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21 de Julho

Operação Desmonte

André Trigueiro

Em nenhum outro momento da história a humanidade foi instigada a realizar, num intervalo de tempo tão curto, tantas escolhas absolutamente necessárias e urgentes em favor da própria sobrevivência. Quis o destino que as atuais gerações fossem confrontadas com essa dura realidade: o que fizermos ou deixarmos de fazer agora repercutirá intensamente na qualidade de vida de quem já está por aqui, e principalmente sobre aqueles que estão por vir.

Não importa o quanto cada um se sinta mais ou menos responsável por essa crise ambiental sem precedentes: a capacidade de reagirmos a ela será nosso maior legado. Abusamos do direito de errar na calibragem da exploração dos recursos naturais não- renováveis fundamentais à vida, e precipitamos a exaustão dos estoques de água doce e de biodiversidade, de matéria-prima e energia.

Ignorar a avalanche de dados científicos que denunciam o risco de colapso é apostar na sobrevivência de um modelo de desenvolvimento visceralmente suicida. Pode-se discutir quanto tempo o planeta ainda resiste ou a capacidade de nos adaptarmos a cenários invariavelmente sombrios, mas não se discute a necessidade da mudança. É preciso, portanto, abrir caminho para uma imensa reengenharia em escala global que empreste novos fundamentos ao processo de desenvolvimento.

Fundador do Worldwatch Institute, hoje à frente do Earth Policy, Lester Brown fala-nos da “Eco-economia” como resposta à falta de sincronia entre os modelos de desenvolvimento e os sistemas naturais da Terra. Considerado pelo jornal Washington Post como um dos mais influentes pensadores do mundo, Brown explica que “uma economia ambientalmente sustentável − uma eco-economia − requer que os princípios da ecologia estabeleçam o arcabouço para a formulação de políticas econômicas e que economistas e ecólogos trabalhem, em conjunto, para modelar a nova economia”.

O professor e escritor Ignacy Sachs fala em Ecodesenvolvimento para explicar a urgência de um novo modelo onde os fundamentos econômicos incorporem as variáveis sociais e ambientais, e seja possível realizar “a busca de estratégias para se promover o melhor uso possível dos recursos específicos de cada ecossistema, visando à satisfação, mediante uma grande variedade de meios e tecnologias apropriadas, das necessidades básicas das populações interessadas”.

Talvez uma das iniciativas mais criativas para fomentar o debate e a reflexão sobre o que seria esse novo modelo de desenvolvimento seja o “Ethical Markets”, série de televisão concebida há dois anos pela escritora Hazel Henderson, que alcança 45 milhões de domicílios nos Estados Unidos e que também inspirou a criação de um site comprometido com a disseminação de novos valores no mundo dos negócios. Crítica ferrenha da visão reducionista e simplista que ainda inspira muitos economistas, Hazel abriu caminho na mídia para falar de sustentabilidade, princípios éticos planetários e novos indicadores econômicos.

A iniciativa inspirou o aparecimento no Brasil da “TV Mercado Ético”, um portal na internet onde é possível baixar gratuitamente entrevistas com pessoas reconhecidamente sérias nos meios em que atuam e incomodadas com as mesmas coisas. Oscar Motomura, Ricardo Young, José Monforte, Hélio Mattar, Homero Santos, entre outros convidados, explicam suas opiniões sobre temas variados sem perder de vista que o objetivo ali é fomentar novas idéias e atitudes na construção desse novo modelo.

Outra pista para entender o prestígio crescente desses novos conceitos junto aos agentes econômicos foi o depoimento dado pelo economista chefe de um dos maiores bancos do varejo do mundo, o brasileiro Hugo Penteado, em entrevista a Flávia Oliveira, de O GLOBO, em sua coluna Negócios & Companhia do último dia 7/4/2007. “Há muita ênfase no crescimento econômico como solução, embora ele sempre venha acompanhado de ruína social e ambiental. (…) Há que se pensar numa revisão total dos mitos da teoria econômica. Vive-se na armadilha do “quanto mais cresço, mais tenho de crescer”. Isso acontece porque, sem crescimento, os sistemas corporativos e tributários irão à falência”.

O arcabouço teórico está bem sedimentado e o processo de transformação em curso não agrada a alguns setores da economia que ainda se locupletam da exploração insustentável dos recursos. A boa notícia é que o concreto já rachou, a operação desmonte está em curso, e o que virá depois deverá ser algo mais comprometido com a igualdade, a justiça e a sustentabilidade.

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

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08 de Julho

Uma TV em favor da vida

Nunca faltou espaço na televisão para revelar com chamadas alarmistas e imagens espetaculares as maiores catástrofes ambientais da atualidade : aquecimento global, vazamentos de óleo, enchentes, queimadas, etc. Quem depende da televisão para estar bem informado terá certamente mais motivos para acreditar que o mundo está chegando ao fim, que a humanidade não tem jeito e que o apocalipse é fato consumado.

