A emergência da atitude num planeta em crise

DIÁLOGOS | Sustentabilidade
Sinopse da palestra de André Trigueiro em módulo sobre sustentabilidade realizado no dia 5/6/2007, Dia Mundial do Meio Ambiente, no Espaço Cultural CPFL, em Campinas (SP).

O QUE FAZER?

Durante o mês de junho, às terças-feiras (19h), a série Diálogos sobre Sustentabilidade tem curadoria do jornalista André Trigueiro. O título escolhido para o módulo, Há alguma coisa que eu possa fazer?, dá o tom da proposta. Diante do quadro de ruptura de equilíbrio – ambiental e social – em que o globo se encontra, começamos a adquirir consciência de que é uma espécie cuja existência provoca grande impacto no planeta. Junto a isso, dados científicos sugerem que, para fazer algum efeito, as ações necessárias são urgentes, sob o risco de não serem eficazes.

Diante de tudo isso, Trigueiro tem como uma de suas bandeiras a certeza de que a resposta individual a esse quadro é possível e necessária – mais que isso, é condição sem a qual não se alcançará a mudança urgente. No dia 5 de junho, abrindo o módulo com a palestra A emergência da atitude em um planeta em crise, o jornalista apresentou sua avaliação e suas idéias sobre o papel de cada um de nós na grande transformação que precisa acontecer em favor da vida.

André Trigueiro é jornalista, com pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ. Desde 1996, atua como repórter e apresentador do Jornal das Dez da Globo News – canal de TV a cabo. Em outubro de 2006, estreou, no mesmo canal, o programa Cidades e Soluções (agora também no canal Futura), que tem como objetivo divulgar ações bem sucedidas e sustentáveis que já tenham transformado para melhor a vida de diferentes comunidades no Brasil e no mundo. Também com preocupação semelhante, apresenta, na rádio CBN, o programa Mundo Sustentável.

“Em nenhum outro momento da história a humanidade foi instigada a fazer tantas escolhas em um intervalo de tempo tão curto e determinante para a nossa sobrevivência nesse planeta”, afirmou. Recheada de frases de impacto, a palestra de Trigueiro empolgou o público e convocou cada cidadão individualmente a arregaçar as mangas.

A seguir, um resumo das principais idéias apresentadas pelo jornalista no encontro.
RISCO

Alguns cientistas já usam a expressão “ponto de não-retorno”: um momento em que estariam esgotadas as possibilidades de mudar um cenário de ruptura, de esgotamento dos sistemas naturais que provêm a humanidade dos recursos fundamentais da vida. Alguns chegam a fazer previsões, que convergem para o ano de 2050. Não importa mais o quanto se queira investir para mudar o que precisa ser mudado, ou o quanto de tecnologia se queira projetar para reverter esse cenário: colapsou. Não é o planeta que está em crise, em risco, somos nós enquanto espécie, porque nós dependemos do planeta para seguir viagem.
SUSTENTABILIDADE

André Trigueiro cita o livro Colapso (Ed. Record, 2005), em que o autor norte-americano Jared Diamond – prêmio Pulitzer de literatura – sugere, baseado em dados da paleontologia, que várias civilizações do passado desapareceram do mapa por deixarem de ser sustentáveis e por entrar em desequilíbrio ambiental. No livro, uma foto atual de uma ilha do Caribe que comporta dois países: República Dominicana e Haiti. A fronteira é demarcada por uma reta que separa dois terrenos, um com e um sem cobertura vegetal. A República Dominicana, com floresta, tem ecoturismo, tem água, é um país bem diferente do vizinho, onde não há mais floresta, os rios que eram perenes não são, há superpopulação e há exaustão absoluta dos recursos naturais. Sinais absurdamente diferentes, demarcados por uma fronteira num pedaço pequenininho de terra do Caribe, com duas realidades em que as advertências feitas por Jared Diamond ganham sentido. Nós podemos olhar para trás, mapear impactos anteriores e aprender com eles.
MÍDIA

A mídia pode fazer o registro do que não está dando certo, do que está errado, do que precisa ser corrigido, e sinalizar rumos e perspectivas. Como instrumento de comunicação, tem o poder de envolver o planeta como aldeia global, reverberando o senso de urgência.
Jornalistas têm uma certa dificuldade de abrir espaço para dar boas notícias, afirma ele. Não se economiza espaço para falar de Katrina, enchentes, queimadas, Chernobyl, tsunami. Não se questiona que tenham espaço, são assuntos importantes. O problema é quando não se consegue equilibrar os conteúdos de forma a também abrir espaço também para informações construtivas. O que funciona? O que pode ser divulgado como modelo? O que é inspirador? O que pode fomentar novas atitudes e visões de mundo? Para ele, essa seria a função social da mídia.

