Papo das 9 Especial com o padre Júlio Lancellotti

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Alerta Humanitário! Padre Júlio Lancelotti denuncia falta de políticas públicas que socorram a população em situação de rua durante o super El Niño.

*Ajude a Pastoral do Povo da Rua*
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Padre Júlio Lancelote, um prazer estar aqui com o senhor. A razão dessa nossa conversa é a sua preocupação manifestada dias atrás num contato que fez em relação à enorme probabilidade de termos o super El Ninho no Brasil e seus efeitos já devidamente anunciados, eh, que vão comprometer a segurança de muitas pessoas, diferentes impactos, dependendo da região do Brasil, eh prejuízos, na produção de alimentos prejuízo no setor elétrico, prejuízos no bolso dos consumidores pela inflação de alguns alimentos. E o senhor acertadamente, pela experiência, pela longevidade à frente da pastoral do povo da rua, levanta a questão da situação dos mais vulneráveis. Eu queria que o senhor tivesse aqui a chance de compartilhar a sua preocupação com esse segmento. Estamos falando de quantas pessoas e o que na opinião do senhor poderá acontecer se nada for feito com esse segmento.

>> Então, no Brasil a estimativa do IPEIA é que nós tenhamos mais de 350.000 1 pessoas em situação de rua no Brasil todo, estão em diferentes regiões e vão sofrer os efeitos específicos de cada região, como no sul, as enchentes, como no Nordeste, a seca. Maior, a maior parte dessas pessoas, mais de 50% estão no Sudeste e grande parte na cidade de São Paulo, que chegamos a alguns dados levantam 80.000 1000 pessoas em situação de rua, como o fenômeno Elninho. E no Sudeste eh se prevê ondas de calor e com 5º acima da média. Eh, a nossa preocupação é numa cidade como São Paulo, com uma população de rua tão grande, aonde essas pessoas vão encontrar água. São Paulo é uma cidade que não tem bebedouros públicos, não tem acesso aberto à água potável, inclusive o movimento é o contrário.

Toda a possibilidade é fechada, toda a possibilidade é vedada. Eh, pessoas que não terão espaços de eh refrigeração, de climatização, eh acesso à água, exposição ao sol. Então, nós estamos inclusive desenvolvendo um projeto emergencial para que tenhamos garrafinhas de água para distribuir pra população em situação de rua, água potável, mas eles não terão água para higiene, não terão água em determinados horários. Então, é um risco muito grande dessas pessoas serem atingidas eh por insolação ou pelos efeitos de um calor excessivo sem nenhuma proteção. Nós estamos tentando conseguir eh protetor solar, boné, para que eh eles possam ser protegidos.

A população em situação de rua que fica nas calçadas, eh, quando o sol está a pino, não há sombra. em alguns lugares nem sombra de árvores. Então, eh o efeito que pode causar de eh desidratação e de outras questões eh vasculares ou outras questões para pessoas que já têm alguma patologia ou alguma patologia de base. Mas hoje nós já sabemos que as altíssimas temperaturas e a onda de calor pode causar distúrbios eh emocionais, distúrbios eh de eh de sofrimento mental, porque você ficar exposto a alta temperatura, ao calor excessivo, sem ter água, sem ter climatização, sem ter espaços de alívio, eh é muito difícil. E muitas vezes no calor eles podem eh diminuir o número de de vestuário, tirar a camisa, tirar a blusa.

E isso pode, inclusive eh em ondas de calor muito altas causar queimaduras no na pele. Então a população em situação de rua nos preocupa muito. Claro que todos os trabalhadores que trabalham na no espaço público na rua, os garis, os varredores, a limpeza pública, os carteiros, os leitores de eh da Sabesp ou da água, eh os leitores de da energia elétrica, então todos estão expostos, mas quem está exposto e sem nenhuma defesa, sem nenhuma proteção é a população em situação de rua numa cidade como São Paulo, mais de 80.000 pessoas sem acesso à água potável é gravíssimo. >> Bom, vamos lá. Então, deixa colocando em contexto, o calor, gente, mata mais do que o frio, tá?

Quer dizer, isso vem da área da ciência médica, as pessoas morrem de calor. Segundo ponto, o Brasil, quando a gente fala de políticas de assistência, acolhimento à população em situação de rua, nós temos a maior atribuição, salvo engano, padre que me corrija, é dos municípios, são os prefeitos. >> E aí temos formalmente definidas nas maiores cidades do país algum protocolo, alguma rotina usual. O que eu tô entendendo, padre, da sua preocupação é que até o momento nós temos visto as autoridades manifestarem novos protocolos em diferentes setores para lidar com o superio. Entretanto, no que diz respeito à assistência às populações em situação de rua, nenhum novo protocolo foi anunciado.

