O reinado do superficial

Acordei e fui imediatamente pegar o jornal na porta de casa para ler no sofá como faço todos os dias. Já me disseram que não é um hábito muito saudável, que eu deveria ao menos tomar um café antes, mas já virou mania. Ainda com a vista embaçada, abro o jornal e me deparo com a seguinte manchete:

“Excesso de informação pode aumentar estresse”.

A reportagem resumia os resultados de uma pesquisa realizada na Universidade da Califórnia, em Berkeley, que revela os estragos causados pela avalanche de informações que atinge a humanidade sem que nós tenhamos condições de absorver tudo o que aparece na televisão, rádio, revista, jornal e internet. De acordo com os cientistas, 800 megabytes de informação são produzidos anualmente por cada um dos habitantes do planeta. O dobro da quantidade gerada há apenas três anos. Um dos especialistas ouvidos na reportagem afirmava que o excesso de informação talvez contribua para a dificuldade de concentração.

“A gente pode estar com cem janelas abertas no computador, mas só entra na memória uma coisa de cada vez”, dizia uma neurocientista .

Mais à frente vinha a opinião de um psicólogo:

“Cria-se uma sociedade superficial, em que se estimula a informação pura e simples, mas se perde a capacidade de argumentar, de construir idéias novas”.

Deixei o jornal de lado e me imaginei num labirinto, com milhares de portas se abrindo e eu sem saber direito por onde ir. Uma sensação parecida com a que muitos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas devem experimentar no dia-a-dia, quando se sentem enfastiados, saturados de tanta informação, num processo que consome tempo e energia.

O que fazer? Qual é a saída? Como ser uma pessoa bem informada sem acumular cansaço e stress? Quem nos dá uma pista importante para o entendimento dessa questão é o professor da Escola de Comunicação da UFRJ, Muniz Sodré, no livro ” O monopólio da fala: função e linguagem da televisão no Brasil” ( Petrópolis, Ed.Vozes, 1981, p.74 ) quando afirma que…

…”quanto mais você é informado do inessencial, menos você sabe sobre si mesmo e mais você é controlado pela lógica do medo.”

Inspirado pelo alerta do professor Muniz Sodré, denunciei no livro “Meio Ambiente no século 21″ ( Rio, Ed. Sextante, 2003, p. 80) que…

” …essa avalanche de informações perturba a nossa capacidade de discernir e entender a complexidade do mundo moderno com um olhar sobre aquilo que é essencial”.

O que é essencial dentro do turbilhão de informações que recebemos diariamente?

Essa é, na minha opinião, a grande contribuição do jornalismo ambiental – em particular dos assuntos que abordamos aqui no Ecopop – quando resgatamos as informações que julgamos essenciais, aquelas que dizem respeito ao mundo real, o ar que respiramos, a água que bebemos, a terra que nos sacia a fome, a qualidade de vida num planeta onde os recursos naturais são finitos e estão ameaçados, e de uma agenda de desenvolvimento que considere a sustentabilidade como premissa de qualquer planejamento estratégico.

Outro mérito do jornalismo ambiental é o de resgatar o pensamento sistêmico, em que tudo está interligado, todas as peças do universo interagem num processo já reconhecido como verdadeiro e cientificamente comprovável segundo os físicos quânticos. É curioso ver os cientistas afirmarem que cada parte contribui para a harmonia ou o desequilíbrio do Todo. É exatamente o que dizem os místicos. Não por acaso, o físico austríaco Fritjof Capra reconhece num texto publicado no livro “Meio Ambiente no século 21” que…

“A compreensão da vida em termos de redes, fluxos e ciclos é relativamente nova para a ciência, mas constitui uma parte essencial da sabedoria das tradições espirituais.”

Talvez o que nos falte, enquanto produtores e consumidores de notícias, seja a percepção do que é essencial, de como podemos agregar sentido e qualidade à nossas existências, conhecendo melhor as leis da vida e as engrenagens do universo. Certa vez, vi a jornalista Liana John, do jornal “Estado de São Paulo”, iniciar uma palestra sobre jornalismo ambiental com uma frase pequena no tamanho e gigante no sentido:

” Não se ama o que não se conhece”.

Para amar a natureza, o teatro da vida, o meio que nos cerca, precisamos conhecer, descobrir e aprender mais. O jornalismo ambiental transforma a informação numa ferramenta essencial na descoberta dos processos em que a vida se resolve.

Se o acúmulo de informações facilita a dispersão e a alienação, e segundo os cientistas, ainda nos causa um baita stress, nosso grande desafio parece ser o de buscar o fio da meada, o ângulo de observação de onde seja possível ver o mundo com outros olhos, e descobrir o que de fato é essencial.

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).