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18 de Julho

A lição da Olimpíada de Sidney

“As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”, sacramentou o prefeito César Maia, citando o poetinha Vinícius de Moraes, para espezinhar os paulistas minutos depois de o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) anunciar que o Rio de Janeiro vencera São Paulo e vai representar o Brasil na acirrada disputa internacional para ver qual cidade vai sediar os jogos olímpicos de 2012. Mas o próprio prefeito sabe que a exuberância da paisagem do Rio não garante por si a vitória da cidade. Do fracasso da campanha Rio 2004, ficaram algumas lembranças doídas. Segundo o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, o movimento que levou a cidade inteira a acreditar que o Rio estava no páreo foi conduzido por políticos, e não por técnicos.

Uma das maiores gafes da história do movimento olímpico foi a visita dos dirigentes do Comitê Olímpico Internacional (COI) à Ilha do Fundão, onde seriam construídas várias instalações para os Jogos. Foi flagrante o constrangimento dos visitantes ao verem de perto o nível de poluição das águas e sentirem o cheiro de podre que vinha do Canal do Cunha.

Não é por capricho que a questão ambiental é uma das prioridades do COI. Em 1994, o Congresso Olímpico realizado no centenário dos Jogos, em Paris, determinou que “depois do esporte e da cultura, o meio ambiente é a terceira área mais importante do movimento olímpico” e que por isso, “os Jogos deveriam ser realizados de modo a estimular a consciência ambiental e o desenvolvimento sustentável”. Decidiu-se que a partir dali, as cidades candidatas deveriam seguir dez quesitos ambientais que aparecem em lugar de destaque no site do COI (www.olympic.org). Em pelo menos três quesitos, a pré-candidatura do Rio de Janeiro ainda não disse a que veio:

– “Dar detalhes sobre os planos que estão sendo elaborados para lidar com o lixo sólido, o tratamento de resíduos e o fornecimento de energia, e declarar como se espera que isso influenciará no futuro a cidade”.

– “Declarar se foram desenvolvidos pelas autoridades competentes estudos de impacto para todas as instalações”

– “Indicar se existe, dentro do Comitê que trata da candidatura, um programa de consciência sobre proteção ambiental e declarar quais são os planos da Comissão Organizadora a esse respeito.”

“Olímpiadas Verdes” em Sidney: parâmetro para o Rio

Quando se questionam as autoridades do Rio sobre as demandas ambientais da cidade – e as exigências do Comitê Olímpico Internacional – a resposta sai pronta como se fosse uma receita de bolo, e velhos projetos que dormitavam nas gavetas dos palácios são ressucitados: a despoluição da Baía de Guanabara, o saneamento da Barra da Tijuca e Jacarepaguá, a dragagem das lagoas da região, e outras melhorias ambientais que associadas à extensão do Metrô e a implantação do Leve sobre Trilhos, seriam o grande trunfo carioca para sediar as primeiras Olimpíadas do Hemisfério Sul. Embora importantes, essas obras asseguram apenas que o Rio de Janeiro evitaria um novo vexame, se habilitando a uma candidatura séria e respeitada. Mas para impressionar positivamente os dirigentes do COI é preciso ir além, como Sidney foi.

Eu participei da cobertura das Olimpíadas 2000, na Austrália, e vi de perto o esforço dos organizadores em ajustar, nos pequenos detalhes, toda a infraestrutura dos Jogos às premissas ambientais. Antes mesmo da construção das instalações olímpicas, o projeto original foi mudado para garantir a sobrevivência de uma das únicas colônias de reprodução do sapo verde e dourado do mundo. Exagero? Espera só para ver o resto. A principal fonte de energia dos Jogos era 100% limpa. A Vila Olímpica com 665 casas se transformou no maior bairro dotado de energia solar do planeta. Em todo o Parque Olímpico, imensas torres captavam a energia que vem do sol para iluminar as competições no estádio olímpico, no Superdome e em todas as instalações esportivas.

O porta-voz do Comitê Olímpico Internacional, o australiano Michael Bland, justificou assim os investimentos em energia solar: “Queremos fazer com que a energia solar se torne popular em todos os países. É ridículo que na Austrália, todas as casas não usem um captador de energia solar. Temos os telhados, temos o sol, e os desperdiçamos. É um jeito estúpido de levar a vida”. Em relação à água doce, que é um recurso finito e cada vez mais escasso no planeta, os australianos foram criativos. As águas da chuva, do complexo de piscinas e do tratamento de esgotos, eram canalizadas para reúso em vasos sanitários e irrigação de jardins.

