No Rio de Janeiro, criminosos convertidos a determinadas correntes religiosas passaram a determinar, nas comunidades que dominam pela força das armas, a destruição de terreiros e de objetos de fé. Não é episódio isolado nem novidade: já é objeto de literatura acadêmica e de livros publicados sobre o tema.
Quando a fé vira instrumento de domínio
O mecanismo é descrito com clareza no programa: líderes de facções que se converteram — na maior parte dos casos a vertentes neopentecostais — passam a seguir uma linha que estigmatiza as denominações afro-brasileiras. Orientados por pastores, transferem essa hostilidade para o território que controlam.
O resultado é a expulsão de religiões inteiras de áreas urbanas, com jugo de armas pesadas, intimidação e violência. Candomblé e Umbanda são os alvos principais.
Um preconceito que não nasceu ontem
A raiz é antiga e atravessa gerações. André Trigueiro relembra a própria infância em colégio católico, quando até os protestantes — palavra usada à época, antes de “evangélico” se popularizar — carregavam uma aura de desconfiança.
Nos anos 1960, quando o Brasil era oficialmente um país católico, os espíritas estudiosos de Kardec eram alvo de patrulhamento religioso severo. “Botava tudo na conta da macumba e da curimba”, lembra — expressões que ele classifica como agressivas e preconceituosas.
E faz uma autocrítica que raramente se ouve: esse vocabulário sobrevive inclusive dentro do próprio espiritismo, usado por quem quer estigmatizar as tradições afro-brasileiras.
O texto de 1960 que segue atual
“Acate com respeito todas as religiões. Cada homem ou mulher tem o direito de escolher o caminho que prefere. Respeite a liberdade de crença dos outros, tanto quanto aprecia que respeitem a sua. Não discuta, nem procure tirar ninguém do caminho em que se acha, a não ser que seja procurado para isso. Respeite para ser respeitado.”
Carlos Torres Pastorino, Minuto de Sabedoria, 1960
O trecho foi escrito há mais de seis décadas, num país que ainda tratava a diversidade religiosa como desvio. Que ele continue soando como recado urgente diz menos sobre o livro e mais sobre o que não mudou.
Adaptação editorial da íntegra do Papo das 9, com André Trigueiro. Dados e citações verificados na gravação.
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