17 de Janeiro

O novo recorde de calor

 

Amanhã tem coletiva na NASA confirmando 2016 como o ano mais quente da história das medições (iniciadas em 1880). 15 dos 16 anos mais quentes já registrados ocorreram desde 2001.
Apesar das recomendações expressas da comunidade científica, do Acordo do Clima de Paris, e do crescimento espetacular das fontes renováveis de energia, continuamos subsidiando (Brasil inclusive) a exploração de combustíveis fósseis. Continuamos desmatando as florestas (Brasil principalmente) e ignorando os alertas.

É preciso fazer mais e melhor. Os sinais tornam-se evidentes e alguns sintomas (como a velocidade do degelo) surpreende os próprios cientistas. Sexta-feira o Trump assume a Presidência dos Estados Unidos com uma equipe composta por ex-petroleiros e negacionistas do clima dispostos a elevar as emissões de gases estufa. Por aqui, Temer ratificou o Acordo do Clima mas não disse até agora como pretende alcançar este objetivo. E segue enfraquecendo a proteção das reservas ambientais e indígenas.

A ética do cuidado reclama atitude em favor da casa comum, do coletivo e do bom senso. Não será fácil, mas o custo de não fazer nada (inação) é muito maior. 2017 promete. É hora de cada um dizer a que veio. E fazer a sua parte.

 

André Trigueiro

 

 

 

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13 de Janeiro

Nunca um enredo incomodou tanto o agronegócio

 

Nunca um enredo de escola de samba incomodou tanto o agronegócio quanto o da Imperatriz Leopoldinense este ano. Em “Xingu: o clamor que vem da floresta”, a agremiação de Ramos mostra a luta dos índios em favor da floresta, dos rios, e de sua cultura. Denuncia o uso indiscriminado de agrotóxicos, o desmatamento, as queimadas, a hidrelétrica de Belo Monte, e o descaso das autoridades com os povos originais do Brasil.

Foi o bastante para que as principais lideranças ruralistas se manifestassem contra a escola, alegando que a imagem do agronegócio está sendo prejudicada. Várias entidades ligadas aos produtores rurais fazem barulho contra a Imperatriz. O carnavalesco Cahê Rodrigues chegou a escrever uma carta justificando a escolha do enredo, sem contudo abrir mão de suas convicções e atribuindo a fatos históricos as situações que serão mostradas na Marquês de Sapucaí.

Sou mangueirense, mas desde já quero dizer que este ano vou torcer também pela Imperatriz. É muito bem-vindo o desfile que denuncia através da arte gigantescos problemas que alguns segmentos políticos e corporativos fingem não existir.

“O índio luta pela sua terra, da Imperatriz vem o seu grito de guerra! Salve o verde do Xingu”, diz o samba-enredo da escola. Avante Imperatriz!

 

André Trigueiro

 

 

 

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11 de Janeiro

Nossa homenagem à Bauman

 

“A internet nos dá a falsa sensação de estarmos no controle das nossas vidas”

Cláudia Guimarães acompanhou aula de Zygmunt Bauman no Rio de Janeiro

 

A expectativa era enorme. No auditório onde se realizava o evento Educação 360, o silêncio reinava absoluto. Pela primeira vez, os brasileiros teriam a oportunidade de escutar ao vivo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, de 89 anos, criador do conceito de “modernidade líquida”, marcada pela insegurança, instabilidade e efemeridade – dos produtos que consumimos a nossas relações pessoais.

Se o início da palestra foi centrado nos desafios da educação no século XXI, como postamos aqui ontem, boa parte da sua fala terminou abordando um dos assuntos favoritos de Bauman: o fenômeno da internet e como ele se insere nesses “tempos líquidos”.

Em seu livro Vigilância líquida, o sociólogo já resumia em uma frase a abordagem que faria desse tema na palestra no Rio de Janeiro: “Hoje, o medo da exposição foi abafado pela alegria de ser notado”.

Na mesma obra, observava que vivemos numa sociedade confessional, “que se destaca por eliminar a fronteira que antes separava o privado do público, e por fazer da exposição pública do privado, uma virtude e uma obrigação públicas”.

E com muita argúcia, acrescentava: “A paixão por se fazer registrar é um exemplo importante, talvez o mais gritante, dos nossos tempos, nos quais a versão atualizada do cogito (penso) de Descartes seria: ´Sou visto (observado, notado, registrado), logo existo´.”

