Meio ambiente é a espinha dorsal

 

Por Luciano Lopes
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Se tentarmos identificar quem são os jornalistas mais espiritualizados da mídia brasileira hoje, vamos constatar que o número é bem reduzido. Isso porque, atualmente, essa é uma das principais características dos profissionais que tratam de questões mais urgentes, como o meio ambiente. Eles são os que mais dispõem de valores éticos, humanos e fraternos, tendo em vista a universalidade e aplicabilidade do assunto em nosso cotidiano, algo completamente inverso à acidez dos temas pesados e tão comuns em nossos veículos de comunicação.

O jornalista carioca André Trigueiro é assim. Também ambientalista ferrenho, há duas décadas vem se dedicando a estudar os assuntos da sustentabilidade e dar visibilidade ao que considera notícia nesta área. Pós-graduado em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, professor do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, escritor, apresentador e repórter da Globo News, onde é âncora do Jornal das Dez e editor-chefe do programa “Cidades e Soluções”, Trigueiro construiu uma carreira sólida na área, grande parte apoiada por sua espiritualidade.

Cresceu em um universo católico, mas foi no Espiritismo que encontrou respostas para suas questões existenciais. E absorveu muito da obra sempre atual de Allan Kardec, o codificador da doutrina, cuja obra já antevia no século XIX questões importantes para os dias de hoje, em que experimentamos uma crise ambiental sem precedentes na História da Humanidade.

Com o objetivo de posicionar os espíritas e simpatizantes do movimento quanto à sua contribuição para a construção de um mundo sustentável , ele lançou, no último dia 12 de setembro, na Bienal do Livro do Rio, a obra “Espiritismo e Ecologia”, que instiga o leitor a perceber que muitas das crises atuais vêm de uma falta de comprometimento interior com a manutenção da vida. E que a ética, o amor e o cuidado com o planeta também são peças-chave para alimentar nossa alma.

É o que você confere, a seguir, nesta entrevista exclusiva que o jornalista cedeu à JB Ecológico.


Como você se tornou espírita?

Sou filho de pai católico e mãe espírita. Na minha meninice, permaneceu o catolicismo: estudei em escola católica, fui batizado, fiz Primeira Comunhão e Crisma. Em 1987, tive uma curiosidade irrefreável de investigar os livros de cabeceira de minha mãe, onde estavam as obras espíritas. Então iniciei uma aproximação que não teve mais freios nem pudores. Já na juventude, fazendo questionamentos enormes de ordem existencial e procurando respostas que não encontrei em outras religiões, me senti muito bem amparado pela doutrina espírita. Foi um processo natural.

 

Que mensagens podemos encontrar em seu novo livro?

Ele nasceu de um convite do saudoso musicoterapeuta e médium Luiz Antônio Millecco, fundador da Sociedade Pró-Livro Espírita em Braile (SPLEB), cuja sede fica no Rio de Janeiro. Ele era deficiente visual e uma vez me convidou para fazer uma palestra sobre “Ecologia e Paz”, tema que o próprio Millecco sugeriu. Então me deparei com um problema, porque, enquanto espírita, já tinha assistido a várias exposições e palestras sobre paz, mas nenhuma que a relacionasse especificamente ao meio ambiente. Assim surgiu a curiosidade de investigar o que estaria por detrás disso. Mas o livro fala de minhas impressões a respeito das possíveis razões que tornam a questão ainda periférica para boa parte do movimento espírita. Falo também sobre ciência ecológica e procuro relacionar essas coincidências com o assunto, que já vinha sendo discutido no século XIX, sob os olhares de Kardec e do naturalista alemão Ernst Haeckel,o Pai da Ecologia, dois homens de ciência. Acredito que outra finalidade do livro é mostrar o que os espíritas podem fazer dentro do movimento ambiental. E a obra não é direcionada apenas a eles, mas também à parcela da população que é simpatizante à doutrina ou aos assuntos ecológicos.


Alguma outra abordagem?

A forma sinérgica com que ecologistas e espíritas tratam as questões ambientais, já que ambas são complementares. No caso da poluição, por exemplo, o ecologista vai estudar o impacto dos resíduos no meio ambiente. Já o espírita percebe que existe uma poluição no campo sutil ou no plano astral, que chamamos de psicosfera – campo eletromagnético que envolve o ser humano e mostra não só sua realidade evolutiva, mas também a emocional e física. Também reproduzo alguns relatos pormenorizados da literatura espírita para ilustrar essa comparação, como as retiradas do livro “Após a Tempestade”, de Joana Di Angelis, psicografada pelo médium Divaldo Pereira Franco, em 1974, que traz um capítulo específico sobre poluição e psicosfera. Ela diz que a capacidade que nós temos de poluir o meio natural que nos cerca tem origem no desequilíbrio psíquico, uma desarmonia exterior que nasce de outra íntima. Isso pra mim, enquanto jornalista de sustentabilidade, que trata do assunto há mais de 18 anos, é de uma riqueza importantíssima.

