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Impermanência e desapego. | Papo das 9 #987

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Olá, minhas amigas, meus amigos. Muito bom dia a todas e todos. É muita alegria estar aqui com vocês mais uma vez nesse papo das 9 especial de domingo que, como vocês sabem, é temático. Aqui aos domingos a gente escolhe um tema para reflexão, na suposição de que seja um tema inspirador, útil, que possa deixar, eu diria, elementos de reflexão positivos que ajudem vocês aí. como me ajuda a preparar o estudo a perceber melhor a realidade que nos cerca para a tomada de decisões mais acertada em favor da nossa saúde, do nosso equilíbrio, da nossa resiliência.

Na largada do papo, eu quero dizer que como espírita, eu não acredito no acaso e esse fim de semana isso ficou muito, eu diria, claramente assinalado, quando eu já tinha escolhido o tema para hoje e me deparei com a leitura de um novo livro. O livro não é propriamente novo, mas eu escolhi lê-lo a partir de ontem. Já avancei um monte de uma médica que eu vou falar já já para vocês, e me surpreendi com a interface, com a comunicação direta desse livro com o tema que eu já havia escolhido pro papo das 9 de hoje. E à noite, ontem, no finalzinho da noite, eu revi uma entrevista do Pedro Bial essa semana com o cantor Lulu Santos.

E curiosamente o assunto da entrevista também invade o espaço aéreo do papo das 9 de hoje visceralmente. Eu já vou dar um spoiler. Hoje eu pretendo fazer aqui uma reunião de dados, informações, inspirações que ajudem a gente a lidar com o imponderável da vida. aquilo que acontece de forma surpreendente, como a vida invariavelmente determina na nossa existência, né? Existem situações que você tem o controle, que você planeja, que você executa. Existem situações que estão absolutamente fora de qualquer capacidade de previsão ou de planejamento. E a maior parte de nós não lida bem com isso.

A gente ainda tem o mito da rotina que nos protege, onde encontramos refúgio para a dor de algo que não estava previsto e não nos favorece. Quanto mais previsível for a vida, quanto mais forte for a minha obediência à rotina, muitos já acreditam nisso, menos eu fico vulnerável a episódios dolorosos. Então essa afeição pela rotina tem razões psicológicas, como se ali fosse possível driblar as inconstâncias, o imponderável da vida. Só que isso não costuma funcionar bem. Eu garimpei uma frase aqui do filósofo alemão Artur Schopenhauer, que diz que o destino embaralha as cartas e a gente joga.

Então, a grande questão que eu hoje vou tentar aqui com vocês pensar junto é como a gente lida com a impermanência, que é uma palavra muito cara aos budistas. Eles falam muito da impermanência e a filosofia budista, ela de alguma forma prepara seus seguidores, seus estudiosos ou tenta preparar para essa inconstância. Eu já mencionei aqui no papo das ve um exercício de uma das tradições budistas, me parece que é o budismo tibetano ligado à sua santidade da lailama, naqueles mosteiros no Tibet, eh, que você passa semanas, por vezes meses, num trabalho coletivo, num dos momentos de atividades laborais do mosteiro. produzindo coletivamente um desenho, uma paisagem com areia colorida.

Você vai muito lentamente configurando uma imagem com aquela areia eh colorida num numa área extensa em que todos os monges são os cocriadores daquilo ali. Aí quando aquilo começa a ganhar forma, quando aquilo começa a ter definição, quando aquilo começa a ter, digamos, o resultado do trabalho de semanas ou meses, o mestre passa o rodo, mistura a areia toda de novo. E ele não avisa antes que ele vai fazer isso. ele desconfigura toda aquela arte, né, que levou tanto tempo, consumiu tanta energia, tanto trabalho.