Em sua palestra de mais de uma hora, muito concorrida, apesar da chuva e do frio, Bauman voltou a se debruçar sobre esse tema, compartilhando com a plateia suas impressões sobre o mundo virtual.

Na sua opinião, a internet foi abraçada “com tanta alegria” porque dá a agradável sensação de liberdade e de escolha. Além disso, “a internet e o Facebook nos tranquilizam e nos dão a sensação de proteção e abrigo, afastando o medo inconsciente de sermos abandonados. Na verdade, muitas vezes você está cercado de pessoas tão solitárias quanto você”, afirmou.

A dissolução dos laços comunitários tradicionais e a sensação de “falta de pertencimento” no mundo moderno têm sido, aliás, um dos assuntos recorrentes em seus livros. E naquela tarde, o tema veio à baila quando o sociólogo lembrou que, com a internet, estamos criando uma rede, não uma comunidade:

– A rede pertence a mim; quanto à comunidade, eu pertenço a ela. Na rede, é possível remover e selecionar com quem quero relacionar. Enquanto eu quiser essa rede existe. Se eu parar de nutri-la, a rede vai desaparecer.

Com seu olhar perspicaz, que foge ao senso comum e sempre descortina novos horizontes, Bauman apontou que a internet cria uma enganosa zona de conforto, onde o “estrangeiro” – ou seja, todo aquele que pensa diferente de nós – pode ser excluído a qualquer momento, com apenas um clique.

– É como um condomínio de pessoas ricas, que expulsa os que querem entrar. A zona de conforto é o eco que reflete nossa própria voz. Ou um espelho que reflete nosso próprio rosto.

O problema, ressaltou, é que no mundo off-line (em casa, no trabalho, na escola, na rua) não é possível eliminar as pessoas que não gostamos e, portanto, precisamos estabelecer um diálogo.

– Mas, no mundo on-line, onde grande parte das pessoas passa pelo menos nove horas por dia, não desenvolvemos as habilidades sociais indispensáveis ao convívio com as outras pessoas.

Para o sociólogo, essa situação traz consequências graves para a sociedade, porque “a arte do diálogo será cada vez mais necessária em um planeta globalizado. E, até agora, não estamos conseguindo avançar nessa direção”, afirmou.

Diante de uma plateia que absorvia cada palavra como uma fina e rara iguaria, Bauman ressaltou também a falsa percepção que a internet nos proporciona de estarmos no controle de quem somos, assim como das nossas vidas:

– A internet cria a ilusão de que nossos problemas serão resolvidos. Mas, em algum momento, você terá que voltar ao mundo real, off-line.

Todos esses aspectos não significam, ponderou, que o advento da internet não tenha trazido grandes vantagens.“Não há como conceber a sociedade no futuro sem tecnologia. Então, se não pode vencê-la, una-se a ela”. Mais adiante, concluiu: “Mas temos o permanente desafio de encontrar formas de usá-la a serviço do bem comum”.

Ao final da palestra, Bauman reservou um generoso espaço para responder a perguntas feitas pela plateia e, apesar dos quase 90 anos, ainda encontrou energia para atender uma longa fila de fãs em busca do seu autógrafo. Depois de tantos anos de espera pela chance de vê-lo pessoalmente, Bauman havia superado todas as expectativas dos que o admiram e há anos acompanham a sua obra.

 

Claudia Guimarães, jornalista e educadora ambiental

 

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Zygmunt Bauman: “Educação não é commodity”

Em palestra no Rio de Janeiro, o sociólogo Zygmunt Bauman, um dos mais influentes pensadores da atualidade, analisa os desafios da educação no século XXI

“Se você quer se planejar para um ano, plante milho.

Se quer se planejar para 10 anos, plante uma árvore.

Se quer se planejar para 100 anos, eduque a população.”

 

Com esse milenar provérbio chinês, o renomado sociólogo polonês Zygmunt Bauman iniciou sua palestra no evento Educação 360, que anualmente reúne no Rio de Janeiro educadores do Brasil e de diferentes países.

Nem a chuva, o frio ou a distância desanimaram a plateia de cerca de 500 privilegiados, que conseguiram se inscrever gratuitamente e vieram de diferentes partes do país para escutar um dos mais referenciais pensadores da atualidade.

O absoluto e cerimonioso silêncio da plateia, raro por essas bandas, dava a pista de que não estávamos diante de um acadêmico comum. Prestes a celebrar 90 anos, Bauman vem contribuindo há décadas para entendermos o mundo atual, suas contradições e complexidades. Tarefa por si já hercúlea, mas que ganha maior relevância pela sua capacidade de se comunicar com os leitores de forma clara e acessível, fugindo do hermetismo dos textos acadêmicos.