 

Você diz isso em relação à vida espiritual?

Também. Enquanto vivendo neste planeta, existe algo que deve justificar a nossa atenção. É uma questão teológica. Acredito que Deus nos delega responsabilidades para com a tutela, a custódia do planeta, dos recursos naturais fundamentais à vida. Devemos contribuir para não esvaziarmos as perspectivas das próximas gerações de viver com dignidade, usufruindo do estoque necessário, e sem excessos, dos recursos naturais. Também há a questão da  da reencarnação, porque podemos estar depredando algo que colheremos, no futuro, como fruto de uma semeadura infeliz.

 

Como o espiritismo pode contribuir para a preservação ambiental?

Procuro demonstrar como os movimentos ecológicos e espíritas são convergentes na defesa de uma nova ética, mais solidária, que promove valores de bem comum, da coletividade. É interessante observar como está presente nesses movimentos uma predisposição a repensar modelos, já que ambos não estão conformados com o mundo do jeito que ele está. A doutrina espírita, embora tenha nascido na França, é mais forte no Brasil. Somos a maior nação espírita do planeta. E, curiosamente, a maior potência megabiodiversa também.

 

Há alguma análise sobre os centros espíritas no livro?

Sim. Há um capítulo em que trato esses centros como espaços de acolhimento, fraternidade e boas práticas, e de onde se pode irradiar ideias e atitudes sustentáveis, como construção ecológica, biodigestores, telhado verde, reuso de água, etc. O espiritismo tem avançado muito e será tão importante e referencial no futuro quanto a capacidade de contextualizarmos a própria doutrina.

 

O espiritismo e a ecologia foram temas que demoraram a ser incorporados pela sociedade. Isso trouxe alguma dificuldade editorial?

A Federação Espírita Brasileira (FEB) tem uma editora centenária e a rotina de submeter seus projetos ao crivo de um conselho. Houve uma apreciação deste livro por parte de várias pessoas, que funcionam como um filtro. Não havia percebido na literatura espírita uma arrumação de ideias nestes termos sobre espiritismo e ecologia, que é o que tento trazer nesta obra. Sinto-me honrado pela FEB publicá-la, uma vez que é uma editora referencial para o movimento. Este livro também é o primeiro da Federação a ser impresso em papel reciclado, já que ela está em processo de certificação ambiental e tem procurado contribuir com a preservação da natureza.

 

O tema meio ambiente é muito recorrente nas obras de Allan Kardec. Acredita que ele estava preparando o homem espiritualmente para um possível futuro de degradação moral e ambiental?

Há um componente ético muito explícito no uso dos recursos naturais, da forma como nos apropriamos dos bens da Terra. Quando procuramos entender a figura de Kardec no século XIX, e como ele construiu as perguntas endereçadas à espiritualidade, a preocupação ecológica praticamente não existia. A resposta dada por ele no que diz respeito à Lei de Conservação (“A Terra só produziria o necessário se com o necessário o homem soubesse contemplar-se”) enseja duas possibilidades: primeiro, que ele esteja expondo um pensamento dominante à época. A outra é que ele estivesse, sim, manifestando sua opinião. Mas o fato é que a resposta da espiritualidade, nessa e em outras passagens de sua obra, deixa claro a necessidade de uma nova ética que preconiza maior atenção e sensibilidade com a maneira que tratamos os recursos de nosso planeta.

 

Mas essa não é uma percepção visionária impressa na obra dele?

Faço algumas considerações sobre a época em que Kardec codificou a doutrina. No século XIX as principais cidades da Europa enfrentavam sérios problemas ambientais, como desordem urbana, falta de saneamento, acúmulo de lixo, etc. Paris, por exemplo, era uma metrópole onde já havia o fenômeno da conurbação (cidades onde a aglomeração de construções gera desconforto ambiental). Foi preciso promover uma enorme reforma estrutural para evitar essa aglomeração. Londres era uma cidade fétida, que não tinha saneamento, o . Sofreu com os efeitos da expansão urbana caótica. No século XIX, já havia uma percepção dos efeitos colaterais do modelo de desenvolvimento, que era insustentável. Esse era o ambiente que rodeava Kardec. Por isso, é importante que esse contexto seja reavivado e discutido no século XXI. O Livro dos Espíritos traz informações preciosas sobre a ética do cuidado, que tanto devemos ter com o planeta que nos acolhe. Temos que ter noção do que convém e o que corrompe. O que não é necessário gera desequilíbrio.