Deveríamos prestar mais atenção aos efeitos colaterais causados por esse gênero de cobertura que esvazia a esperança, dissemina o pessimismo e desmobiliza os esforços na direção contrária. Se é verdade que experimentamos uma crise ambiental em precedentes, também é verdade que jamais na História empreendemos tantos recursos humanos, financeiros e tecnológicos para corrigir o rumo. E isso precisa aparecer na televisão, de preferência ocupando outros espaços que não apenas o da última notícia, geralmente aquela que distoa da média dos assuntos destacados como importantes, pelos altos teores de “leveza e positividade”.

A sugestão também vale para roteiristas de novelas, minisséries e seriados. O que alguns poucos já fazem com extremo talento quando despertam a sensibilidade dos telespectadores para assuntos do cotidiano como violência urbana, crianças desaparecidas, dependência química, homossexualismo, etc, poderia ser replicado com mais frequência na exploração de alguns temas ambientais.

Em minisséries como “Amazônia” ou novelas como “Pantanal” a questão ambiental se confunde com o próprio enredo da trama, tendo como viés o preservacionismo.O desafio maior está em descobrir como os grandes temas urbanos na área da sustentabilidade podem inspirar parte da trama, como por exemplo a especulação imobiliária (33 anos depois depois de “O Espigão”, de Dias Gomes, o tema continua tão atual quanto ausente no vídeo) a escassez de água doce e limpa, a necessidade de investir em novas fontes de energia para enfrentar o aquecimento global, reaproveitamento dos resíduos, ausência de transporte público de qualidade, entre outros assuntos.

É possível criar personagens que não sejam estereotipados – ambientalista vestido de verde no melhor estilo “bicho-grilo”, ou usando roupa safári , ou ainda panfletário do tipo ecochato – e que estejam antenados com as grandes questões ambientais da atualidade em diversas situações. Pode ser motorista de táxi ou advogado, empresário ou sacerdote. Na vida real, esses assuntos já deixaram o gueto dos ecologistas, cientistas e biólogos para ganhar o mundo.

Seria ótimo aproveitar os programas infantis para disseminar com criatividade e talento os conceitos do consumo consciente.Livrar a criança do risco de vir a ser um consumidor compulsivo de produtos e serviços que a publicidade apresenta como necessários sem que na verdade sejam. Educadores ambientais poderiam ser consultados com mais frequência e regularidade em relação aos conteúdos produzidos para a garotada miúda.

Este país em que a televisão alcançou um nível de sofisticação e qualidade reconhecidos internacionalmente é o mesmo que detém o maior estoque de água doce e limpa, a maior floresta tropical úmida, a maior quantidade de terra féril disponível, entre outros indicadores importantes, todos ameaçados pela má gestão dos recursos naturais.

A televisão já realiza um serviço de extrema importância no diagnóstico dos problemas ambientais e na sinalização de rumo e perspectiva. Mas o senso de urgência revelado por inúmeros relatórios científicos que denunciam o risco iminente de colapso nos sistemas naturais que sustentam a vida, sugere atenção: talvez possamos fazer mais e melhor.

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003). Também colunista Mercado Ético.

FONTE: Novae

 

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12 de Maio

Um sábado com Al Gore

Enquanto aguardava o momento da entrevista com Al Gore no Hotel Copacabana Palace, me entretive com o espetáculo de insustentabilidade que é o projeto de iluminação dos corredores que dão acesso ao local escolhido para o encontro. Sem luz natural, os corredores permanecem acesos com dezenas de lâmpadas quentes mesmo que não haja movimento ou os quartos estejam sem hóspedes. “E ficam acesas 24 horas por dia”, revelou um dos seguranças do hotel.

A assessoria do ex-vice-presidente americano advertiu que Gore não desejava falar sobre política americana ou uma eventual participação em uma nova corrida à Casa Branca. Com a agenda atrasada, um clima de tensão pairava no ar. Depois da exclusiva, haveria a coletiva de imprensa no mesmo hotel, viagem para São Paulo e palestra à noite a convite de um banco. “Você só pode fazer 3 perguntas” me disse um assessor do lado de fora da sala. “ Você tem apenas 5 minutos”, me disse outro assessor do lado de dentro. Sem entender direito as regras do jogo, acabei fazendo 5 perguntas e passando um pouquinho do tempo previsto.

Simpático, aparentando tranquilidade, Gore foi conciso e objetivo. Segundo ele, teríamos mais dez anos para realizar as mudanças necessárias para conter o aquecimento global. Depois disso cruzaríamos um ponto limite em que as mudanças não surtiriam o efeito desejado. “O processo de destruíção está acelerado mas pode ser revertido”, disse ele , manifestando otimismo com a conversão de líderes políticos e empresariais em favor de um planeta com menos C02. Gore contabiliza mais de 450 cidades americanas formalmente comprometidas com a redução das emissões de gases de efeito estufa. Entusiasmado com a maioria democrata que assumiu as rédeas do Congresso americano, Gore defende que os Estados Unidos liderem o processo de “descarbonização” da atmosfera, num movimento que também alcance os países em desenvolvimento como China, Índia e Brasil.