A preocupação com o lixo justificou inúmeros procedimentos inéditos numa Olimpíada. A maior parte da comida foi servida em pratos de cerâmica, que eram lavados e reutilizados. E os pratos, xícaras e talheres descartáveis eram todos de plástico reciclável ou feitos a partir de derivados de glucose de milho, que podiam ser jogados fora junto com o alimento porque também eram matéria orgânica, e portanto, de fácil decomposição na natureza. Das cinco mil toneladas de lixo produzidas durante os jogos, 75% eram lixo orgânico. Em todos os lugares de Sidney, caixas coletoras discriminando o tipo de resíduo estimulavam a separação dos materiais recicláveis entre os mais de 500 mil visitantes.

Ao contrário do que aconteceu nos jogos de Atlanta (EUA), quando os organizadores desperdiçaram 14 milhões de folhas de papel em sucessivos comunicados à imprensa, Sidney se preparou para fornecer eletronicamente as informações on line para os jornalistas, evitando ao máximo o uso de papel.

Nove linhas férreas foram especialmente construídas para levar o público da região central da cidade até o Parque Olímpico, eliminando totalmente a necessidade de usar automóvel. Em relação à frota de ônibus, bem menor que a de Atlanta, o principal combustível era o gás natural.

Até a tocha olímpica, o símbolo maior dos Jogos, teve como combustível uma mistura de butano – gás de isqueiro – que libera menos gás tóxico e quase nenhuma fumaça para a atmosfera. Numa parceria sem precedentes, o Greenpeace ajudou os organizadores a alcançarem esses resultados, que transformaram Sidney na sede dos primeiros Jogos Verdes da história. Ainda assim, os exigentes ambientalistas da Organização Não Governamental deram apenas nota 6 para os Jogos de Sidney. Dá pra imaginar o que seria uma nota dez?

Os excelentes resultados e a ótima repercussão internacional (os 15 mil jornalistas credenciados para os Jogos produziram inúmeras reportagens sobre as novidades ecológicas de Sidney) , levaram o COI a exigir que Atenas (2004) e Pequim (2008) não descuidem das premissas ambientais nos próximos Jogos Olímpicos.

De volta aos trópicos, naquilo que nos diz respeito, enquanto cidade que recebeu 104 reis e rainhas e chefes de Estado na Conferência Mundial da ONU para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio 92), nossa preocupação em ajustar projetos e investimentos às premissas ambientais deveria ser no mínimo igual à de Sidney. Seja na construção de 48 prédios de 7 andares na Barra da Tijuca onde será instalada a Vila Olímpica, seja no estádio olímpico de Engenho de Dentro, ou em qualquer outra instalação para os Jogos, é hora de arregaçar as mangas e pensar no diferencial ecológico que deverá pesar na escolha do COI.

Nove cidades disputam o direito de sediar os Jogos de 2012 e a primeira seleção acontecerá em junho de 2004, quando cada cidade candidata deverá entregar preenchido um formulário com 150 perguntas aos dirigentes do COI respondendo, entre outras questões, “como serão tratados os esgotos e o lixo, o que será feito para garantir a qualidade do ar e das águas”.

Quanto mais cedo ajustarmos nossos discursos e projetos às premissas ambientais dos chamados “Jogos Verdes”, mais pontos acumularemos na disputa. O exemplo vem da ensolarada Sidney, que como o Rio, tem muito sol, muito mar, uma linda baía e um povo alegre e orgulhoso de viver numa cidade maravilhosa. E olha que eles nem tiveram a chance de testar as novidades ecológicas com antecedência, como nós teremos em 2007, nos Jogos Panamericanos. O prefeito que me perdoe, mas beleza não põe mesa. Acorda Rio!

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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10 de Julho

Desastre ecológico das armas

Não é normal que os filhos deixem de viver antes dos pais. É contra a ordem natural das coisas. Esse é o tipo de perda para a qual nos julgamos menos preparados, a dor mais aguda e temida. Mas a estatística de mortalidade por causas não naturais no Brasil traz à tona o escândalo das armas de fogo que provocam o desaparecimento precoce de milhares de jovens. Há 50 anos as principais causas de morte dos jovens com idade entre 15 e 24 anos no Brasil eram as epidemias e as doenças infecciosas. A urbanização do país e o crescimento desordenado das cidades provocaram mudanças importantes nesses indicadores. De acordo com o “Mapa da violência III”, um relatório da Unesco baseado nos dados do Ministério da Saúde, em 1980, mais da metade (52,9%) dos óbitos de jovens foram causados por acidentes de trânsito, suicídio e principalmente homicídios.