Criador do conceito de “sociedade líquida”, onde tudo é efêmero e está feito para não perdurar – dos produtos que consumimos até as nossas relações pessoais –, Bauman há muito acompanha atentamente as principais transformações sociais, econômicas e políticas do panorama mundial.

Seus livros analisam com um olhar crítico e original aspectos da sociedade moderna que afetam diretamente o nosso dia a dia, como o consumismo, a globalização, o advento da internet e a crise das instituições políticas.

E foi num inglês pausado (ele está radicado há muitos anos em Leeds, Inglaterra) e falando por mais de uma hora em pé, apesar da avançada idade, que um elegante Bauman discorreu na tarde do último sábado sobre algumas dessas questões.

Pedindo desculpas de antemão porque o reduzido tempo o impediria de se aprofundar nas origens da crise na educação, Bauman focou nos desafios que enfrentamos hoje, como a dificuldade de atenção: “É preciso ter determinadas qualidades se você deseja construir conhecimento e não só agregá-lo: atenção, persistência e paciência”. E as três, ressaltou, estão em falta no mundo moderno, assim como o pensamento linear.

Na sua opinião, a crise de atenção atinge a todos, mas impacta principalmente os jovens: “Se um professor pede aos alunos para lerem um artigo para a próxima aula, eles não o fazem. No máximo, leem o resumo na internet. Em tese, toda a informação está disponível ali, mas ela vem em pedaços, fragmentos”. E acrescentou: “Os estudantes querem o twitter do ensino acadêmico. Mas não é possível resumir conhecimento em 140 caracteres”.

Tão desafiante para a educação quanto a crise de atenção é a falta de persistência. “Ler hoje um romance como Guerra e Paz, de León Tolstoi, é missão difícil, até para a geração mais velha”. Segundo ele, cada vez mais estamos perdendo a capacidade de fazer atividades que dão frutos a longo prazo, porque queremos resultados imediatos. E arrematou, tirando gargalhadas da plateia: “O melhor símbolo disso é o café instantâneo!”

Bauman criticou também a elitização da educação, cada vez mais cara e inacessível, lembrando que ela vem sendo reformulada para atender a interesses econômicos de curto prazo: “É uma decisão errada, que vai afetar nossos filhos, netos e bisnetos”. E concluiu: “Educação não é commodity”.

Sempre veemente, Bauman encerrou sua palestra sem perder em nenhum momento o olhar sereno com que nos habituamos a vê-lo defender a dignidade humana em todas as suas dimensões.

 

Cláudia Guimarães, jornalista e educadora ambiental

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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14 de Novembro

TEDxBaía da Ilha Grande – André Trigueiro

 

Foto: Anderson Pires

 

Em sua palestra, André Trigueiro (jornalista e apresentador do programa “Cidades e Soluções”, da Globo News) afirmou que a noção de ética que se costumava ter nos negócios não serve mais. “É preciso refazer as contas, agora em novas bases”, disse.

Trigueiro disse ainda que muitos negócios ainda são verdadeiros “ecocídios”, pois aniquilam os espaços onde estão instalados. Por isso, hoje, a lógica tem que mudar.“Não basta dizer: este empreendimento é bem vindo porque gera emprego e renda. Isso já não é suficiente”.

(Palestra realizada em 14/11/2011)

 

Confira a palestra na íntegra aqui

 

 

Fonte: TEDxBaíaDaIlhaGrande

 

 

 

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06 de Setembro

“Nosso Lar” é sustentável?

O filme mais caro da história do cinema nacional consumiu boa parte dos 20 milhões de reais de seu orçamento em efeitos especiais que se prestam à impressionante visualização da cidade espiritual descrita pelo Espírito André Luiz através da psicografia de Francisco Cândido Xavier.

“Nosso Lar” impressiona pelo bom gosto na justa distribuição dos espaços de área construída intercaladas por gramados e lagos. As áreas verdes e a presença da água marcam o projeto urbanístico da cidade, onde os pedestres circulam livremente sem disputar espaços com qualquer gênero de transporte individual. O transporte público de massa é o aérobus, muito parecido com o nosso metrô de superfície, só que sem trilhos. O magnetismo que impulsiona o veiculo é o mesmo que por aqui já empurra trens-bala de alta velocidade.