Do Copacabana Palace segui direto para o Aeroporto Santos Dumont, e de lá para São Paulo, onde cumpriria o segundo compromisso do dia, coincidentemente também com o Sr.Gore : assistir como convidado a uma palestra dele no auditório do Ibirapuera. O banco patrocinador do evento reuniu o que chamou de “formadores de opinião” dos mais diversos segmentos da sociedade. Representando a classe política lá estiveram o ex-presidente Fernando Henrique, o atual vice-presidente José Alencar, ministros, governadores e prefeitos. Banqueiros, empresários e executivos sentaram-se lado a lado com representantes do Greenpeace, WWF e SOS Mata Atlântica. Pesquisadores, jornalistas e artistas complementaram a lista de convidados numa platéia lotada, reconhecidamente diversa, curiosamente reunida como pouca vezes acontece.

Al Gore ocupou o palco durante duas horas reproduzindo o data-show que inspirou o documentário “Uma Verdade Incoveniente”, vencedor do Oscar 2007. Surpreendeu ao utilizar imagens de satélite e de agências de notícia alusivas a eventos ocorridos naquele mesmo dia : “São queimadas registradas hoje de manhã em Los Angeles”.

O Brasil é citado em vários momentos da palestra, ora com elogios ora com críticas. São exibidos gráficos e imagens dos desmatamentos e da estiagem na Amazônia, o furacão Catarina – o primeiro de nossa História – e usinas de àlcool. O etanol e o biodiesel foram incensados reiteradas vezes na palestra como a “contribuição da tecnologia brasileira ao esforço mundial para a limpeza da matriz energética”. Em contrapartida, a avassaladora destruição das matas do país é citada na mesma proporção como exemplo de desperdício de riqueza.

Alguns assuntos importantes passaram em branco na palestra. Gore elogia os biocombustíveis e os esforços de algumas montadoras em aumentar a eficiência energética dos veículos mas em nenhum momento critica a multiplicação desordenada e caótica dos automóveis nas cidades, com violentos impactos sobre a mobilidade urbana e a qualidade do ar. Também não defende com a devida ênfase os transportes públicos de massa. Da mesma forma, não se posiciona em relação aos níveis de consumo absolutamente insustentáveis e perdulários do hemisfério norte, que têm nos cidadãos americanos a sua expressão mais radical.

Para quem ainda tem pretensões políticas e não descartou em definitivo a hipótese de vir a concorrer como candidato à presidência dos Estados Unidos em 2008, Al Gore faz bem em ignorar as críticas ao automóvel e ao consumismo. São verdades ainda incovenientes para o eleitor americano.

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

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03 de Fevereiro

Relatório do IPCC: "Uma bomba de efeito moral"

O relatório do IPCC é uma bomba de efeito moral, constrange países ricos e em desenvolvimento e inicia um movimento sem volta, o da necessidade de acelerar iniciativas que contribuam para reduzir drasticamente o aquecimento global. A análise é de André Trigueiro, jornalista da Globo News e da CBN, pós-graduado em Gestão Ambiental na COPPE/UFRJ, e autor do livro Mundo Sustentável (Editora Globo, 2005). O artigo foi publicado no portal do sitio O Globo, 02-02-2007.

O relatório do IPCC lançado hoje é uma bomba de efeito moral que explodirá no colo dos governos dos Estados UnidosAustrália (únicos países desenvolvidos que não ratificaram o Tratado de Kioto) e Canadá (onde o primeiro ministro Stephen Harper se elegeu no ano passado prometendo repensar a adesão do país ao Tratado).

O constrangimento causado pelo relatório deverá alcançar também os governos de países em desenvolvimento como ChinaÍndiaBrasil, que tem sistematicamente negado qualquer possibilidade de reduzir formalmente suas emissões de gases estufa a partir de 2013, quando chegará ao fim o primeiro período de compromisso de Kioto.

No caso do Brasil, enquanto as queimadas representam 75% das emissões de gases estufa, o recém-lançado PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) prevê investimentos de 50 bilhões de reais em obras de infra-estrutura na Amazônia sem que haja clareza sobre os impactos previstos nas áreas de floresta remanescentes ou mesmo contrapartidas ambientais que pudessem atenuar esses impactos.

Por fim, espera-se que o relatório – pelo maior nível de certeza dos dados apresentados – intensifique um movimento que já acontece nas grandes companhias de petróleo do mundo, na direção das energias renováveis. No caso específico da Petrobras, o troféu da auto-suficiência poderá perder seu brilho em breve se os investimentos em energia renovável continuarem respondendo (apenas) por “até meio por cento do orçamento”, conforme o planejamento estratégico da companhia.

