberto do país no Pará, a apenas 11 Km de distância da hidrelétrica de Belo Monte (ambos os empreendimentos impactam diretamente a bacia do rio Xingu), entre outras ações ou inações polêmicas e perturbadoras.

No livro “Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso”, o geógrafo americano Jared Diamond revela que importantes civilizações do passado (vikings, maias, ilhéus de Páscoa etc.) desapareceram do mapa a partir do momento em que deixaram de ser sustentáveis. Um traço comum a essas civilizações foi a falta d`água.

A escassez de água não é um problema exclusivo do Brasil e precisa inspirar uma vigorosa agenda internacional. Repetir os erros do passado não é sinal de inteligência.

 

André Trigueiro

 

Fonte: Folha de S. Paulo

 

 

Expandir

Domingo, 05/02/17, às 11:46

Ultranacionalismo agrava crise ambiental

Sou daqueles que acreditam que num futuro próximo (ainda neste século) a humanidade será compulsoriamente obrigada a rever vários conceitos, hábitos e comportamentos por motivo de sobrevivência.

Por exemplo: a escassez crescente de água (que já atinge 40% da população do planeta) combinada com a desertificação do solo determinarão o aparecimento de um novo cardápio com menos proteína animal, mais algas e provavelmente insetos. A FAO já vem estimulando desde 2012 a ingestão de bichinhos como os grilos, que têm 12 vezes mais proteína do que um bife, com menos necessidade de água.

O risco de um colapso hídrico também justificará legislações severas com multas cada vez mais pesadas para quem desperdiçar esse precioso recurso. Grandes levas de refugiados ambientais expulsos de suas terras por eventos climáticos extremos ou pela elevação do nível do mar não terão para onde ir, agravando a tensão geopolítica.

Os combustíveis fósseis serão progressivamente estigmatizados pela sociedade, que, em atendimento aos apelos dos cientistas, pressionará os governos a mudar rapidamente a matriz energética para fontes limpas e renováveis. Tudo será urgente, tudo será complicado, tudo demandará a habilidade de uma nova geração de políticos que, infelizmente, ainda não apareceu.

Nossa única chance de enfrentar os cenários sombrios que se avizinham é um projeto de civilização que extrapole as fronteiras nacionais e alcance um modelo global de desenvolvimento que respeite os limites da Terra. É globalização, sim, no sentido mais inclusivo e justo possível, com regras que regulem o uso dos recursos naturais fundamentais à vida, respeitando a autonomia relativa de cada país.

Biomas, ecossistemas, bacias hidrográficas e principalmente o clima se espraiam pelo planeta ignorando a divisão territorial das nações. Ou resolvemos coletivamente a maior crise ambiental da história ou haverá mais escassez e mais conflitos. Reconfigurar o papel da ONU –ou reinventar a ONU– poderia ser o ponto de partida de um movimento em favor de outro sistema de governo e de governança.

Donald Trump vai na contramão de tudo isso. Se fracassar em seu projeto ultranacionalista, pode ajudar o mundo a perceber a urgência de um projeto coletivo. Do contrário, relaxe provando um grilo no jantar. Dizem que com mel fica gostoso.

 

André Trigueiro

 

Fonte: Folha de S. Paulo

 

 

 

Expandir

Domingo, 08/01/17, às 10:26

Carta aberta aos prefeitos

Por pior que sejam os problemas de caixa, as dívidas acumuladas pelo município e as surpresas ruins que todos vocês tiveram nesta primeira semana de governo, lembrem-se de que a paciência do eleitor é curta para quem só sabe reclamar da vida ou do destino. Aliás, todos vocês já sabiam desde a época de campanha -antes até- que a situação era difícil. Agora é arregaçar as mangas e fazer as coisas acontecerem.

Se escolherem o caminho da sustentabilidade, a chance de dar certo é maior.

Dê destino correto para os resíduos (a maioria das cidades ainda tem lixões) e, se não houver recursos para instalar um aterro sanitário no curto prazo, promova a coleta seletiva (de lixo seco) e a compostagem (de matéria orgânica) para reduzir os danos ambientais que a sua cidade causa. Pode ser que isso gere uma economia de recursos.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as cidades precisam ter 12 metros quadrados de área verde por habitante. Faça a conta e veja se o seu município tem cobertura vegetal suficiente para garantir umidade, temperatura e bem-estar mínimos para os moradores. A relação custo-benefício de um projeto de arborização urbana é das mais vantajosas que existem.

Seja amigo da bicicleta, das hortas urbanas, da reciclagem, do reúso de água e do IPTU Verde (que beneficia quem realiza intervenções sustentáveis no imóvel).