E a mensagem subliminar que tá contida aí é: não que o trabalho não tenha o seu mérito, que aquilo tenha resultado em nada, mas que a gente não se fixasse no resultado, achando que ele eh precisa ser eternizado ou preservado para sempre, posto que a vida é movimento e a impermanência exige de nós um protocolo, digamos, de sabedoria para saber Exatamente. Lidar com o imponderável que do nada, de repente desfaz totalmente um plano. Isso vale pra perda de um ente querido. Isso vale pro desemprego súbito. Um momento que você precisa pagar as contas, precisa subsistir, precisa garantir o sustento da família ou ajudar a compartilhar as contas da casa e e não tem mais renda.

No momento que você perde a saúde, não consegue mais ter forças para fazer o que você vinha fazendo, no momento em que você é comunicado de uma doença terminal ou no momento em que você se depara com uma desilusão amorosa ou com o fim de um relacionamento por razões íntimas suas que aquilo já deu. Não há mais eh a disposição, aquilo não tá mais brotando de forma genuína ou que você de fato foi comunicado pela pessoa que você ama que do lado de lá aquilo não faz mais sentido. Veja, a vida é repleta de situações com as quais a gente invariavelmente não sabe lidar bem e reage mal quando isso acontece.

Então, o papo das ve hoje vai numa direção em que a gente vai tentar eh mostrar situações que podem inspirar a lidarmos melhor, nos prepararmos intimamente para uma realidade inexorável da existência, que é a impermanência. Nada é, tudo está. Eh, porque nós temos aqui no papo das 9 de domingo um grande número de pessoas que se dizem espiritualizadas, né? A gente acompanha os relatos de vocês, as manifestações de vocês, gente que não necessariamente tem religião, mas acredita numa força superior num país em que a maioria das pessoas ditas e espiritualizadas é cristã. Eu vou pegar um trecho aqui do Evangelho de Mateus, reproduzindo uma passagem conhecida do mestre Jesus. e que mostra exatamente de forma direta um recado dele em favor do desapego, que a gente de fato procure calibrar com a devida intensidade e dosagem o apego que temos por situações, por bens materiais ou até por pessoas.

A gente pode amar muito alguém, querer muito bem a essa pessoa, mas quando a gente fala de desapego, é a gente reconhecer que cada pessoa tá inserida no seu próprio processo. E esse processo tem uma dinâmica própria que você não tem o controle. Portanto, as coisas precisam seguir, as coisas precisam avançar. A passagem do evangelho que eu sei que você conhece é a seguinte: "Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corróem, e onde ladrões escavam e roubam? Mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam nem roubam, porque onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.

Então Jesus já dava um toque muito claro, visceral, direto, assertivo, de que a gente precisa dar o devido valor às coisas, exercitando o desapego e preparado para a impermanência. A impermanência. Deixa eu contar aqui então que é interessante isso, né? Sincronicidade. Primeiro eu vou falar da entrevista do Lulu Santos no Conversa com Bial essa semana na Globo. É um programa que vai ao ar de madrugada. Eu vi na reprise no Globo Play. Eu achei uma entrevista tão interessante e que dialoga, como já disse, com o papo das 9 de hoje. Lulu tá com 72 anos. Esse ano, eu vou resumir aqui a entrevista.

Ele teve que interromper uma turnê que era a maior da década para ele por razões de saúde, uma doença autoimune que trazia muita dor e a dificuldade até, segundo ele, para colocar as próprias meias no pé. Ele não conseguia ficar em pé, andar sozinho, muito menos tocar guitarra ou cantar. Então, ao falar da doença, o Lulu começou a fazer pro Bial um relato que eu achei bem interessante de como a perda da saúde. E o companheiro, ele é casado com rapaz 30 anos mais novo, que já vem alertando o Lulu em relação à necessidade da pausa, de desacelerar, porque ele tava numa batida muito violenta há muitos anos. Segundo o Lulu, mais de 40 anos de trabalho praticamente ininterrupto e muito exaustivo.

Viagem, turnê, voo, hotel, ensaio, gravação, aquela coisa toda. E aí a doença determinou nele um freio de arrumação e a constatação de que ele não era mais jovem, não era mais um garoto, não dispunha energia de antes e que ele percebeu que enquanto artista, mas não são só os artistas, você tem que buscar estar em evidência, né? tem que procurar o seu espaço e você procura esse espaço de uma forma quase obstinada, alucinada, né, sem respeitar os próprios limites. E essa doença autoimune para Lulu foi como o soar de um alarme, dando conta de que ele perdeu qualidade de vida e ele não tinha o pretexto para repensar a rotina. E a doença impôs isso a ele e ele parou, né?