É como costumam dizer vários especialistas no setor: “se a idade da pedra não acabou por falta de pedra, a idade do petróleo também não acabará por falta de petróleo”, num mundo em que os combustíveis fósseis deverão ser progressivamente taxados pelos danos causados ao clima. Quem conseguir primeiro se afirmar no mercado de energia com tecnologias mais limpas, ganha o jogo.

Criado em 1988 por iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) e a Organização Meteorológica Mundial (WMO), o IPCC ( sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) já havia lançado anteriormente outros três relatórios, mas nenhum com a repercussão deste. Há várias razões para que isso aconteça neste momento.

Esta semana, num fato sem precedentes na história política da França, os dois candidatos à presidência compareceram juntos a um evento científico em Paris para ratificar seus compromissos de, em caso de vitória, tornar a França um país modelo na redução dos gases estufa. Na véspera do anúncio do relatório, organizações ambientalistas francesasconvocaram um pequeno apagão (desligando-se luzes e aparelhos domésticos por cinco minutos) como forma de protesto contra o aquecimento global e o desperdício de energia. Boa parte de Paris, bem como a Torre Eiffel, ficaram às escuras.

No ano passado, várias ocorrências ajudaram a preparar o terreno para a chegada deste relatório do IPCC. O lançamento do Stern Review (o relatório assinado pelo ex-economista-chefe do Banco Mundial, Nicholas Stern) detalhou os impactos do aquecimento global sobre a economia do mundo com inúmeras projeções sombrias. O filme “An Inconvenient Truth“, do ex-vice presidente americano Al Gore, foi sucesso de crítica, concorre ao Oscar de melhor documentário este ano e, de quebra, Mr. Gore ainda teve o nome indicado para o Nobel da Paz justamente pela militância contra o aquecimento global.
Ainda nos Estados Unidos, mais precisamente na Califórnia, o governo estadual decidiu processar 6 grandes montadoras de veículos pelos danos causados por conta das mudanças climáticas. O processo, acolhido pela Justiça americana, arrola como réus as fábricas de automóveis. Ainda sob a batuta do republicano Arnold Schwarzenegger, o Estado da Califórnia anunciou a redução de gases estufa em 25% até o ano de 2020.

Pouco tempo depois, a União Européia decidiu reduzir as emissões do bloco em 20% até 2020 . Por último, mas não menos importante, sucessivas pesquisas, relatórios e farta documentação científica continuam demonstrando que as mudanças climáticas estão acontecendo numa velocidade sem precedentes na História e que nós precisamos tomar basicamente duas providências: reduzir drasticamente as emissões de CO2 na atmosfera e nos prepararmos para o que vem por aí.

Que o relatório do IPCC possa acelerar ainda mais um processo que já está em curso de tomada de consciência e principalmente de novas atitudes.

FONTE: IHU – Instituto Humanitas Unisinos

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03 de Fevereiro

Relatório do IPCC: “Uma bomba de efeito moral”

O relatório do IPCC é uma bomba de efeito moral, constrange países ricos e em desenvolvimento e inicia um movimento sem volta, o da necessidade de acelerar iniciativas que contribuam para reduzir drasticamente o aquecimento global. A análise é de André Trigueiro, jornalista da Globo News e da CBN, pós-graduado em Gestão Ambiental na COPPE/UFRJ, e autor do livro Mundo Sustentável (Editora Globo, 2005). O artigo foi publicado no portal do sitio O Globo, 02-02-2007.

O relatório do IPCC lançado hoje é uma bomba de efeito moral que explodirá no colo dos governos dos Estados UnidosAustrália (únicos países desenvolvidos que não ratificaram o Tratado de Kioto) e Canadá (onde o primeiro ministro Stephen Harper se elegeu no ano passado prometendo repensar a adesão do país ao Tratado).

O constrangimento causado pelo relatório deverá alcançar também os governos de países em desenvolvimento como ChinaÍndiaBrasil, que tem sistematicamente negado qualquer possibilidade de reduzir formalmente suas emissões de gases estufa a partir de 2013, quando chegará ao fim o primeiro período de compromisso de Kioto.

No caso do Brasil, enquanto as queimadas representam 75% das emissões de gases estufa, o recém-lançado PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) prevê investimentos de 50 bilhões de reais em obras de infra-estrutura na Amazônia sem que haja clareza sobre os impactos previstos nas áreas de floresta remanescentes ou mesmo contrapartidas ambientais que pudessem atenuar esses impactos.

Por fim, espera-se que o relatório – pelo maior nível de certeza dos dados apresentados – intensifique um movimento que já acontece nas grandes companhias de petróleo do mundo, na direção das energias renováveis. No caso específico da Petrobras, o troféu da auto-suficiência poderá perder seu brilho em breve se os investimentos em energia renovável continuarem respondendo (apenas) por “até meio por cento do orçamento”, conforme o planejamento estratégico da companhia.