No ano 2000, esse percentual subiu para 70,3%, uma verdadeira epidemia de violência, sustentada por revólveres e pistolas de vários calibres. Oficialmente, 17.762 jovens, a maioria com idade de 20 anos, predominantemente do sexo masculino (93,3%), foram assassinados, eliminados de forma violenta e sumária em todo o país. Tomando esse número por base, são 48 jovens que tombam nas ruas das cidades a cada dia. Dois por hora.

Alguns estatísticos temem que, nesse ritmo, a desproporção entre homens e mulheres se acentue em algumas localidades do Brasil. Repare que esses dados se restringem apenas aos óbitos na faixa etária entre 15 e 24 anos, porque se avançarmos para a população total, o número sobe para 45.919 óbitos por ano, o que dá uma média de 126 pessoas assassinadas por dia, 5 por hora. São números vergonhosos, acachapantes, que superam com folga as estatísticas de mortalidade nos conflitos do Oriente Médio, dos atentados contra as torres gêmeas em Nova Iorque e as duas guerras contra o Iraque.

Em resposta a essas indicadores de violência, parte expressiva dos brasileiros entende que a solução é reforçar a segurança por conta própria, comprando mais armas e munição, muitas vezes na clandestinidade, sem porte ou licença. É o nosso faroeste caboclo, que conta no Congresso Nacional com o respaldo do poderoso lobby das armas. Mesmo agora, quando o assunto volta a ser discutido no parlamento, e vários especialistas em segurança pública e pesquisadores do fenômeno da violência urbana defendem a suspensão da venda de armas de fogo no Brasil (exceto para os profissionais da área de segurança pública ou privada), o lobby das armas não dá trégua e fecha o cerco contra os congressistas e o governo federal.

Defender a situação atual, onde o que se vê é a multiplicação das armas de fogo no Brasil, não é ético, não é razoável, não é ecológico. Em que pese tudo o que já se disse em contrário, arma de fogo é contra a vida. E contra a economia também. Um estudo do Instituto Superior de Estudos da Religião (ISER) revela que o custo de produção da riqueza que deixa de ser gerada por pessoa assassinada seria de R$ 53.200. Mas não há dinheiro que pague o sofrimento de quem gerou, deu nome, criou e viu crescer um filho, para vê-lo morrer ainda jovem, e guardar de lembrança um pedaço de papel com as iniciais do Instituto Médico Legal, onde aparece a seguinte explicação para aquele fim trágico: “Causa da morte: ferimento provocado por arma de fogo”. Que não falte coragem aos nossos congressistas para assinar o atestado de óbito da indústria armamentista, definir novas regras para a licença e o porte de armas, e punir com muito mais rigor quem estiver armado sem a devida autorização.André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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02 de Julho

Festa para o olhar

Há cinco anos, sempre nos meses de junho, a pequena cidade de Goiás se transforma na capital mundial do cinema ambiental. É o FICA – Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental – que atrai para a ex-capital do Estado de Goiás, patrimônio histórico da humanidade segundo a Unesco, terra de Cora Coralina, a poetiza do Cerrado, uma legião de cineastas e documentaristas do mundo inteiro. É engraçado ver os gringos tensos durante a mostra competitiva – são distribuídos R$ 250 mil em prêmios – relaxando à noite no forró que acontece no Morro do Macaco Molhado, tomando a cachaçinha da terra que leva o sugestivo nome de atitude. Sim, porque todos os que visitam a cidade de Goiás são convidados a tomar atitude. É na verdade uma redundância.

Quem milita nessa área de cinema e vídeo ambiental é obrigado a tomar atitude todo dia. São apaixonados e idealistas que transformam denúncia em obra de arte. O filme vencedor do festival – prêmio de R$ 50 mil – foi o canadense “The Bottom Line – Privatizing the World”, que denuncia a apropriação da natureza por empresas privadas, contando a história de um homem de negócios que quer vender água fresca do Canadá, enquanto pessoas do mundo inteiro não contam com o mínimo de água necessária por dia para sobreviver.

Outro filme interessante foi o francês “Le Femmes de Bananeraies”, que recebeu a menção honrosa. Rodado na Costa Rica, onde o uso do pesticida DBCP por multinacionais intoxicou mais de 15 mil camponeses que inalavam veneno nas lavouras de banana, o filme revela uma trágica realidade da maioria dos países pobres ou em desenvolvimento onde a agricultura é a base da economia. Na última cena do filme, depois de 50 minutos de uma dolorosa exibição de todos os males causados pelo pesticida – sangramentos, doenças de pele, impotência, etc – e da mobilização da comunidade reinvindicando seus direitos, o funcionário do porto interrompe o embarque das bananas exportadas de navio para os estados Unidos. E explica o motivo:” É porque está chovendo. Não pode molhar as bananas porque estraga”. Termina o filme, e enquanto rolam os créditos na telona a gente fica se perguntando por que motivo banana vale mais do que gente.