Ele suspendeu, cancelou viagens, shows, eh novos projetos de gravação. Ele deu um, ele parou. E o que é um fantasma para muita gente, que é parar, botar o pé no freio, repensar o que precisa ser feito e de que jeito, para ele, até aqui tem funcionado como um redescobrir-se na vida com 72 anos, olhando pra frente e vendo: "Eu não tenho mais tanto tempo pela frente como tive daqui para trás". que que eu quero fazer da minha vida? Que que eu posso fazer ainda que me dê prazer, que me dê satisfação e que dê um sentido para mim?

Então ele começou a estudar espanhol, ele começou a fazer mais, eu diria, consagrar mais tempo pro refazimento, para conhecer lugares, encontrar pessoas com as quais ele estava afastado e ter experiências, digamos, acessíveis a ele, que ele não tinha tempo ou prioridade para seguir esse caminho. É interessante que um dos maiores sucessos do Lulu como uma onda, filosoficamente é uma letra, uma música, a letra é do Nelson Mota, salvo engano. Eh, nada do que foi será do jeito do nada do que foi será do que não foi um dia. Tudo passa, tudo sempre passará. A vida vem em ondas como o mar no indo e vindo infinito.

Um dos primeiros sucessos dele é a trilha sonora da vida dele nesse momento e que ele recitou um trecho durante a entrevista com Bial. Resumo da ópera. Eu tô falando de impermanência, eu tô falando de desapego, eu tô falando que a vida traz surpresas pra gente e que a gente invariavelmente não sabe lidar com elas. O Lu Santos essa semana na entrevista com Bial, no Conversa com Bial, teve a oportunidade de em tom testemunhal falar sobre uma questão muito dolorosa para ele que se revelou numa descoberta. Eu não sou mais o mesmo e eu preciso lidar com o novo que eu sou, a nova circunstância da minha vida, onde os limites físicos, a disponibilidade de energia não são os mesmos.

E eu preciso repensar o que me interessa fazer e de que jeito. Eu achei isso muito rico, muito forte. Eh, ele não disse que tá, pelo menos o que eu entendi da entrevista, melhor ou pior do que antes. Tá diferente. O que coube a ele fazer foi prestar atenção nas novas circunstâncias e se adaptar a elas. Há no estudo do evolucionismo e da biologia humana, uma corrente que me parece majoritária de cientistas, que diz que a espécie humana ela é um exemplo de que o que prevalece não é a lei do mais forte. O ser humano não é o mais forte da natureza.

E observando a natureza, não é sobre nós, deixa eu reconfigurar, os estudiosos do evolucionismo e da biologia, não apenas humana, percebem que na linha do tempo as espécies que resistem não são as mais fortes, são aquelas que se adaptam melhor às circunstâncias. Eu tenho aqui no livrinho A arte de seguir em frente uma mensagem. Eu achei muito interessante que eu fui procurar aqui uma mensagem que tivesse a ver com o papo das 9 de hoje e abrir de primeira. Eu ainda me surpreendo com isso, que é a mensagem 26 que diz o seguinte: "Muita gente entende a palavra resignação como algo negativo que remete à aceitação passiva de alguma situação adversa.

Há, entretanto, outra leitura possível dessa palavra. É quando nos deparamos com situações irreversíveis, irremediáveis e descobrimos que a melhor maneira de lidar com elas é aceitá-las sem revolta ou ressentimentos. O que não tem solução, solucionado está e a vida segue como deve ser. Então veja, eu acho isso de uma sabedoria infinita, entender como as coisas no universo funcionam. Você pode achar que isso não é justo, você pode achar que isso não é legal, você pode achar que essas surpresas desagradáveis não deveriam acontecer. É direito de cada um responder a essas situações da forma como achar que deve.