É como costumam dizer vários especialistas no setor: “se a idade da pedra não acabou por falta de pedra, a idade do petróleo também não acabará por falta de petróleo”, num mundo em que os combustíveis fósseis deverão ser progressivamente taxados pelos danos causados ao clima. Quem conseguir primeiro se afirmar no mercado de energia com tecnologias mais limpas, ganha o jogo.

Criado em 1988 por iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) e a Organização Meteorológica Mundial (WMO), o IPCC ( sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) já havia lançado anteriormente outros três relatórios, mas nenhum com a repercussão deste. Há várias razões para que isso aconteça neste momento.

Esta semana, num fato sem precedentes na história política da França, os dois candidatos à presidência compareceram juntos a um evento científico em Paris para ratificar seus compromissos de, em caso de vitória, tornar a França um país modelo na redução dos gases estufa. Na véspera do anúncio do relatório, organizações ambientalistas francesasconvocaram um pequeno apagão (desligando-se luzes e aparelhos domésticos por cinco minutos) como forma de protesto contra o aquecimento global e o desperdício de energia. Boa parte de Paris, bem como a Torre Eiffel, ficaram às escuras.

No ano passado, várias ocorrências ajudaram a preparar o terreno para a chegada deste relatório do IPCC. O lançamento do Stern Review (o relatório assinado pelo ex-economista-chefe do Banco Mundial, Nicholas Stern) detalhou os impactos do aquecimento global sobre a economia do mundo com inúmeras projeções sombrias. O filme “An Inconvenient Truth“, do ex-vice presidente americano Al Gore, foi sucesso de crítica, concorre ao Oscar de melhor documentário este ano e, de quebra, Mr. Gore ainda teve o nome indicado para o Nobel da Paz justamente pela militância contra o aquecimento global.
Ainda nos Estados Unidos, mais precisamente na Califórnia, o governo estadual decidiu processar 6 grandes montadoras de veículos pelos danos causados por conta das mudanças climáticas. O processo, acolhido pela Justiça americana, arrola como réus as fábricas de automóveis. Ainda sob a batuta do republicano Arnold Schwarzenegger, o Estado da Califórnia anunciou a redução de gases estufa em 25% até o ano de 2020.

Pouco tempo depois, a União Européia decidiu reduzir as emissões do bloco em 20% até 2020 . Por último, mas não menos importante, sucessivas pesquisas, relatórios e farta documentação científica continuam demonstrando que as mudanças climáticas estão acontecendo numa velocidade sem precedentes na História e que nós precisamos tomar basicamente duas providências: reduzir drasticamente as emissões de CO2 na atmosfera e nos prepararmos para o que vem por aí.

Que o relatório do IPCC possa acelerar ainda mais um processo que já está em curso de tomada de consciência e principalmente de novas atitudes.

FONTE: IHU – Instituto Humanitas Unisinos

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16 de Dezembro

Consumindo a vida

A avassaladora farra consumista desencadeada a partir da Revolução Industrial, potencializada com o avanço tecnológico dos meios de produção e universalizada pela mídia na era da globalização, está custando caro ao planeta. Há evidentes sinais de exaustão dos recursos naturais não-renováveis, já denunciados em sucessivos relatórios do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), no estudo divulgado pela organização não-governamental WWF, segundo o qual “o consumo de recursos naturais já supera em 20% ao ano a capacidade do planeta de regenerá-los”, ou ainda no relatório “Estado do Mundo 2004”, do Worldwatch Institute, quando se afirma que “o consumismo desenfreado é a maior ameaça à humanidade”.

Os pesquisadores do Worldwatch denunciam que “altos níveis de obesidade e dívidas pessoais, menos tempo livre e meio ambiente danificado são sinais de que o consumo excessivo está diminuindo a qualidade de vida de muitas pessoas”.

O lado perverso desse consumo excessivo é que ele se restringe a uma minoria concentrada principalmente nos países ricos. Apenas 1,7 bilhão dos atuais 6,3 bilhões de pessoas que habitam o planeta têm hoje condições de consumir além das necessidades básicas. Ainda assim, a demanda por matéria-prima e energia cresce, precipitando o mundo na direção de um impasse civilizatório: ou a sociedade de consumo enfrenta o desafio da sustentabilidade, ou teremos cada vez menos água doce e limpa, menos florestas, menos solos férteis, menos espaço para a monumental produção de lixo e outros efeitos colaterais desse modelo suicida de desenvolvimento.