Os prédios públicos são imponentes e com design arrojado. Privilegiam a iluminação natural com imensas janelas ou áreas vazadas. Para as demais edificações o gabarito é invariavelmente baixo, harmonizando-se as áreas povoadas sem aglomerações indevidas.

Predominam por toda a cidade as cores claras com tons vitalizantes, cromoterápicos. Vista de cima, “Nosso Lar” lembra um pouco o plano-piloto de Brasília sem asfalto ou automóveis.

Em resumo: para espíritas ou não espíritas, o filme exibe conceitos de urbanismo modernos e sofisticados que poderiam inspirar nossos gestores.

André Trigueiro

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14 de Março

Não basta ser flex

“Não basta disponibilizar o flex – que já responde por mais de 70% das vendas de veículos no país – e transferir para o consumidor a escolha do combustível que julgue mais apropriado de acordo com as conveniências: o bolso, o meio ambiente, ou circunstancialmente os dois. É preciso fazer melhor e mais rápido. A definição de prazos para que as montadoras acelerem o ritmo das inovações tecnológicas em favor da redução dos gases estufa é algo possível, necessário e urgente.” A opinião é de André Trigueiro, jornalista, em artigo publicado no jornal O Globo, 14-3-06.

A revista IHU On-Line publica uma longa entrevista com o jornalista. A revista está disponível nesta página.

Eis a íntegra do artigo publicado no jornal O Globo:

“O formidável avanço tecnológico que tornou a indústria automobilística nacional uma das mais competitivas e lucrativas do mundo não desobriga as montadoras dos ajustes necessários para enfrentar as crescentes ameaças impostas pelo aquecimento global. Estabelecer metas mais agressivas para aumentar a eficiência dos motores e reduzir as emissões de gases estufa na atmosfera deveriam ser questões não-vinculadas apenas às demandas do livre mercado, mas a objetivos estratégicos que fossem objeto de alguma regulação do Estado.

A mistura de 25% do álcool à gasolina, a expansão da frota de veículos movidos a gás e o boom dos motores flex contribuem para isso, mas não livram os veículos automotores do estigma de ainda serem os principais vilões do aquecimento global nos grandes centros urbanos – como São Paulo e Rio de Janeiro – bem como da poluição atmosférica, com impactos importantes sobre a saúde e a qualidade de vida da população.

“É possível reduzir a ameaça do aquecimento global e se beneficiar economicamente disso”, declarou recentemente o secretário de Meio Ambiente da Califórnia, Alan Lloyd, com a autoridade de quem introduziu uma regulamentação sem precedentes para o setor automotivo num Estado onde circulam 23 milhões de veículos (11% de todo o CO2 emitido pelos veículos nos Estados Unidos têm origem na Califórnia). Pelas novas regras, os veículos deverão emitir gradativamente menos gases estufa a partir do ano de 2009, devendo alcançar até 2016 uma redução de 30%.

No Brasil, a legislação que define as regras do Programa de Controle de Emissões Veiculares estabelece metas e prazos para que as montadoras reduzam as emissões de alguns gases poluentes, mas o texto da Resolução Conama n. 315 de 2002 não estabelece qualquer compromisso dos fabricantes em reduzir as emissões dos gases que agravam o aquecimento global, em particular de CO2 (dióxido de carbono), apontado pelos cientistas como o principal gás estufa. Em resumo, a situação poderia ser descrita da seguinte maneira: sabemos como fazer, mas não somos obrigados a fazer.

A superação tecnológica implica custos extras para os fabricantes que o consumidor saberá recompensar, seja pelo diferencial em termos de rendimento e eficiência – num mercado extremamente competitivo isso conta pontos preciosos em favor do produto – seja pelo desejo de contribuir para o não-agravamento do maior problema ambiental do século XXI, assunto que mobiliza cada vez mais fortemente governos, empresas e sociedade civil. Aliás, em vez de usar a publicidade para fomentar o desejo de possuir um bólido cada vez mais veloz – em cidades cada vez mais engarrafadas, o que poderia ser entendido como propaganda enganosa – a indústria automobilística poderia assegurar novos ganhos (financeiros e de imagem) investindo no conceito de “mais eficiente”.

Depois de um ótimo ano de 2005, em que foram vendidos 1,715 milhão de veículos – o mês de dezembro foi o melhor da história – com previsão de um aumento de 7,1% das vendas para este ano, as montadoras brasileiras não têm mais motivos para reclamar redução de impostos (quantas vezes o setor se beneficiou isoladamente da redução do IPI?) e poderia aproveitar o céu de brigadeiro para alçar vôo na direção do que em breve deverá ser entendido como regra nos principais mercados mundiais.