Persiga os poluidores que desrespeitam a lei, tenha rédea curta com a especulação imobiliária, tolerância zero com as ocupações irregulares. Seja um bom xerife da qualidade de vida de todos, sem privilégios. Nomeie um secretário de Meio Ambiente que saiba contrariar interesses e não tenha medo de dizer não quando necessário. Se o secretário em questão não for da área ambiental (mas seja um bom gestor), nomeie como subsecretário alguém que saiba o que é “DBO” ou “licenciamento ambiental” para ser o anjo da guarda sustentável do chefe. Puna exemplarmente os casos de corrupção e cerque-se de quadros técnicos confiáveis e honestos.

Muita atenção com os empresários de ônibus, com os construtores e com aqueles que recorrem a influência e dinheiro para privilegiar os interesses pessoais em detrimento do coletivo.

Privilegie os mais pobres e faça um pacto com a sua consciência: em nenhuma hipótese entregar uma cidade mais degradada para seu sucessor.

 

André Trigueiro

 

Fonte: Folha de S. Paulo

 

 

 

 

 

Expandir

Domingo, 11/12/16, às 12:57

Em um ano, Amazônia perdeu 859 árvores por minuto

Entre agosto de 2015 e julho de 2016, a Amazônia perdeu 859 árvores por minuto. Esses 7.989 km² de destruição equivalem a cinco vezes a área total do município de São Paulo e confirmam uma perigosa tendência de descontrole sobre o desmatamento, já que este é o terceiro ano seguido de aumento da destruição da floresta.

Na opinião de especialistas, há uma relação desses dados com o Código Florestal aprovado em 2012 sob as bênçãos do então relator, o deputado Aldo Rabelo, que o dedicou “aos agricultores brasileiros”.

De nada adiantaram as advertências de que o texto fragilizava os mecanismos de proteção das áreas verdes, os protestos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a denúncia da Agência Nacional de Águas de que o texto aprovado ameaçava a resiliência das bacias hidrográficas, a veemente crítica de Aziz Ab’Saber –um dos maiores cientistas do país– de que o código favorecia os que têm mais dinheiro.

Aprovada e sancionada, a nova lei estabelecia um prazo para que os proprietários rurais preenchessem o CAR (Cadastro Ambiental Rural) e, dessa forma, se enquadrassem nas regras de proteção que definiam um percentual de área verde preservada que variava de acordo com o bioma onde estivesse inserida (80% de proteção na Amazônia, 35% no cerrado, 20% nos Campos Gerais, e 20% em biomas das demais regiões do país).
O prazo definido para o preenchimento do CAR já expirou sem que a totalidade dos proprietários tenham cumprido a lei, o que obrigou o governo a prorrogar a data final de entrega do documento para 31/12/2017.

Para o Ministério do Meio Ambiente, proprietários rurais estariam desmatando áreas de floresta antes de formalizarem a entrega do CAR, o que explicaria em parte o avanço do desmatamento (outra causa possível é a falta de recursos, que paralisa a fiscalização).

O ministério assegurou dispor de meios que permitem flagrar essa tentativa de fraudar a produção de dados, e afirmou aguardar o sinal verde da Controladoria Geral da União para divulgar os números já reunidos, permitindo assim que qualquer um possa monitorar eventuais desmatamentos ilegais. O anúncio elevou a tensão entre os ruralistas.

Para ler esse texto até aqui, caro leitor, você consumiu tempo suficiente para a destruição de mais 1.289 árvores. Até hoje, uma área verde equivalente a metade do Estado do Amazonas já foi destruída na maior floresta tropical do mundo. Desmatamento ilegal é crime. Mas quem vai para a rua pedir o fim dessa impunidade?

 

André Trigueiro

 

Fonte: Folha de S. Paulo

 

 

 

 

Expandir

Domingo, 13/11/16, às 11:28

“Trumpalhadas” no clima

Se o presidente eleito dos Estados Unidos levar à frente o que disse em campanha a Humanidade terá menos chances de resolver o maior problema ambiental do século XXI. Donald Trump prometeu retirar o país – segundo maior poluidor do planeta e maior emissor per capita de CO2 – do Acordo Global do Clima fechado em Paris em dezembro do ano passado. Ainda que não possa fazer isso de imediato – um país deve esperar no mínimo 3 anos para retirar-se do Acordo – Trump poderá causar imensos estragos no esforço global para evitar os piores cenários do clima. Se ignorar os compromissos firmados no Tratado, dará um péssimo sinal para os demais países, que poderão se sentir igualmente desobrigados de realizar os esforços necessários nessa direção. A eleição de Trump caiu como uma bomba na COP-22 em Marrakech, que discute até a próxima sexta-feira a implementação do Acordo do Clima. O fato é que hoje ninguém sabe ao certo qual será o destino do Tratado.