Cada um de nós, independente do poder aquisitivo, pode fazer a sua parte na construção de uma nova sociedade de consumo, onde a compra de cada produto ou serviço seja precedida de alguns pequenos cuidados. Dar preferência aos fabricantes ou comerciantes comprometidos com energia limpa, redução e reaproveitamento de resíduos, reciclagem de água, responsabilidade social corporativa e outras iniciativas sustentáveis é um bom começo. Checar se o que pretendemos adquirir é realmente necessário e fundamental.

O conceito de necessário varia de pessoa para pessoa, é assunto de foro íntimo. Mas pode-se descobrir neste exercício os sintomas de uma doença chamada oneomania, ou consumo compulsivo, que, de acordo com pesquisa do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, acomete aproximadamente 3% da população brasileira, em sua maioria mulheres. É gente que usufrui apenas do momento da compra, para muito rapidamente deixar o produto de lado e, não raro, mergulhar num sentimento de culpa. Muitos endividados que tomam empréstimos em bancos ou em agiotas são oneomaníacos.

O fato é que a maioria dos brasileiros simplesmente não tem a opção de consumir mais do que o necessário. De acordo com a Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE (POF/2003), considerando a soma dos rendimentos e das despesas das famílias brasileiras, somente naquelas em que a faixa média de renda ultrapassa os R$ 4 mil por mês há algum dinheiro sobrando. Nestes casos, tem-se a opção de consumir algo mais com relativo conforto.

Estamos falando de uma minoria estimada em 17 milhões de brasileiros. Por esta conta, 165 milhões estariam excluídos da farra consumista; mas não isentos do bombardeio de anúncios que abrem o apetite para sonhos de consumo irrealizáveis, e que geram muitas vezes ansiedade, angústia e frustração. A resignação é o caminho. A depressão, um risco. A violência, uma possibilidade.

Por tudo isso, em diversas partes do mundo celebrou-se no dia 26 de novembro o “Buy Nothing Day” (Um dia sem compras), um protesto simbólico idealizado pela ONG canadense Adbuster Foundation Media (www.adbusters.org), que há 13 anos vem sugerindo nesta data uma pausa no transe de consumo.

Desprezado pela grande mídia, o protesto na verdade é um alerta para a urgência de mudarmos hábitos e comportamentos fortemente arraigados em nossa cultura. No Brasil, o Instituto Akatu pelo Consumo Consciente (www.akatu.net) e o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (www.idec.org.br) também desenvolvem campanhas alertando os consumidores. O consumo é fundamental à vida. O consumismo desequilibra a vida. Tomar partido em favor do consumo consciente, como sugerem essas organizações, é uma questão de sobrevivência.
André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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21 de Novembro

Não há mais tempo a perder

Não há mais tempo a perder. Estamos todos juntos no mesmo barco e inúmeros indicadores apontam na mesma direção: se não dermos a devida resposta à ameaça que nos espreita, ficaremos marcados na História como a civilização que teve a competência de diagnosticar a maior de todas as tragédias ambientais sem que isso tenha justificado uma ampla mobilização da sociedade. Esta é a razão pela qual muitos estudiosos classificam o aumento do aquecimento global como um problema ético: sabemos que ele existe, nos reconhecemos como agentes do processo e, ainda assim, pouco ou nada fazemos no sentido de enfrentar a situação com a seriedade e o senso de urgência que o assunto requer. 

É chegado o momento de reconhecer o inimigo para enfrentá-lo com consciência e determinação. Ele é invisível, não tem cheiro nem faz mal à saúde, mas quando aglomerado aos bilhões de toneladas na atmosfera por conta da queima progressiva de petróleo, gás natural e carvão (as queimadas no Brasil também entram na conta e, no caso específico da Amazônia, a área verde que virou fumaça no ano passado equivale em tamanho a Israel), tem o poder de mudar o clima, o ciclo das chuvas, o nível dos oceanos e a expectativa de vida de inúmeras espécies e ecossistemas. Jamais experimentamos algo parecido numa escala de tempo tão curta.

O dióxido de carbono (CO2) aparece no Tratado de Kyoto como o mais importante gás de efeito estufa, mas para que o acordo internacional saísse do papel foram definidos prazos e metas bastante modestos: uma redução média de 5% nas emissões de gases de efeito estufa dos países desenvolvidos entre 2008 e 2012 em relação às emissões destes mesmos países ocorridas em 1990, quando o mínimo necessário seria de 60% (ou mesmo 80%, como aponta o recém lançado Relatório Stern, assinado pelo ex-Economista Chefe do Banco Mundial). Mesmo reconhecendo que a substituição dos combustíveis fósseis por outras fontes de energia deva acontecer de forma gradual, o ritmo das mudanças é extremamente lento. O mérito de Kyoto é dar início a um processo que, embora já tenha produzido alguns resultados importantes, se arrasta em passo de tartaruga enquanto as mudanças climáticas vêm a galope.

