O Brasil abateu 6,7 bilhões de frangos em 2025. O número, sozinho, já supera em mais de setecentas vezes a população do país. Somados a ele, foram 60 milhões de suínos e 43 milhões de bovinos — este último com alta de 8,2% em relação ao ano anterior, o maior salto entre as três espécies.
Os dados foram apresentados no Papo das 9 e apurados junto ao perito Frank Alarcon. Mas o que mais impressiona não está na conta do consumo.
84 milhões de pintinhos mortos por terem nascido machos
Nas granjas de ovos, só a galinha interessa. Quando nasce o pintinho macho, ele não tem serventia comercial — e a legislação brasileira autoriza o descarte. Os métodos permitidos são trituração, asfixia ou descarga elétrica.
São 84 milhões de pintinhos por ano, eliminados pelo único motivo de terem nascido do sexo errado para a indústria. A prática é fiscalizada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, com orientação técnica da Embrapa.
38 milhões retirados da natureza — e vendidos para quem se diz horrorizado
Fora da cadeia alimentar, o tráfico de animais silvestres retira 38 milhões de animais das matas todos os anos. As aves são as principais vítimas.
Há uma contradição incômoda nesse número: as mesmas pessoas que se dizem chocadas com as estatísticas são as que compram o passarinho na gaiola, o papagaio, o jabuti. Cada compra financia o traficante. E exibir nas redes sociais o macaco-prego, o mico-leão-dourado ou a capivara de estimação não é excentricidade — é crime contra a fauna.
A legislação, porém, continua permissiva. As penas de maus-tratos variam de meses a um ano de prisão, e raramente são aplicadas pelos juízes. O Decreto Orelha, batizado em homenagem ao cão brutalmente morto em Santa Catarina, elevou o valor das multas — mas manteve a pena de prisão em patamar irrisório.
Dezessete atropelamentos por segundo
Há ainda a matança que ninguém contabiliza direito. A única estimativa disponível sobre animais silvestres mortos em estradas brasileiras aponta 17 atropelamentos por segundo — algo em torno de 400 milhões por ano. É um número com margem de erro grande, e assim deve ser lido; mas é o único que existe.
O caso da Estrada do Futuro, na Paraíba, ilustra o problema na origem: ainda no canteiro de obras, flagrou-se a travessia de mais de cem macacos-galegos em fila, cruzando às pressas a pista em terraplanagem. A via foi construída sem que o empreendedor fosse obrigado a instalar passagens de fauna.
Assista à íntegra da discussão no vídeo acima.
Adaptação editorial da íntegra do Papo das 9, com André Trigueiro. Dados e citações verificados na gravação.
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