Alarmismo X sensacionalismo
A situação, no entanto, é realmente dramática. Não há sensacionalismo na mídia quando se informa sobre esse risco de um colapso. Há uma diferença entre alarmismo e sensacionalismo. É possível ser alarmista sem ser sensacionalista. O alarmismo tem lugar quando a notícia por si, o gênero da informação implica responsabilidade ética de passar adiante o sentido de urgência. O sensacionalismo, por sua vez, é um mau jornalismo, no qual faltam honestidade e caráter.
SUSTENTABILIDADE x CONSUMISMO

A mídia é um poder para o bem a para o mal, visto que influencia hábitos, comportamentos, estilos de vida e, entre outras questões importantes, desejo de consumo.

As diferentes leituras possíveis
Há algumas notícias atualmente que são dadas com grande empolgação pelos economistas, mas que, se experimentarmos analisá-las por novos ângulos, talvez nos tragam novos dados a respeito do quanto temos ou não conseguido ser uma civilização sustentável.
“Nunca se vendeu tanto carro no Brasil como no mês de maio”, ou “O Brasil já tem mais de 100 milhões de aparelhos celulares”. Festa para os economistas, sinalizando crescimento econômico e prestígio do país, esses dados podem também ser indicadores de outras questões que nos trazem bem menos o que festejar: atestado de ineficiência do transporte público; aumento dos engarrafamentos e da poluição; alta rotatividade de aparelhos celulares, que são descartados ainda novos, e cujas baterias serão misturadas ao lixo doméstico, acumulando nos aterros cádmio, zinco, chumbo, entre outros metais pesados que não deveriam estar lá.

Saia justa midiática
Não é possível falar de mudança sem falar de sociedade de consumo. Não há paz na sociedade de consumo. A paz virou um discurso vazio em que o consumismo não é questionado. Essa questão não é discutida na escola, na universidade e tampouco na mídia. Na mídia, diz ele, a razão é clara: quem paga o salário dos jornalistas é a publicidade.
CONSUMO x CONSUMISMO

Questões éticas
O consumo favorece a vida. É preciso consumir roupa, alimento, móveis, eletrodomésticos. É preciso ter conforto, temos esse direito – não é preciso ter uma vida monástica quando se opta por consumir o necessário. O consumismo é diferente: degrada a vida, remete ao excesso, ao uso perdulário, compulsivo dos recursos.

Sociedade de consumo
Qual é a lógica da sociedade de consumo? “Ele que vá trabalhar! Ele que se esforce para ter o que eu tenho! Ninguém tem nada a ver com o meu poder aquisitivo, eu cheguei aqui porque eu mereço.” Deve-se ter um pouco mais de cuidado, ética. Leonardo Boff descreve os dias de hoje da seguinte maneira: a marca registrada dos tempos atuais é a falta de cuidado – para consigo, com os outros, com o meio ambiente. Ostentar, ter muito mais do que se precisa, quando proximamente há escassez, é sinal de que há algo errado. Não é uma questão só de governo, sistema, é uma questão que nos alcança individualmente.

Matéria-prima
Tudo o que usamos demandou, para ser produzido, matéria-prima e energia. Se necessitamos, não há problema. Se não necessitamos e ainda assim acumulamos, estamos estocando matéria-prima e energia – num planeta onde nem todos os recursos são renováveis.
Conforme dados da WWF, vivemos num planeta que não consegue suprir a demanda de matéria-prima e energia em 25%. Dados do Banco Mundial dão conta de que temos hoje no mundo mais de um bilhão de pessoas que sobrevivem com menos de 1 dólar por dia e mais de 3 bilhões de pessoas vivem ou sobrevivem com menos de 2 dólares por dia. A maior parte da humanidade, que é a soma dos miseráveis e pobres, está excluída da sociedade de consumo, e quase sempre não consomem nem o necessário.
Por que falta matéria-prima e energia? Porque existe uma casta de privilegiados (20% da população) fortemente concentrada no Hemisfério Norte e em ilhas de prosperidade – como em muitos lugares do Brasil – e que consome muito mais que o necessário. Segundo dados do PNUD, esses 20% consomem 80% dos recursos.

Como fica a inclusão social?
Trigueiro observa que as parcelas da população que começam a ser ‘incluídas’ no mercado, passando a ter mais verba para compras, vêm com sede de consumo do não necessário. Não é o valor intrínseco ao produto, é o status e o prestígio que ele dá. Nesse quesito o automóvel é insuperável. “A equação não fecha, os dados do colapso estão aí.”

