De olho nos “gatos”

Quem não conhece um devedor, ou já não passou pelo aperto de ser inadimplente? Os endividados estão por toda parte. É gente que no desespero procura banco, agiota, ou lota as missas na Igreja de Santa Edwiges, no dia da padroeira dos endividados. Pois na comunidade Nova Holanda, no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, quem não está em dia com as contas de luz não perde mais o sono. É que a partir de agora, dinheiro não é mais a única forma de pagamento para a fornecedora de energia. Uma parceria inédita entre a Light e a Latasa, oferece descontos na conta de luz em troca de latas de alumínio ou garrafas PET. Desde a segunda semana de março, os moradores interessados no desconto podem levar os materiais recicláveis para o posto da Light na comunidade (Rua Principal s/n°, esquina com Rua Sargento Silva Nunes, das 8h30 às 17h) onde tudo é colocado na balança.

O desconto é proporcional ao peso do material reciclável separado pelo consumidor: R$ 3,40 por cada quilo de lata de alumínio e R$ 0,50 por quilo de embalagem PET. Após a pesagem na balança, o morador leva para casa um comprovante, chamado de vale-luz, que incidirá na conta do mês seguinte. Se por acaso alguém conseguir juntar uma quantidade de vales superior à própria dívida com a Light, o compromisso da companhia é oferecer crédito extra, ou seja, um bônus de energia que será debitado das contas futuras. Todo o material reciclável oferecido pela comunidade para pagar as contas de luz será recolhido pela Latasa, que repassará à Light os valores do desconto.

O projeto tem o mérito de agradar a todos. A Light estima que, graças ao vale-luz, poderá reduzir a inadimplência na comunidade, que hoje é de alarmantes 56%, para 20%. A Latasa espera coletar uma quantidade expressiva de recicláveis, pagando por ela um preço justo, sem reduzir as perspectivas de lucro da empresa. E os moradores inadimplentes, que se angustiam por não poderem pagar a conta de luz, recorrendo muitas vezes ao gato – crime previsto no artigo 155 do Código Penal Brasileiro, com pena de um a quatro anos de prisão e multa –, têm como saldar suas dívidas prestando um enorme serviço social e ambiental. O projeto será avaliado no final do semestre e, se os resultados forem positivos, poderá ser replicado em outras comunidades de baixa renda no Rio de Janeiro.

É interessante imaginar a resolução desse projeto numa escala maior, onde o bom senso possa inspirar o pagamento dos mais variados tipos de dívida – de luz, de água, de gás, etc. – daqueles que comprovadamente experimentam dificuldades financeiras em comunidades de baixa renda, e que seriam contemplados com a possibilidade de honrar seus compromissos de pagamento com outra moeda. Num país onde o número de inadimplentes chega fácil à casa dos milhões, é fundamental que se busquem soluções criativas para reduzir o número de devedores sem institucionalizar o calote.

O projeto piloto “Reciclar vale energia”, em execução na comunidade Nova Holanda, sinaliza um novo rumo nas negociações entre credores e devedores. Enquanto este for um país onde há tanta miséria e pobreza, desemprego e falta de oportunidades, concentração de renda e injustiça social, todos os esforços para reduzir o número de inadimplentes são bem-vindos. Mas esse esforço é absolutamente necessário, quando a solução encontrada for boa para todos os lados.

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).