Não basta disponibilizar o flex – que já responde por mais de 70% das vendas de veículos no país – e transferir para o consumidor a escolha do combustível que julgue mais apropriado de acordo com as conveniências: o bolso, o meio ambiente, ou circunstancialmente os dois. É preciso fazer melhor e mais rápido. A definição de prazos para que as montadoras acelerem o ritmo das inovações tecnológicas em favor da redução dos gases estufa é algo possível, necessário e urgente.”

FONTE: IHU – Instituto Humanitas Unisinos

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09 de Março

Mulheres e soluções

Segue uma pequena lista – que de tão pequena, pode ser considerada absolutamente injusta com o expressivo número de mulheres que fazem a diferença em favor da sustentabilidade – concebida no Dia Internacional da Mulher. Nossa intenção é homenagear lideranças globais que se destacaram como defensoras corajosas e intransigentes da vida e da ética:

– Rachel Carson:

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Bióloga marinha, autora do livro “Primavera Silenciosa”, obra que teria marcado, na opinião de alguns historiadores, o início do movimento ambientalista. O livro denunciou em 1962 as mazelas do DDT, pesticida que vinha sendo pulverizado em doses maciças nas lavouras americanas, provocando grandes impactos sobre o meio ambiente. “Primavera Silenciosa” recebeu este nome pelo desaparecimento das aves migratórias envenenadas com DDT. Com clareza e objetividade, Rachel conseguiu denunciar um problema que incomodou o poderoso lobby da indústria química americana. Apesar das campanhas de difamação organizadas contra ela, Rachel resistiu e foi apoiada por movimentos sociais que se articularam em defesa do banimento do DDT e de medidas regulatórias para o uso de pesticidas.

– Gros Brundtland:

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Considerada uma das três mulheres mais influentes do século passado, Gro Brundtland foi primeira-ministra da Noruega e presidente da organização Mundial da Saúde (OMS). Em 1987, foi designada pela ONU para chefiar a comissão que pautou a maior conferência das Nações Unidas até então, a Conferência Internacional da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.  A comissão “Brundtland” conseguiu difundir mundialmente a expressão “Desenvolvimento Sustentável” no relatório “Nosso Futuro Comum”, que serviu de base para a Rio 92.

– Wangari Maathai:

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Primeira ambientalista a conquistar o Prêmio Nobel da Paz, em 2004. Sua singular trajetória pessoal, com proeminente vida acadêmica e formação em universidades americanas, incomodou o marido, que sentiu-se humilhado em uma sociedade machista e pediu a separação. Criadora do movimento Cinturão Verde (Green Belt Movement), promoveu o plantio de milhões de mudas de árvore no Quênia e países vizinhos, onde a demanda por lenha para a produção de energia reduziu drasticamente a área de florestas. Apenas no Quênia, a cobertura verde original foi reduzida a apenas 4%. O movimento recrutou mulheres para o plantio e contou com o apoio da comunidade internacional. A reconfiguração das matas permitiu o retorno dos bichos, a recarga dos aquíferos e melhores condições de vida para milhões de pessoas que deixaram de migrar para as cidades à procura de melhores condições de vida.

– Hazel Henderson:

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Economista autodidata, criadora do Mercado Ético (Ethical Market), Hazel Henderson tornou-se uma das mais importantes pensadoras da atualidade, com trabalhos que sugerem a adoção de novos indicadores da economia, novas fórmulas para medir o PIB dos países, uma nova visão empresarial, um novo modelo de desenvolvimento mais justo e sustentável.

– Vandana Shiva:

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Prêmio Nobel alternativo, feminista, ambientalista, Vandana Shiva notabilizou-se pela luta em favor da biodiversidade e dos alimentos orgânicos. Criou na Índia uma organização que, entre outras atividades, recolhe diferentes tipos de sementes para proteção biogenética e uso gratuito pelas comunidades tradicionais. Vem denunciando o uso indiscriminado de pesticidas proibidos no hemisfério norte em países pobres, e o lobby dos transgênicos que impede a correta analisa de seus efeitos sobre a saúde humana e o meio ambiente.