Do Rio de Janeiro, o filme “Cotidiano da Cidade”, também agraciado com uma menção honrosa, revela de forma criativa a experiência de viver num lugar castigado pela falta de planejamento urbano e pela especulação imobiliária. Na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas um morador que fixou espelhos em todas as paredes da sala para refletir melhor todos os ângulos da bela paisagem, sofre com a construção de um enorme prédio bem em frente ao seu, interrompendo a vista e aumentando o número de espigões na orla.

No Morro Dona Marta, em Botafogo, o morador de um barraco que adora a vista do Rio lá de cima, sofre com o segundo pavimento do vizinho que mora bem em frente e que vai bloquear sua visão do paraíso. E assim segue o filme revelando como uma cidade batizada de maravilhosa vem perdendo a guerra contra a multiplicação indiscriminada de moradias à revelia do Poder Público, ou com o aval irresponsável do Poder Público. Tão interessantes quanto os filmes foram as presenças de convidados especiais como os jornalistas Zuenir Ventura, Liana John, Paula Saldanha, do cineasta Rui Guerra, e tantos outros que contribuíram para o ritmo frenético que se instalou sobre a pacata cidade de Goiás.

Além da mostra competitiva, foram oferecidas gratuitamente quinze oficinas e seminários de cinema, jornalismo e meio ambiente. O imenso ginásio de uma escola pública foi transformado num confortável cinemão de 600 lugares com tela gigante, som de primeira, ar-condicionado e um detalhe que faz toda a diferença: entrada franca. Dois ministros marcaram presença no festival de maneiras distintas: Marina Silva, do Meio Ambiente, participou da solenidade de abertura elogiando a iniciativa dos organizadores. E Gilberto Gil, da Cultura, deixou o protocolo em Brasília e partiu para Goiás com sua banda para fazer a festa de encerramento num show ao ar livre para 50 mil pessoas numa bela noite de lua cheia.

De volta ao Rio, lembro-me com saudade do formigueiro humano que tomou conta da cidadezinha que parou no tempo com seu casario histórico e seus centenários paralelepípedos. Milhares de estudantes acompanharam o festival numa alegre caravana da cidadania onde prevaleceu o otimismo e a certeza de que um novo mundo não é apenas possível, mas necessário e urgente. Para isso é preciso atitude. Goiás, que já tem a cachaça, nos ensina que a palavra de ordem é fazer, e a hora é já.André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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10 de Junho

Intimidade ecológica

Todos nós trazemos no corpo as marcas de uma profunda identidade com o planeta. São marcas profundas, viscerais, que não podem ser apagadas. A primeira delas é a água. O mais fundamental dos elementos está presente em nosso corpo na mesma proporção em que aparece no globo terrestre. As lágrimas que derramamos de dor ou de alegria tem o sabor dos oceanos.

A água do mar tem quase a mesma consistência do soro fisiológico. Em nosso sangue carregamos a terra, pulverizada nos sais minerais, que vitalizam tecidos e órgãos. Ferro, cálcio, manganês, zinco, que jazem nas profundezas do solo, correm pelas nossas veias.

Desde o primeiro choro, quando inauguramos as vias respiratórias e inalamos pela primeira vez o ar que enche os pulmões, participamos de um grande espetáculo da natureza, que revela em pequenos detalhes, a grandeza do universo. Nossa principal fonte de energia é o ar. Podemos suportar dias sem comer ou beber. Mas não podemos ficar tanto tempo sem ar. Enchemos os pulmões de oxigênio e devolvemos gás carbônico para a atmosfera. Esse gás é absorvido pelas espécies vegetais, que através da fotossíntese, devolvem generosamente, oxigênio. Como se vê, interagimos intensamente com o meio natural. Nos confundimos com esse meio ambiente. Somos parte dele e ele de nós.

Neste início de terceiro milênio, quando a humanidade estabelece novos recordes de destruição dos recursos naturais, perdemos o contato com a Mãe Terra e, não por acaso, com nós mesmos. Na agitação da vida moderna, vivemos encubados em casas e apartamentos, elevadores, escritórios, ônibus e carros. O tempo do relógio se sobrepõe ao tempo natural, em que cada coisa acontece na hora certa, sem angústia ou ansiedade.

