O crime da Vale em Brumadinho completou um ano
O crime da Vale em Brumadinho completou um ano. 259 mortos, 11 desaparecidos, destruição do verde e contaminação das …
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E o que mais está, digamos, me tocando é a dor das pessoas. Essa dor é latente, ela grita. A UPA aqui de Brumadinho tem lá reforço de psicólogos, psiquiatras, mas muitas pessoas estão sofrendo em casa ou não querem voltar para casa para não lembrar de quem perderam. E isso vai requerer política pública, estratégia. Não basta botar, na minha opinião, mais gente na UPA, pronta para ajudar quem procura.
O Estado tem que ir até as pessoas. Elas precisam ser objeto de uma atenção maior. Muita dor que remete à depressão, a determinados níveis de angústia e ansiedade que podem se transformar em patologias de ordem mental. Isso é visível, sensorial. Isso deveria determinar uma pronta resposta das autoridades de saúde. Eu uso o espaço aqui dos amigos do Em Pauta para a gente sensibilizar as autoridades.
Não está fácil, não. André, surpreso com esta situação, com essa tragédia? Sim, porque eu não imaginava que uma empresa do porte da Vale, uma das mais prestigiadas do mundo, que, depois de três anos, se envolveu e é responsável — não foi acidente — pelo maior vazamento de rejeitos de minério, determinando a maior tragédia ambiental do gênero da história da mineração do planeta, permitisse, vamos dizer assim, por algum problema, alguma falha que será periciada, será objeto de investigação, que isso acontecesse de novo.
Perde o Brasil. A imagem do Brasil, enquanto país que deveria promover um ambiente de negócios com regulação forte neste e em outros setores, fica comprometida. Mas é um bom desafio, Heraldo e amigos, para o governo federal que está chegando e que, em vários discursos do presidente Bolsonaro, ficou claro que mineração é uma área estratégica para o país.
Concomitantemente, esse discurso está combinado com o enfraquecimento da legislação ambiental, da fiscalização de uma forma geral. E não é possível imaginar que a mineração alcance um outro patamar no Brasil sem uma regulação mais forte, porque o cenário é preocupante. Apenas em Minas Gerais, 450 reservatórios de rejeitos, boa parte deles, são bombas-relógio.
O assunto é difícil de resumir, mas eu diria que a gente não deve cometer a imprudência de chamar de acidente. Foi crime. Existe uma relação promíscua de certos setores que representam o povo, setor público, com certos empresários inescrupulosos ligados à mineração.
Como explicar, Fátima, depois de Mariana, que a gente tenha travado no Congresso pelo menos seis projetos que determinavam maior rigor no licenciamento de barragens, fiscalização séria? Como explicar que a Vale tenha esperado acontecer o que a gente está vendo? É vexatório para o Brasil e para o setor da mineração do Brasil ir a Brumadinho para anunciar a erradicação, o banimento do uso de uma barragem, uma tecnologia que é muito barata, mas que tem um alto impacto se houver acidente. O Chile não usa mais essas barragens.
Explica para a gente esse alteamento a montante. Por que essa barragem é tão mais barata e que diferença haveria caso fosse uma barragem de um estilo diferente, por exemplo? A contenção desse rejeito de minério é feita com o próprio rejeito, e você precisa ter um monitoramento muito acurado, dia a dia, porque é instável. Ou seja, você tem muita água, que é o que transporta o rejeito para dentro do reservatório, e tem água de chuva.
Então, há uma inconstância. Você não pode hoje, fazendo um laudo, uma vistoria, dizer: “Está segura”, e um ano depois pensar em olhar de novo. É amanhã. Amanhã, as condições que determinaram você dizer que estava segura… A barragem muda. Eles compactam esse rejeito. Como é que é isso, André?
Ninguém tem informação segura sobre o que acontece nessas barragens de rejeitos espalhadas pelo Brasil. E outra: um númerozinho para a gente lembrar. Existem hoje aproximadamente 24 mil barragens espalhadas pelo Brasil, das quais apenas 46%, quase metade, não têm licença, autorização para existir.
Clandestinas, então? Clandestinas. Estão fora do radar da legalidade. Setecentas e noventa dessas barragens são de rejeitos e, hoje, 3,5 milhões de brasileiros vivem nas imediações de barragens de rejeitos sobre as quais há suspeição.
Esse tipo de procedimento, dificilmente… Eu não consigo imaginar que ele aconteça no andar de baixo sem a ciência do andar de cima. Quando você faz o inquérito, começa a perguntar: “É, mas essa decisão, essa mobilização que está ocorrendo aqui, você não deve nunca se reportar à sua chefia? Quem é a sua chefia?” Não, ele chega lá… “Você toma essa decisão sozinha, nunca conversa lá com o andar de cima?” Não sou eu quem diz. Não sou eu, em tese, que está assumindo uma responsabilidade. Homicídio com dolo eventual, o que seja. Sabe o tamanho da encrenca? Quer dizer, alguém é o cacique da tribo, mas não é um colegiado, assim. E aí, pessoal, temos dez dos 17 indiciados aqui, mas quem efetivamente tem a responsabilidade de dizer: “Vai ser desse jeito porque é assim que funciona?”
A gente está falando de um setor da economia que é o terceiro mais importante do Brasil, responde por 5% do PIB, que, no ano passado, exportou US$ 20 bilhões em minério. Então, estamos falando de um grande poder econômico que, ao que parece, no intuito de maximizar o lucro, reduziu investimento em área de segurança. Não há outra explicação para termos tantas bombas-relógio no Brasil.
Essa desinformação absurda sobre o nível de segurança… Elas são seguras mesmo? Dá para confiar? Como é que a gente, no século XXI, país minerador que tem uma engenharia de ponta, tem a maioria absoluta dos funcionários da Vale, operacionais, em nível de excelência — são excelentes profissionais, a mineração do Brasil já foi, por muito tempo, reconhecida como top —, mas esse top, esse nível de excelência na prospecção de minério, tem que ser equivalente ao nível de excelência em segurança. E isso nós não temos.
