Parte da mudança

Maria Vianna

O jornalista André Trigueiro, de 38 anos, se inspira no líder Mahatma Gandhi e trabalha para ser a mudança que quer ver no mundo. Dedicado às causas ambientais, Trigueiro lançou, no ano passado, o livro Meio Ambiente no século 21, que reúne textos de especialistas como Alfredo Sirkis, Frijtof Capra, Leonardo Boff e Washington Novaes, e que discute o ambientalismo dentro de diferentes áreas de conhecimento. Apresentador do canal a cabo Globonews, Trigueiro também é colunista do site Ecopop, dedicado ao desenvolvimento sustentável nas comunidades de baixa renda, e apresenta o programa Conexão Verde, na rádio Viva Rio. Esperançoso, o jornalista acredita que esta é a hora de a sociedade unir forças e promover as transformações necessárias para se construir um mundo melhor.

Como começou seu envolvimento com o meio ambiente?

A partir da cobertura do Fórum Global, movimento paralelo à Rio 92, no Aterro do Flamengo, eu senti a necessidade de buscar mais informações sobre algo que eu achava que era um assunto exclusivo de ambientalistas, ecologistas e cientistas. Lá, eu vi o Dalai Lama, o Leonardo Boff, crianças e adolescentes do mundo inteiro, mas, principalmente, vi o terceiro setor, as ONGs, e fiquei encantando com essa perspectiva de você, enquanto cidadão, poder participar desse imenso movimento de construção de um mundo mais justo, mais igualitário e sustentável.

Como surgiu a idéia do livro?

Foi uma demanda pessoal. Procurava um livro que não fosse técnico, que não fosse chato, que procurasse traduzir o meio ambiente tal qual eu já tinha entendido e que me fornecesse informação qualificada sobre o assunto, e me deparava com um deserto árido. O feedback que recebo é tocante, porque o livro nunca foi direcionado a ambientalistas, pelo contrário, é para pessoas interessadas no assunto, principalmente para quem quer saber como estamos agora e como sairemos desse impasse civilizatório. Quis pegar toda essa informação e torná-la acessível para quem ainda não entendeu por que o meio ambiente é um assunto tão importante.

Além do livro, você também faz trabalhos voluntários relacionados ao meio ambiente, tanto no rádio como na internet. Por que essa escolha?

Percebo o universo como uma rede interdependente de fenômenos, tudo que existe determina ações e reações, e não dá para separar, por exemplo, o social do político e do econômico. Quando falamos do social, não podemos esquecer que a questão ambiental se resolve na dimensão humana, e a dimensão humana não se resolve sem o conceito político. Isso fica evidente na questão da água, por exemplo. Para muitos, a água é um assunto ambiental e ponto. A falta de água na região Nordeste, que implica na degradação da qualidade de vida de um contingente de brasileiros, é uma questão social e de saúde pública. Não dá para separar uma coisa da outra, excluir informação e conhecimento só por que aquilo não nos diz respeito.

O que mudou em você desde o início dessa trajetória?

Fiquei desavergonhado em assumir minhas opiniões e posições, que nem sempre eram as da maioria das pessoas que eu conheço. Ter a coragem de assumir as coisas parece pouco, mas não é, e hoje não me restam dúvidas de que é preciso ter atitude. Eu acredito em Deus e sou cristão, mas não acredito em karma coletivo e acho que estamos experimentando dissabores para entender que devemos tomar um novo rumo. Também comecei a prestar atenção nos meus hábitos, nas minhas escolhas e no que elas implicam. Deixei de ser tão consumista, de trocar de carro todo ano. É impossível não mudar depois de receber todas essas informações.

Como sair da teoria e mudar na prática?

Tem gente que faz tempo que não dá um passeio pela praia, pela floresta, que se entupiu de cidade e acha que dá para viver bem assim. Essa pessoa que só foca no trabalho torna-se insensível, não percebe as sutilezas do dia-a-dia. Eu acho que temos que descobrir o mundo em que vivemos e não conhecemos, deixar de viver no automático. Eu sugiro que a gente pare e reflita sobre o nosso estilo de vida, se estamos felizes, pensar no que está faltando. Não dá pra ser feliz com tanta miséria e fome por perto. Não podemos nos acostumar com isso e achar tudo normal, fugir da dor para não tomarmos uma atitude. Gandhi tem uma frase que eu acho ótima e me inspira muito: ”Sejamos a mudança que queremos ver no mundo”. Querer um mundo melhor não é o suficiente, temos que fazer a nossa parte.