Esquecemos de nos conectar ao que empresta sentido à vida, que é a própria vida em essência, com um imenso repertório de ensinamentos. Assim, deixamos de olhar para o céu e perceber como está o tempo, perder alguns segundos admirando o esplendor de uma manhã ensolarada, o prazer do vento que desgrenha os cabelos trazendo alívio e frescor, o horizonte sem limites do mar azul, a imponência das montanhas, o brilho cintilante de uma estrela que atravessa milhões de quilômetros na velocidade da luz, e que depois de driblar as nuvens e a poluição, aparece no céu sem que percebamos seu esforço heróico.

Mergulhados em afazeres mais urgentes, nos afastamos de nossa essência. Será coincidência que o avanço da destruição da natureza se dá na mesma velocidade com que registramos o crescimento das estatísticas de depressão e suicídio? É preciso refazer os elos e perceber com humildade que as pequenas coisas da vida encerram as grandes verdades da existência. O mundo está em nós e nós no mundo. O meio ambiente começa no meio da gente.André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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25 de Fevereiro

Reciclando o desemprego

Costuma-se medir desemprego com índices. Pessoas viram números. O sofrimento se dilui em estatísticas. Mas também é possível medir desemprego pelo tamanho das filas de quem disputa uma vaga no mercado de trabalho. E a julgar pelo tamanho da fila que se formou no sambódromo para o concurso de gari da Comlurb, a situação tá braba. Uma multidão de aproximadamente 20 mil pessoas sofreu com a falta de organização, com o tumulto e com as bombas de gás lacrimogêneo da polícia. Tudo por um emprego que já foi alvo de muito preconceito e que hoje, entre outros atrativos, ao oferecer um salário total estimado em R$ 610, é alvo de uma disputa voraz, onde a relação candidato-vaga é de 13 por 1.

Estima-se que este ano o concurso atraia ao todo 80 mil candidatos. Para surpresa de alguns, e constrangimento de outros, descobriu-se na fila a bacharel em Direito, Ana Cláudia Melo Silva. Desempregada, Ana deixou o diploma pendurado na parede e foi cuidar da vida. Assim como a doutora Ana, uma grande quantidade de candidatos a gari tinha nível de escolaridade muito acima do exigido pelo concurso: quarta-série do ensino fundamental. Diante desse cenário, a pergunta inevitável que se faz é: se está difícil para quem tem diploma arrumar emprego (daí porque tem advogado disputando vaga de gari) o que dizer daqueles que não tiveram a oportunidade de concluir os estudos?

Num país como o Brasil, estamos falando de milhões de pessoas. Segundo o IBGE, a média de anos de estudo da população adulta com idade a partir de 25 anos no país está abaixo de 6. Num mercado cada vez mais competitivo, onde cobra-se cada vez mais conhecimento e especialização dos candidatos a um emprego , poucos anos de estudo reforçam o quadro de exclusão. Há, entretanto, meios criativos de se promover o resgate da cidadania destes que não tiveram a sorte de completar os estudos e estão em desvantagem no mercado de trabalho. Um dos caminhos é promover a expansão do mercado de recicláveis no Brasil.

Existe hoje no país um exército de 100 mil catadores de latinha de alumínio que vivem disso. Alguns chegam a ganhar bem mais do que um salário mínimo por mês. Não se pede do catador currículo, experiência, diploma, ou nível de especialização. São invariavelmente pessoas que se enquadram na categoria de excluídos, gente que não tem cacife para disputar vaga num concurso para gari da Comlurb. O problema é que já se recicla quase 100% das latinhas no Brasil, e não há muitas sobrando por aí. É preciso aquecer outros setores desse mercado de recicláveis com o objetivo de gerar emprego e renda e há vários projetos nesse sentido tramitando no Congresso nacional.

Um deles é o do deputado Fernando Gabeira, eleito pelo PT do Rio, e que sugere, entre outras medidas, o fim da dupla tributação dos produtos recicláveis: hoje, por exemplo, as garrafas PET pagam imposto quando são produzidas e depois quando são recicladas. Se a reciclagem fica isenta de imposto, torna-se mais atraente para as indústrias e o recolhimento das embalagens PET nas ruas torna-se mais interessante. Em resumo: cria-se para as bilhões de garrafas produzidas no Brasil um valor comercial semelhante ao da latinha. Abrem-se novas oportunidades de trabalho e geração de renda.

O assunto será discutido nas próximas semanas por conta da reforma tributária e, é bom que se diga, é apenas um paliativo. Feliz daquele que vive num país em que o acesso à escola e à universidade permitem vôos mais altos e excelentes oportunidades na vida. Mas o desemprego e a fome não podem esperar. E 40% de todo o lixo produzido no país são de recicláveis que se acumulam nos aterros, num espetáculo de desperdício que poderia estar livrando muita gente do sufoco.André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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