Trump se comprometeu a retomar os investimentos em combustíveis fósseis, esvaziar a EPA (Environmental Protection Agency) e congelar as políticas implementadas por Obama nos últimos 8 anos em favor de fontes limpas e renováveis de energia. A comunidade científica deixou clara a aversão à proposta de Trump, ao reunir em um documento 375 assinaturas (entre as quais as do físico britânico Stephen Hawking e a do Prêmio Nobel de Física Steven Chu) em que denunciam que “as consequências seriam duras e de longo prazo, tanto pelo clima do nosso planeta como pela credibilidade internacional dos Estados Unidos”.

Apenas no ano passado a oferta de vagas no próspero mercado de energia renovável cresceu 5% em todo o mundo com 8 milhões de empregados, principalmente em atividades ligadas à geração de energia solar, eólica e à produção de biocombustíveis. Dez por cento desse contingente – aproximadamente 800 mil trabalhadores – são norte-americanos.

Se o isolacionismo proposto pelo candidato republicano for de fato confirmado há um grande risco de o Acordo do Clima ser implodido. Se isso acontecer, segmentos da sociedade civil pró-Acordo em vários países poderão pressionar seus respectivos governos a questionarem Trump e, eventualmente, defenderem boicotes comerciais e outras ações contra os Estados Unidos. É esperar para ver.

 

André Trigueiro

 

Fonte: Folha de S. Paulo

 

 

 

Expandir

Domingo, 16/10/16, às 12:10

E o “teto” para o lixo?

O mesmo Congresso que deu sinal verde para que o governo possa adotar um limite de gastos no setor público (batizado de teto) empurrou com a barriga o limite do prazo dado pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (previsto para agosto de 2014) para que o país eliminasse de vez os lixões espalhados hoje por 60% dos municípios.

Sem que o limite da irresponsabilidade sanitária tenha sido claramente definido até agora (há vários projetos dormitando no Congresso) prefeitos eleitos em 3.326 cidades com vazadouros clandestinos poderão seguir o mau exemplo que vem de cima: a apenas 15 km da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, o Lixão da Estrutural ainda ostenta a condição de maior vazadouro a céu aberto da América Latina. Os vapores do lixo no Planalto Central parecem inebriar nossos representantes no Executivo e no Legislativo, que deveriam ler o recém-lançado relatório da Abrelpe (Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública) sobre o panorama dos resíduos sólidos no Brasil.

A pesquisa informa que mesmo durante a recessão de 2015 (quando a queda do PIB foi de 3,8%) o Brasil conseguiu gerar mais lixo. Foi a primeira vez que isso aconteceu em 13 anos de pesquisa, já que a queda da atividade econômica costuma ser acompanhada pela menor geração de resíduos. Não foi o que aconteceu desta vez. Em média, cada brasileiro gerou no ano passado 391 kg de lixo (pouco mais de 1 kg por dia).

Considerando apenas o despejo irregular de entulho e de lixo hospitalar, foram jogadas nas vias públicas do Brasil no ano passado 125 milhões de toneladas de resíduos, o suficiente para encher 125 estádios do Maracanã.

Ao todo, 76,5 milhões de pessoas sofrem os efeitos da destinação inadequada do lixo. Nossa indiferença para com a situação do lixo parece ser a mesma que permitiu uma das maiores tragédias sanitárias do mundo, com a coleta de apenas metade de todo o esgoto lançado por mais de 206 milhões de pessoas (lembrando que, da parte que chega a ser coletada no país, apenas 40% recebem algum tratamento).

Chegará o dia em que toda a cúpula de um governo (se preciso for, depois de almoços e jantares com parlamentares) anunciará um teto.

 

André Trigueiro

 

Fonte: Folha de S. Paulo

 

 

 

 

 

 

 

Expandir

Domingo, 18/09/16, às 13:05

Rompendo o silêncio sobre o suicídio

“Às vezes tem um suicida na sua frente e você não vê”. Foi o que escreveu, num pedaço de papel, o motoboy que se atirou dias atrás do 17º andar do Fórum Trabalhista de São Paulo. Ele levou junto o filho de quatro anos, para perplexidade da família e dos amigos.