 

Em uma recente entrevista, você afirmou que “para os espíritas, é fundamental que o alerta ao consumismo seja entendido como uma dupla proteção”. O que você quis dizer?

Quando se estuda este fenômeno, que remete ao excesso, ao desperdício e ao uso perdulário dos recursos, e sendo consumistas inveterados, corremos dois riscos: o de ordem ambiental, já que o que nós consumimos está expresso no binômio matéria-prima e energia. Se o planeta é um só e os recursos são finitos, e levarmos em conta a nossa diversão ilimitada nos ideais prevalentes da sociedade do consumo, estou agravando a pegada ecológica. Apodero-me de recursos naturais que não são necessários para mim, mas parecem estar sob minha custódia. Aí está o problema: o mundo é desigual e o cobertor é curto. Se me cubro de muito mais do que preciso, passo a contribuir para o agravamento do desequilíbrio social e ecológico. E isto é mensurável, está em inúmeros relatórios de organismos multilaterais, como o PNUD, o World Watch Institute. A escassez é o excesso que nos permitimos gerar.

 

E o outro risco?

É de ordem moral. Ao longo de nossa encarnação terrena, por meio do livre-arbítrio, temos que realizar escolhas ao usar os recursos naturais. E não é possível ostentar a abundância onde haja escassez. É uma premissa ética da sociedade. Não há paz na sociedade de consumo porque ela não se preocupa com isso. Estamos visceralmente atraídos por novos sonhos e desejos efêmeros que nunca se saciam completamente. Se não resolvermos isso, aliado aos problemas da miséria e da pobreza, estaremos caindo em uma armadilha insustentável.

 

Setembro é o mês da Árvore. Temos algo para comemorar?

Não acredito que esta data tenha sido criada para festejar nada, como o Dia do Meio Ambiente, do Negro, etc. Essas datas apenas procuram estimular uma consciência a respeito de uma questão. Então, se existe um Dia da Árvore, é porque precisamos lembrar que ela tem uma função importantíssima para o planeta e nosso bem-estar. Há sim uma oportunidade de acessar estatísticas assustadoras sobre a degradação do verde no Brasil e no mundo e depois encontrar uma maneira saudável de revertermos essa curva. Afinal, não há forma mais equivocada do que destruir florestas para plantar capim e criar gado. No caso do Brasil, a data também serve para nos lembrar que ainda temos a maior floresta tropical do mundo e que, embora haja um avanço quando o governo federal determina metas de redução do desmatamento da ordem de 70%, até 2017, a melhor solução ainda é deixar as nossas matas intocadas.

 

E quanto à gestão do ministro Carlos Minc?

Não me parece que a chegada dele ao ministério tenha resolvido o velho problema da pasta: ela continua parecendo uma ONG na Esplanada dos Ministérios. Minc tem um estilo diferente de Marina Silva, pensa gestão ambiental de outra forma, mas efetivamente continua falando algo que soa estranho, como alguns de seus antecessores.

 

O que você pensa sobre a filiação de Marina Silva ao PV e toda essa midiatização de sua possível candidatura à Presidência?

A simples possibilidade de ela ser candidata já promoveu, automaticamente, um ajuste programático dos outros candidatos. Marina traz a demanda de sofisticação do discurso e faz com que eles passem a assumir novos compromissos na direção ambiental. Isso é um fato reconhecido pelo próprio Minc, que não é do PV. Uma outra questão importante é o fato dessa possibilidade de candidatura trazer para o debate eleitoral uma discussão de alto nível sobre os rumos da economia. Erroneamente, o que vemos em campanhas eleitorais é o discurso econômico descartar a sustentabilidade, como se ela fosse uma ameaça. A expectativa que tenho, se essa candidatura vingar, é que teremos no Brasil um debate de primeiro mundo: economia e meio ambiente caminhando juntos. A Dilma e o Serra têm uma visão muito desenvolvimentista, que precisa ser questionada de maneira mais pragmática. O mundo mudou e não é possível pensar um projeto de país em que a sustentabilidade não esteja colocada no eixo principal de um programa de governo. Meio ambiente não é um aspecto, é a espinha dorsal de tudo.