Para mim tá muito claro que quando a gente, isso é sabedoria, entende como o universo funciona, entende como a vida se resolve, a gente não se contrapor a isso, a gente procurar tirar o melhor proveito disso. Isso, do meu ponto de vista, é inteligente. Aí eu vou pegar carona num livro que eu ganhei esse ano, no mês de agosto ou setembro que eu tive em Brasília numa solenidade em que a gente foi agraciado com prêmio. E lá estava uma médica, Ana Cláudia Quintana Arantes, que é uma autoridade no Brasil em cuidados paliativos. Em 2013, ela participou de um TED Talks, aquelas palestras curtinhas que alcançou até agora mais de 3 milhões de visualizações.

E a última fala do vídeo é: "A morte é um dia que vale a pena viver". Que virou um livro, A morte é um dia que vale a pena viver, que já vendeu mais de 400.000 1 exemplares. Eu conheço a história do livro, mas nunca tinha lido. Agora eu avancei ontem, cara. uma leitura que vai voando. Eu vou terminar esse livro, senão até o final de hoje, até amanhã, em que a doutora Ana Cláudia, ela conta a saga dela como uma estudante de medicina que sofria muito por perceber logo cedo, já na faculdade, depois na residência, depois dando plantões em hospitais. como os colegas dela diante de situações dolorosas de pacientes terminais em situação muito delicada, reclamando muito de dor.

Segundo ela no livro, esses médicos mais experientes davam de ombros, dizendo assim: "Mas não há o que fazer, não há solução". E ela não aceitava isso porque ela achava que o papel do médico deveria ir além da frustração. Assim, eu não consigo curar essa pessoa, então o caso perdido, se ela tá sofrendo, não há o que fazer. Ela entendia que deveriam ser esgotados todos os protocolos de assistência e ajuda, não apenas do ponto de vista anestésico de você suprimir no limite das possibilidades terapêuticas a dor daquele paciente que estava numa situação de fato considerada irreversível. Mas além disso, preparar o paciente e a família para essa circunstância.

A gente tá falando do imponderável, a gente tá falando da vida que, como diz o Schopenhauer, o destino embaralha as cartas e a gente joga. A gente é que joga, mas o destino embaralha as cartas. Então, o que fazer?

E ela se sentindo muito isolada, ela não conseguia descobrir aliados nessa luta até acessar uma obra de uma médica, salvo engano, canadense, que falou sobre os cuidados paliativos, falou sobre uma um caminho que a medicina deveria abraçar, que é o de promover o melhor acolhimento possível ao paciente e a sua família em circunstâncias extremas, preparando essa pessoa para a sua finitude e preparando a família pro desenlace daquele ou daquela diante de circunstâncias muito hostis de saúde, não estressar ainda mais o paciente com aquelas frases de efeito assim: "Lute até o fim". Faça tudo que tiver ao teu alcance, vai dar certo, confia em mim. As pessoas não têm noção.

Não é o único livro que eu leio sobre cuidados paliativos. deve ser o segundo ou o terceiro. E eu tenho aqui no Rio já há alguns anos a oportunidade, o privilégio de conhecer e apoiar a casa de Francisco, acolhimento do Eduardo, que aqui no Rio de Janeiro, no bairro de Jacaré Paguá, faz esse trabalho também de forma muito pioneira e heróica, tá? acolhendo pacientes ditos terminais que não tam leitos em hospitais, sendo que no hospital não se sabe muito bem o que fazer com aquele paciente. O Eduardo sabe, ele estudou para isso. E a Dra. Ana Cláudia, portanto, narra. É interessante.

Olha que legal isso, gente, porque são aqui tem um combo de situações que dizem respeito a ao que a vida traz e te faz sofrer e você a partir do sofrimento tenta descobrir uma uma saída. Ela chegou a abandonar a medicina, abandonar o curso, abandonar a profissão, porque ela falava: "Eu não sei lidar com a dor dos outros sem que meus colegas ou a estrutura em que eu tô inserida se prepare melhor para acolher e ajudar". Ela falava: "Eu não fui, eu não quero ser médica para sofrer junto com o paciente sem conseguir ofertar o que eu acho que a gente deve ofertar." E aí ela resolveu bancar o que no coração dela palpitava com força.