O assunto teve ampla repercussão nas mídias, da mesma forma que outra tragédia ocorrida no mesmo dia no Rio de Janeiro, quando um empresário matou a família e se suicidou. Curiosamente, os mesmos veículos de comunicação que abriram generosos espaços para essas histórias ignoram ou são extremamente econômicos na divulgação do Setembro Amarelo, a campanha internacional que promove a valorização da vida e a prevenção do suicídio.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, é possível prevenir o suicídio em 90% dos casos, por ser fruto de psicopatologias diagnosticáveis e tratáveis, como a depressão. Entende-se, então, porque é caso de saúde pública no Brasil (32 óbitos por dia) e no mundo (2.200 casos por dia).

Ao passar dos 800 mil casos ao ano, já supera o número de mortes por homicídios ou conflitos armados em todo o planeta. A OMS pede que se divulgue amplamente os fatores de risco associados ao autoextermínio e também os serviços de prevenção do suicídio, como é o caso, aqui no Brasil, do Centro de Valorização da Vida (CVV). Ainda assim, em muitas Redações, prevalece o tabu.

No último dia 10/9, por exemplo, apesar da pouca divulgação, várias ações marcaram o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, ponto alto do Setembro Amarelo.

Monumentos foram iluminados de amarelo, os jogadores de Flamengo e Vitória entraram em campo pelo Campeonato Brasileiro com camisetas e munhequeiras amarelas (além de uma faixa da campanha), e encontros foram organizados em todo o país para debater a prevenção do suicídio.

Está na hora de romper o silêncio e cobrar do governo a devida capacitação dos profissionais de saúde lotados nos CAPs (Centros de Atenção Psicossociais), a implementação da Política Nacional de Prevenção do Suicídio (aprovada em 2006 e que dormita em alguma gaveta do Ministério da Saúde), a inclusão da suicidologia nos cursos de formação dos médicos e a assistência adequada aos “sobreviventes de si mesmo” (e aos familiares do suicida), entre outras medidas. A mobilização em favor da vida é o que empresta sentido à palavra civilização.

 

André Trigueiro

 

Fonte: Folha de S. Paulo

 

 

 

Expandir

Domingo, 21/08/16, às 22:40

No cheque especial

Daqui a uma semana a União Internacional de Ciências Geológicas reunirá na Cidade do Cabo, na África do Sul, alguns dos mais importantes cientistas do mundo para decidir, entre outras questões relevantes, se o planeta já teria ingressado em uma nova era geológica denominada Antropoceno.

O termo não é novo e já é usado informalmente por vários especialistas para designar um período em que a nossa espécie vem alterando de tal maneira o clima e os ecossistemas que já não seria possível explicar o planeta sem nós. E isso não é propriamente um elogio.

Um exemplo do que somos capazes: a maior parte da água doce do planeta (em seu estado líquido e superficial) encontra-se estocada ou canalizada em estruturas artificiais. Isso pode funcionar muito bem (como nos reservatórios que abastecem Nova York) ou resultar em imensos desastres (como a irrigação das culturas de algodão da ex-União Soviética que transformou o mar de Aral em um deserto).

O Antropoceno foi lembrado em vários eventos internacionais no último 8 de agosto no Dia da Sobrecarga da Terra, quando, de acordo com os cálculos da Global Footprint Network, exaurimos -naquela data- os recursos do planeta que deveriam estar disponíveis para toda a humanidade até o último dia de 2016. Em bom português, entramos no “cheque especial”. Desde 2001 isso acontece cada vez mais cedo (em média, essa data-limite é antecipada três dias a cada ano).

Para suprir hoje a atual demanda de recursos naturais da humanidade, deveríamos ter uma Terra e “meia”. Como não há “meio planeta” disponível por aí, o jeito é saber usar com inteligência os recursos que nos restam.
Se o evento da Cidade do Cabo tornar oficial o Antropoceno teremos a chance de construir uma nova narrativa e refletir, em outros termos, sobre os problemas ambientais que já nos afligem. É uma oportunidade de ampliar o senso de urgência em favor das mudanças que precisam acontecer rápido.

Aulas de Antropoceno nas escolas e universidades, mais pessoas qualificadas para conceber projetos públicos ou privados com baixa pegada ecológica, mais gente percebendo que, se não fizermos o dever de casa, a casa cai.

A espécie líder, no topo da cadeia evolutiva, se vê agora acuada pelos próprios feitos. Corrigimos o rumo ou pereceremos.

 

André Trigueiro

 

Fonte: Folha de São Paulo

 

 

 

 

Expandir
Página 1 de 212