– Marina Silva:

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Ex-líder seringueira, companheira de Chico Mendes, Marina Silva emergiu como liderança política do Acre para brilhar como senadora da República e ministra do Meio Ambiente. Reconhecida internacionalmente como legítima representante dos povos da floresta, Marina consagrou suas ações no Executivo e no Legislativo em favor das chamadas medidas estruturantes para um modelo de gestão sustentável dos recursos.

 

André Trigueiro

 

(Fonte: Blog Cidades e Soluções)

 

 

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03 de Julho

Os nomes dos bois

O Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC) considerou insuficientes as informações dadas pelas três maiores redes varejistas do país – Carrefour, Pão de Açúcar e Wal-Mart – a respeito da origem da carne bovina vendida nestes estabelecimentos. Através das respostas enviadas ao Instituto, chegou-se à conclusão de que os supermercados não dispõem hoje de meios seguros e isentos para aferir se a produção de carne causa desmatamento ou explora mão-de-obra escrava ou infantil.

A rastreabilidade da carne é condição fundamental para a redução do desmatamento em uma região onde, de acordo com o IBGE, a população de bois dobrou nos últimos 10 anos, alcançando a marca de 73 milhões de cabeças de gado (três vezes superior à população de brasileiros que vivem na área da Amazônia Legal). Um terço da carne hoje exportada pelo Brasil tem origem na Amazônia.

Considerando que 18% da maior floresta tropical úmida do mundo já foram destruídos, e que a derrubada de árvores na Amazônia para a abertura de novos pastos responde por 80% dessa devastação, o consumidor de carne torna-se, na prática, um avalista dessa tragédia ambiental. A inexistência de carne certificada inviabiliza qualquer tentativa de privilegiar os segmentos do mercado que atuam na legalidade em toda a cadeia produtiva. Os bons pecuaristas têm a reputação abalada pela impunidade dos que atuam na clandestinidade, e tornam-se competitivos apenas porque não recolhem impostos.

Para piorar a situação, a construção de frigoríficos em áreas de floresta vem sendo financiada por bancos oficiais e privados sem qualquer estudo prévio que possa revelar com clareza os impactos ambientais causados pela aplicação desses recursos. Segundo o relatório produzido pela organização não-governamental Amigos da Terra (“O reino do gado – uma nova fase na Pecuarização da Amazônia Brasileira”), “a proliferação de abatedouros, assim como a compra de muitos deles por grandes grupos que os ampliam e equipam, é financiada principalmente com apoio financeiro do BNDES, e em certa medida de bancos multilaterais como o IFC (grupo ligado ao Banco Mundial) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), e de bancos comerciais, entre os quais Itaú, Banco do Brasil e Bradesco”.

O que deveria valer para a carne é igualmente importante para os mercados de soja e de madeira. A moratória da soja – renovada recentemente – assegura aos importadores europeus o fornecimento de grãos plantados em áreas onde não houve desmatamentos recentes (de 2006 para cá). Por que não ampliar essa exigência para o mercado interno?

No mercado madeireiro, o exemplo também poderia vir de cima. Toda a madeira bruta ou processada comprada pelos governos (federal, estaduais e municipais) deveria ser certificada, priorizando-se nas licitações públicas os fornecedores que seguem à risca os planos de manejo.

A certificação não está imune à fraude, e qualquer movimento nesta direção demandará novos esforços de fiscalização e controle. Mas é muito bem-vindo o compromisso do Ministério do Meio Ambiente de mobilizar os esforços necessários para identificar a origem desses produtos e dividir com o consumidor a tarefa de proteger a floresta.

A rigor, quando a certificação obtida por meios confiáveis é entendida como algo elementar e referencial nas relações comerciais, todo e qualquer produto ou serviço – não apenas os da Amazônia – são passíveis de algum selo que ateste o cumprimento desse check-list socioambiental. Imóveis, veículos, roupas, eletrodomésticos, tudo o que demanda uso de mão-de-obra, matéria-prima e energia, merece algum tipo de certificação. Entramos no século XXI experimentando uma crise ambiental sem precedentes, com direito à exploração de crianças e escravos em linhas de montagem abomináveis. Quem compra o resultado dessa lógica perversa é responsável por isso.

A sociedade de consumo possui ferramentas sofisticadas e inteligentes de promover ajustes no mercado em favor da sustentabilidade. A disposição dos consumidores em comprar produtos e serviços sustentáveis já foi amplamente confirmada por pesquisas no Brasil, repetindo um fenômeno que já se consolidou na maioria dos países desenvolvidos. Entender o consumo como um ato político é um sinal de maturidade civilizatória, de respeito à vida e ao próximo.

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

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