Essa é a questão que justifica essa nossa conversa. O senhor tá nos alertando para o risco de em situação, que é o que tá previsto, super ninho na região Sudeste, onde tem a maior contingente de população em situação de rua. Ondas de calor. Onda de calor significa um período em que a temperatura média fica 5º acima da média da estação por pelo menos 5 dias. Isso tem um impacto terrível sobre o nosso metabolismo, bem-estar, resiliência física e mental.

A população em estação de rua até aqui, o senhor não tem conhecimento de nenhuma nova diretriz, nenhuma política específica endereçada a ela? >> Não, não há nenhuma proposta. Eh, nós fizemos uma proposta de pontos emergenciais, mas nós precisaríamos ter, por exemplo, pontos de hidratação, [risadas] eh, lugares onde as pessoas em situação de rua encontrem eh água. Mesmo que os espaços de convivência tenham fornecimento de água, eles têm um horário específico. O calor não é só até às 4 da tarde, o calor vai bem mais paraa frente e à noite, a gente pode chegar ter na noite 30º à noite.

Então, eh, à noite tudo é fechado e eles não têm acesso à água. Então, não há nenhum protocolo que diga, vamos implantar eh pontos de hidratação, vamos implantar eh socorro imediato eh para essas pessoas, proteção, porque há idosos, há pessoas com patologias de base, eh, como problemas cardíacos, como tuberculose, como eh questões respiratórias que E no calor também tem uma grande incidência, porque a essa alta temperatura leva leva também a a a umidade muito baixa do ar. Então, eh é prevalente nas pessoas em situação de rua a tuberculose, por exemplo, que leva muitos problemas respiratórios. Então, todos somos brasileiros, eles também são e estão no território nacional, estão nos municípios e os municípios têm que dar uma palavra. É importante que no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Porto Alegre e em Salvador, em Fortaleza, em Recife, as prefeituras digam: "O protocolo paraa população de rua é este: pontos de hidratação, pontos de socorro e imediato, como que os consultórios de rua, que também são profissionais que trabalham nas vias públicas, como é que eles eh terão eh possibilidade de socorro imed imediato e de hidratação.

Nós vamos precisar ter pontos de hidratação. Então são questões muito específicas, questões que a enfermagem, a medicina sabem, é preciso ter eh hidratante e que eles sejam hidratados, eh que tenham acesso à água potável, que tenham possibilidades de higienização. E muitas vezes, André, nós esquecemos que a água é um alimento. A água é alimento, é uma forma de matar a fome e matar a sede. Então, nas altíssimas temperaturas, eh, chegam determinados horários que não há acesso em nenhum lugar à água potável.

Nós vamos ter problemas no fornecimento de água. Então, como nós vamos garantir que as pessoas em situação de rua tenham acesso? No nosso projeto, nós vamos distribuir garrafinhas eh com água, mas é preciso ter o espaço, lugar, torneiras, os pontos de água onde eles possam encher as garrafinhas e que seja água potável, mesmo para poder refrescar a nuca, termos lugares que tenham compressas, que tenham hidratação. Então são várias questões que nós não vemos. O poder público é muito tímido nisso.

Nós estamos agora vivendo essa semana de muito frio na cidade de São Paulo. o abrigo emergencial que abria aqui na Moca há 30 anos, esse ano está fechado, >> porque a presença da das pessoas em situação de rua no centro esportivo causa dano à consciência e e ao bem-estar do dos moradores que dormem em colchões com cobertores. Assim também, quem tem ar condicionado nas suas casas não quer que tenha pontos de água para a população em situação de rua. Então, eh, é uma falta de consciência ética, cívica, moral e de humanização. O erninho vai colocar em cheque a nossa capacidade humana de socorrer os mais vulneráveis, de socorrer aqueles que não têm acesso a elementos básicos, que são direitos humanos fundamentais, direito à água, direito a proteger a sua vida, direito a ter uma alimentação adequada, direito a ter higienização.

Então, essas questões são prementes, são gritantes e nós estamos já hoje no dia eh já quase no meio do mês de julho, sem termos anunciado uma providência. Eh, quantos pontos de água a cidade de São Paulo vai ter? Claro que o ponto de água não é só pro morador de rua, é paraa população que anda pelas ruas da cidade, mas especificamente pra população de rua, nós não sabemos quantos pontos de água nós vamos ter. O negacionismo que vivemos na na pandemia, o negacionismo que vivemos em outros aspectos, estamos vivendo o esse negacionismo também no Elinho, querendo relativizar. Aí fica dizendo 80%, 81%.

Eh, a questão é o fenômeno está posto, os cientistas alertam, as os climatologistas alertam, nós precisamos ter uma resposta palpável, clara, uma eh resposta acessível. Não basta dizer: "Ah, a rede já existe, o as UBS vão estar atendendo." As UBS vão ficar super lotadas. Os hospitais infantis vão ficar superlotados, os hospitais que atendem idosos vão ficar superlotados. Como é que essas pessoas vão ter um tratamento preventivo? Então, André, eu te procurei porque sei do teu interesse, da tua preocupação, da força da tua voz e queremos unir isso.