E aí se lembra do que Jesus falou: "Guardai os tesouros do teu coração, que esse as traças não corróem e os ladrões não roubam." Porque é isso que a gente tem que prestar atenção. Isso é imperecível. Isso não muda. A vida traz as novidades, embaralha as cartas, mas o coração da gente aponta um caminho. Então, a Dra. Ana Cláudia, ela teve a coragem de seguir o seu coração e veio a se transformar hoje na maior defensora da universalização dos cuidados paliativos em todo o Sistema Único de Saúde. É uma luta, isso não aconteceu ainda, mas é uma coisa que vai acontecer. Eu eu não consigo imaginar a medicina, nem vou falar do futuro, mas dos próximos anos, não investindo mais e melhor.

Não é em paliativistas, eles já existem, são importantes. Tô falando de um conceito de uma filosofia de trabalho na área da saúde que promove o amplo acolhimento de um paciente acometido de uma doença muito grave, considerada terminal, em que você pode abdicar dos métodos invasivos que não vão resolver o problema, mas é o que a medicina consegue fazer. Não, eu não vou resolver, mas eu vou extirpar isso, vou fazer aqui uma cirurgia radical. eventualmente aquilo vai mudar o status perverso e agressivo da patologia. E aí a família tem a opção e a legislação brasileira permite isso. O paciente tem essa opção também. Se o paciente tiver desacordado, a família toma essa decisão.

O paciente, ele tem a opção de escolher uma rota terapêutica que implique apenas no cuidado para livrar ao máximo a dor e o sofrimento e preparar essa pessoa e a família para uma morte digna, para que não haja mais sofrimento desnecessário, para que as pessoas consigam nesses nesse tempo que é impreciso de vida, ter a melhor experiência de trocas, de vivências, de consumo do tempo numa direção aonde aquela luz que tá se apagando, ela realiza esse movimento que é o que todos nós passaremos. Um dia, todos nós estamos de passagem, que glória é você poder se despedir da vida com dignidade, com altivez, com serenidade, com serenidade.

Precisa preparar, precisa treinar os profissionais de saúde para aplicarem essas técnicas que já existem e, ó, em outros lugares do mundo já há algum tempo. Portanto, não estamos falando de teoria, estamos falando de algo que é exequível, é fácil replicar, desde que haja boa vontade. Então fica aqui, ó, a recomendação do livro A morte é um dia que vale a pena viver da Ana Cláudia Quintana Arantes e que hoje nos ajuda aqui a ter essa noção de como de fato a gente não deveria se abalar tanto, ficar tão deprimido, ficar tão borocochô quando a vida embaralha as cartas e a gente por conta disso, não tem mais vontade de jogar, né?

Eu também separei aqui uma passagem muito conhecida de Guimarães Rosa em grande Sertão Veredas, que é lembrada porque resume uma filosofia de vida muito bonita e necessária também nos dias de hoje. Rosa disse, escreveu: "O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim. esquenta e esfria, aperta e daí afrocha, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Então, aí meus amigos, a gente vai voltar aqui a abordar à luz das doutrinas espiritualistas, das filosofias transcendentais, a questão do sentido da vida, né? Eu particularmente entendo que essa frase é uma frase que guarda um significado profundo de natureza espiritual.

O que a vida pede da gente é coragem, é a gente não deixar de perceber que o que você traçou como meta objetivo e não deu certo ou em algum momento aquilo não faz mais sentido, a gente perceber que muito provavelmente cada caso é um caso nos desígnios de Deus ou pelas leis da natureza, uma força superior a outra outras questões que eventualmente num determinado momento da vida importa considerar, importa prestar atenção para nosso próprio bem.