Tão importante quanto o comprometimento dos países em reduzir suas emissões de gases de efeito estufa, principalmente de CO2, são as iniciativas individuais. O que cada um de nós está disposto a fazer nesse sentido? Que pequenas mudanças podemos aplicar em nossa rotina em favor desse objetivo maior? Mudança é uma palavra que assusta, e que muitos de nós associamos de imediato a sacrifício. Nem sempre é assim. Avalie o que lhe convém, considerando que cada tonelada a menos de carbono na atmosfera faz toda a diferença.

Vejamos alguns exemplos do que é possível fazer hoje em benefício de um futuro menos traumático:

1) Transportes: Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, as maiores emissões de CO2 têm origem nos automóveis. Sempre que possível, deixe o carro na garagem e privilegie o uso de transportes públicos. Estima-se que 80% de nossos deslocamentos diários se resolvam num raio de 5 km de distância, o que abre caminho para o uso de bicicletas ou pequenas caminhadas. Se o uso do carro for inevitável, prefira os modelos flex rodando a álcool, com motores sempre regulados, pneus calibrados e aceleração baixa.

2) Árvores: As espécies vegetais estocam carbono nas raízes, troncos, galhos e folhas. Quanto mais árvores plantarmos, mais carbono estaremos retirando da atmosfera. O inverso é rigorosamente verdadeiro: para cada árvore destruída haverá mais carbono agravando o aquecimento global.

3) Construções inteligentes: Luz e ventilação naturais demandam um consumo menor de energia. Certos materiais usados no revestimento de casas e escritórios também ajudam a conservar a temperatura ambiente de modo agradável, sem a necessidade de ventiladores ou aparelhos de ar-condicionado.

4) Consumo: Um estilo de vida consumista acelera a exaustão dos recursos naturais. Todos os produtos demandam matéria-prima e energia para existir. Quem consome muito além do necessário agrava a pressão sobre os estoques de energia, com reflexos importantes sobre as emissões de CO2. Apesar do que apregoam muitas campanhas publicitárias, é possível ser feliz com menos, bem menos do que aparece nos comerciais.

5) Neutralizando as emissões: A Copa do Mundo da Alemanha foi a primeira da História a neutralizar totalmente as emissões de gases estufa. Com precisão germânica, a organização do evento estimou a quantidade de CO2 emitida pelos 3 milhões de visitantes e investiu em projetos que retiraram da atmosfera a mesma quantidade de gás estufa. Isso já está sendo feito no Brasil e no mundo em shows de música, lançamentos de livros ou CDs. Para muitos empresários, esse é um excelente filão de negócios na direção da responsabilidade social corporativa.

Seria ótimo se a responsabilidade de reduzir as emissões de CO2 fosse apenas dos países. Mas estamos sendo convocados individualmente à ação enquanto consumidores, eleitores e habitantes de um país em desenvolvimento, categoria apontada pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU como bastante vulnerável às turbulências que vêm por aí. Podemos e devemos nos antecipar a isso.

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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14 de Maio

Quando o Mundo Sustentável é Notícia

Num mundo em constante mudança e transformação, o bom jornalismo talvez seja aquele que consegue acompanhar a evolução dos fatos sem descuidar do contexto em que eles se resolvem. Neste momento em que experimentamos uma crise ambiental sem precedentes na história – aquecimento global, escassez de recursos hídricos, desertificação do solo, destruição acelerada da biodiversidade, crescimento desordenado das cidades, consumismo desenfreado, produção monumental de lixo, transgenia irresponsável – o estudante de jornalismo que sai da universidade depois de quatro anos de curso sem um pacote mínimo de informações na área ambiental, não está apto a cumprir sua função social. O mundo mudou, e as universidades devem acompanhar essa transformação, particularmente na área ambiental. Para os já formados, é preciso oferecer cursos de capacitação que ajudem o profissional de imprensa a se situar melhor num cenário que inspira inúmeros cuidados na elaboração das pautas e na definição do que é notícia. 

Não basta denunciar o que está errado. Isso é importante, mas não é o suficiente. O que se espera da mídia neste início de século XXI é a capacidade de sinalizar rumo e perspectiva, mostrar quais seriam as soluções inteligentes e sustentáveis para velhos problemas inerentes a um modelo de desenvolvimento “ecologicamente predatório, socialmente perverso e politicamente injusto”. No dia-a-dia de uma redação, não se economiza espaço para mostrar tragédias ambientais como grandes vazamentos de óleo, queimadas, enchentes, deslizamentos de terra, furacões e outros problemas do gênero. São assuntos “quentes”, segundo o jargão jornalístico, que rendem textos calóricos e imagens espetaculares. Mas deveríamos aguçar os sentidos para perceber a dimensão da notícia num gênero de cobertura que ganha cada vez mais força e prestígio: o que funciona, o que dá certo, o que poderia inspirar novas idéias e atitudes na direção da sustentabilidade.