Nós precisamos emergencialmente termos eh coisas básicas, o acesso à água potável, o acesso à hidratação, o acesso muitas vezes essas pessoas vão precisar de um alimento, de uma alimentação líquida, eh, rápida. vão precisar de compressas, vão precisar de proteção ao sol, vão precisar de ambientes climatizados, mas existe uma coisa fundamental, água. Padre, eu vou pedir então pro senhor repetir por gentileza as coordenadas para quem queira ajudar a pastoral do povo da rua nessa empreitada gigantesca do que vem pela frente. Eh, e quero aqui dar um testemunho. Existe um projeto chamado Gastromotiva na Lapa, que oferece refeições à população em situação de rua.

Já estive lá algumas vezes, fiz reportagem. E eles oferecem a voluntários a possibilidade de servir os nossos irmãos em situação de rua como garçons. E antes da refeição a gente dá água. O que me chamou muita atenção é como essas pessoas que eh fazem a fila e entram para comer, quando é a hora de beber água, todas, praticamente todas, não se contentam com um ou dois copos. Então, mesmo sem um dia quente, mesmo sem onda de calor, mesmo sem super ninho, já há uma situação de se não desidratação, uma imensa sede para quem tá na rua.

Agravada a situação climática, essa sede, obviamente, como o padre Júlio tá lembrando aqui enfaticamente, padre Júlio há décadas se depara com essa realidade. E eu achei muito interessante o senhor falar da dimensão ética. O superinho colocará em prova, em cheque, a nossa capacidade de enxergar os mais vulneráveis. Tem uma lição aí, eu diria, apostólica, tem uma o Evangelho eh nos revirando ao avesso, dizendo assim: "Presta atenção nos irmãozinhos que estão por aí." Padre, o senhor já deixou claro aqui, olha o recado que eu tô entendendo. Nós, enquanto pessoa física, nos mobilizando e nos prontificando ajudar.

Nós, enquanto eleitores, pressionando e cidadãos as autoridades, principalmente dos municípios, a terem um protocolo diferenciado de assistência, pronto atendimento, socorro, hidratação das populações que estão em situação de rua. E eu queria que o senhor, por favor, desse as coordenadas de quem possa ajudar o senhor que à frente da pastoral do povo da rua, na cidade que tem, segundo o senhor disse, o maior contingente de pessoas nessas condições, aproximadamente 80.000. Como é que a gente ajuda a pastoral, padre, por favor? Então, eu vou dizer dos nossos endereços, mas eu só queria pegar uma coisa que você disse. Aqueles que negam o socorro às pessoas mais pobres e vulneráveis são os que estão envolvidos na crise climática que a fabricaram, que porque essa crise climática não é Deus que ficou de mau humor e mandou.

Essa crise climática, e você tem alertado bem sobre isso, ela está sendo fabricada. Nós estamos colhendo os frutos do que plantamos. Quem puder nos ajudar, primeiro eu diria todos podemos ajudar. Leve uma garrafinha de água no seu carro, leve uma garrafinha de água na bolsa. Quando você vê um catador, alguém puxando a carroça, pegando material reciclável, se aproxime.

Ofereça água para essas pessoas, mostre a tua preocupação. Isso todos podemos fazer. Quem puder nos ajudar com água, com garrafinhas, com bonés, com eh protetor solar, podem entregar na rua de Jalma Dutra, número três, no bairro da Luz, que é a casa de oração do povo da rua. Podem também entregar na paróquia São Miguel Arcanjo, que é na rua Sapucária 185 na Moca, ou no nosso centro comunitário Santa Dulce dos Pobres, que é também na rua Sapucaia, no número 36. E cada um na sua cidade procure aquelas pessoas, como foi lembrado no Rio de Janeiro, em tantos outros lugares, nós corremos o risco de eh descontinuidade no abastecimento de água, descontinuidade no abastecimento de energia.

Então, nós precisamos eh ter água, levar água para esses lugares, eh protetores solares, acho que até empresas que pudessem ajudar, porque será para nós um eh um limiar, um momento decisivo se somos humanos ou não. E o critério da nossa humanidade é proteger os desprotegidos. >> Muito bendito, padre. Adoro sempre ouvi-lo, é sempre nutrição espiritual na veia. O senhor nos autoriza aqui a compartilhar o Pix da paróquia para quem não mora em São Paulo, conheça essa realidade dura da população em situação de rua em São Paulo.

Pixá disponibilizando aqui para vocês que possam ajudar, padre. Eh, muita luz na caminhada e nessa trajetória que é tão inspiradora e nos mobiliza sempre na direção que o evangelho aponta, né? Tomar o próximo seja o próximo quem for. E o senhor, como sempre diz, reconhecendo Jesus na presença de quem o Senhor ajuda, os mais humildes, os mais necessitados. Isso é muito bonito, é muito inspirador.

Parabéns por tudo. Vamos em frente. Muito obrigado, padre. >> Deus abençoe. Estamos juntos.