Então, a gente às vezes sofre de teimoso porque a gente tal qual aquele equipamento horroroso que colocam em cavalo, jeg, né, para você só olhar pra frente, né, para você focar só no caminho que vai à frente e de repente você perder a visão periférica, a visão sistêmica, a visão holística, né, tentar recuperar essa visão mais ampla das coisas que permite uma melhor navegação, uma navegação mais segura para você, que não vai exentá-lo de dor e sofrimento, mas vai habilitá-lo a lidar com a dor e o sofrimento de outra maneira, não entregando os pontos, não ficando ali, sabe, de uma forma às vezes mesquinha, dizendo: "Ah, não aconteceu do jeito que eu queria, então não quero mais saber de nada".

Não é assim que a gente deveria fazer. Então, outro ditado muito popular que Deus escreve certo por linhas tortas, você pode não entender porque que aquilo que te parecia tão interessante, tão adequado, tão bom, não aconteceu do jeito que você queria. O papo das ve nasceu durante a pandemia e eu recebi muitas, muitas, muitas mensagens. Eu perdi a conta de quantas pessoas perderam seus entes queridos por conta do vírus e em função disso tiveram um recesso nas relações de fé, como se sentissem traídas por Deus. Deus não poderia ter feito isso comigo. Eu não poderia perder essa pessoa nesse momento.

Eu que sou uma pessoa tão eh ligada a Deus de fé e me sinto uma pessoa tão boa, caridosa para com os outros, faço minhas obras sociais. A pessoa enxerga ou enxerga-se como alguém por ser temente a Deus. e obstinada em fazer o bem, desonerada, por exemplo, da possibilidade de sofrer tanto com a perda de um ente querido e não perdoa Deus por isso. Eu entendo essa reação que é humana, mas eu preciso dizer isso se enquadra um pouco com o que eu tô falando aqui. gente deveria perceber as outras variáveis que estão por trás, por exemplo, do episódio da passagem de um ente querido, sabe? Porque todos nós temos prazo de validade na Terra.

Quando a hora de chegar chega, quando a hora de partir, melhor dizendo, quando a hora de sair do corpo chega e a gente põe a culpa em Deus e acha que foi traído, com toda franqueza, eu respeito mais uma vez para uma natureza humana eh compatível com o nosso nível evolutivo, mas eu acho que a gente deveria mudar de chave e perceber o que tá por trás. exatamente desse exercício do desapego em função da impermanência das coisas. E a impermanência alcança também a presença das pessoas queridas, amadas, por vezes que nós consideramos insubstituíveis quando elas partem.

Por tudo isso ou por trás de tudo isso, me parece, há sempre um generoso, um amoroso aprendizado em favor do nosso espírito imortal. Chegará a nossa vez. E é bom que a gente desde já exercite esse olhar e essa sensibilidade para a impermanência das coisas. Ah, eu adoro minha casa, adoro minha família. Adoro minha cidade, adoro fazer isso, adoro comer aquilo. Todos nós temos as nossas predileções, as nossas preferências. Isso não é nenhum problema. Continue gostando, curtindo, aproveitando, desejando. A questão é a compreensão das leis que regem a vida e o universo.

E como a gente precisa de alguma forma, mais cedo ou mais tarde acordar pro fato de que sim, aqui nesse plano nós estamos rigorosamente de passagem. Se preparar para cada momento que a vida traz implica num aprendizado que nos acompanhará o resto da existência em todos os planos da vida. É o que eu acredito, é o que eu tentei compartilhar hoje com vocês. Não significa, por estar falando tudo isso, que eu esteja tirando nota 10 nessa lição. Não, eu sou um aprendiz, sou mesmo. Mas estudar esse assunto e compartilhar com vocês me permite lidar melhor com a minha incapacidade, por vezes, de lidar com impermanência ou com desapego.

Então eu desejo a todos uma semana repleta de luz, de sabedoria, um domingo em que você consiga de alguma forma reservar um tempo para suas reflexões mais importantes e essenciais e que tenhamos força, coragem e fé para seguir em frente. Sim, tá terminando mais cedo que o papo das 9 ele não precisa durar sempre uma hora. Olha aí o desapego. Ele vai durar o tempo que tiver que durar. Tudo de bom. Até a próxima, se Deus quiser.

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