O primeiro desafio é aplicar aquilo que pensadores como Edgar Morin e Fritjof Capra denominam de “visão sistêmica” ao exercício jornalístico. Ao reconstruir a realidade numa perspectiva invariavelmente reducionista e fragmentada, o jornalismo perde de vista a percepção do universo tal qual os físicos quânticos o descrevem: uma rede de fenômenos interligados que interagem e se comunicam o tempo todo. Enxergar sistemicamente significa perceber essa teia infinita de relações que emprestam sentido aos temas ambientais, e que poderiam oxigenar a notícia com abordagens menos imediatistas e mais abrangentes. Nesse sentido, pouco importa se uma redação tem ou não uma Editoria de Meio Ambiente. Se todas as editorias entenderem a visão sistêmica como uma preciosa ferramenta de trabalho para qualificar a pauta e redimensionar o conceito de notícia, a tão propalada “transversalidade dos assuntos ambientais” será fato no universo jornalístico.

No livro “Mundo Sustentável – Abrindo espaço na mídia para um planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), procurei demonstrar a urgência de uma abordagem mais agressiva da mídia na direção de alguns assuntos ambientais que ainda são entendidos como marginais ou periféricos. O livro reúne artigos e reportagens veiculados no rádio, na televisão, na internet e na mídia impressa, divididos em oito capítulos temáticos – consumo consciente, lixo, meio ambiente nas cidades, água, biodiversidade, energia, questões globais e jornalismo ambiental – que são 5 arrematados com comentários de especialistas convidados. A edição exibe um vasto repertório de experiências inteligentes e sustentáveis no uso dos recursos naturais que, embora ignorados pela grande mídia, merecem visibilidade. “Há uma mudança em curso no mundo que precisa ser melhor diagnosticada e compreendida. Ela é típica dos períodos de transição, em que novos valores desmontam lenta e progressivamente o que havia antes. Desta vez, entretanto, há um agravante: em nenhum outro momento da história a necessidade da mudança foi tão urgente” – é o que afirmo na apresentação do livro na condição de testemunha.

A informação não pode tudo, mas pode muito. Se já detemos um estoque de conhecimento, de ciência e de tecnologia capaz de promover a grande virada na direção de um mundo sustentável, e isso ainda não acontece no ritmo desejado, poderíamos atribuir essa letargia a duas possíveis causas: desinformação ou má-fé. Estou convencido de que a primeira alternativa prevalece sobre a segunda, ou seja, há uma enorme energia potencial de mudança sobre a qual a faísca da informação que remete à sustentabilidade pode desencadear uma benfazeja explosão.

Não se mudam hábitos e comportamentos por decreto ou medida provisória. Há um tempo de decantação das idéias até que estas amadureçam na forma de atitude. Mas o senso de urgência que deveria inspirar essa mudança é prejudicado pela vida artificial que levamos nas cidades – onde vivem 81% dos brasileiros -, como denunciou certa vez o saudoso José Lutzemberger ao afirmar que “o homem moderno, predominantemente urbano, nasce e se cria em ambiente artificial. Suas percepções e seus sentimentos são moldados por circunstâncias que nada se assemelham àquelas que nos deram origem e em que evoluímos. O homem moderno tornou-se incapaz de sentir profundamente o belo, não se incomoda com a feiúra, com o lixo e com a agressão à paisagem. Falta-lhe a ânsia de alcançar a harmonia em torno de si. Não somente o ambiente em que vivemos nos predispõe à alienação diante do mundo vivo. Toda filosofia de vida, nossa ética convencional, encontra- se em oposição às leis da vida”. Salve Lutz!

Não cabe mais invocar as gerações futuras como o fiel da balança na mudança de paradigma que se faz necessária e urgente. O timing acelerado das mudanças climáticas, agravadas pela queima progressiva de petróleo, gás e carvão – seguramente o maior problema ambiental do século XXI -, reduziu assustadoramente a escala de tempo das tragédias de origem antrópica.

Somos nós, aqui e agora, que devemos assumir a responsabilidade histórica pelo novo rumo. Não haverá missionários, salvadores da pátria, lideranças arrebatadoras capazes de mobilizar tantos, tão rapidamente, num intervalo de tempo tão curto. A complexidade das negociações no âmbito da ONU e o vagar das políticas públicas governamentais sufocam as ações mais abrangentes e visíveis. Ainda assim, há um movimento em curso. É importante dar-lhe força e sentido. No que diz respeito à imprensa, quando a informação fomenta a atitude que transforma a realidade, cumpre-se uma das funções mais nobres do jornalismo: mudar o mundo. Transformá-lo num lugar melhor e mais justo, um mundo sustentável.

“Há uma mudança em curso no mundo que precisa ser melhor diagnosticada e compreendida. Ela é típica dos períodos de transição, em que novos valores desmontam lenta e progressivamente o que havia antes. Desta vez, entretanto, há um agravante: em nenhum outro momento da história a necessidade da mudança foi tão urgente.”
André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 

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