Publicidade X sustentabilidade
Não é possível suprir o desejo de consumo fomentado pela publicidade, que tem a função de criar desejo pelo não necessário. O bom publicitário manipula sons, imagens, arquétipos (registros mentais guardados no inconsciente, repletos de significado e sentido) para atingir o público-alvo que lhe interessa. Nem é mais necessário mostrar o produto na propaganda, pois o que define a compra não é a mais a razão, é a emoção.

Na televisão
Quando se repensam modelos, se repensa consumismo, é necessário encarar o problema que está colocado nas mensagens publicitárias. Noventa por cento dos brasileiros têm na TV a principal fonte de informação (pesquisa Ibope) e assistem a comerciais que passam mensagens como “Ou você tem, ou você não tem”, “Se você tiver tal coisa, o mundo é seu”, que afirmam a exclusão. Quem não tem poder aquisitivo se sente excluído e sabe que aquele mundo não é dele. Mas o feitiço – o desejo do consumo – não é preconceituoso, ele alcança a todos. Quando se vêem as notícias de recorde de inadimplência no Brasil…

A economia sobreviveria sem o consumismo?
Pode-se argumentar que a lógica do capitalismo seria quebrada e se geraria desemprego, perda de renda, perda do PIB, que o Brasil não seguraria, que o mundo não consegue viver sem consumir. Essa crítica é pertinente sob o olhar fragmentado, linear, cartesiano que ficou para trás – que se aplica a certas leis, a certos fenômenos que se podem observar, mas não a todos. Na época da abolição da escravatura, por exemplo, havia o discurso: “Se abolir a escravidão, a economia do Brasil quebra.” Era o velho paradigma.

O novo paradigma
Se o discurso da inclusão social for pra valer, teremos uma brutal demanda por produtos e serviços. A economia vai ter que responder à inclusão social. Ampliar o consumo para essa população de baixa renda é uma revolução no mercado. Precisaremos aprender a viver bem com menos – na contramão da lógica perversa da publicidade que diz: “Não importa o quanto você tenha, você nunca estará saciado, nunca estará feliz, não há paz”.
DEBATE COM O PÚBLICO

Quem são os atores da questão do consumo sustentável? As ações individuais têm impacto?
Dados do Instituto Akatu mostram a importância do consumo consciente individual. Se cada cidadão de São Paulo realizar o simples gesto de fechar a torneira na hora de escovar os dentes, se quase 20 milhões de pessoas que vivem na área metropolitana de SP realizarem esse gesto, a economia de água, em escala, é proporcional a nove minutos de Cataratas do Iguaçu. A modernidade nos tornou egoístas, perdemos o espírito de comunidade.

Como ajudar a Amazônia como consumidor?
Pelo consumo consciente. Por exemplo, não comer carne de gado criado na Amazônia. Para entender o impacto que essa opção pode provocar, seguem os dados do IBGE com relação à Amazônia: da floresta original já sumiram aproximadamente 16% de mata. Desses, 80% para a pecuária, para pasto. Esses terrenos para pasto são usados apenas até que o solo deixe de ser fértil para o capim, indo-se então para outra região que se desmatará com esse propósito. No Norte, temos 23 milhões de brasileiros e 60 milhões de cabeças de gado: “A nossa carne pode ter cheiro de floresta queimada”. O que fazer? Exigir certificação – selo com a origem/procedência do produto. Compre carne, mas exija saber a procedência. A certificação da proveniência do produto faz com que o consumidor possa escolher de maneira consciente – com liberdade, mas sabendo o que está escolhendo. A mesma coisa acontece com a madeira. A maior parte da madeira que é derrubada na Amazônia é consumida na cidade de São Paulo.

O que fazer para reduzir o consumo de veículos?
Hoje não há transporte público suficiente. Isso não nos exime da responsabilidade de tomar decisões. Nova York recentemente lançou uma medida extremamente impopular: pedágio urbano – quem quiser entrar na cidade vai ter que pagar. Tal como já ocorre desde 2003 em Londres, em três cidades da Noruega, em Cingapura. Não resolve o problema, mas ajuda. A renda do pedágio é para investir no transporte público. No Brasil, a questão do transporte público esbarra em interesses muito fortes. Fábio Feldman determinou o rodízio de automóveis e não se elegeu nunca mais nem para síndico. Entretanto não houve um político em São Paulo que ousasse retirar o rodízio.

Qual o papel do poder público? Existem as leis ambientais, mas não há vontade política e assertividade na ação, no emprego da lei.
Temos que incomodar, não tem jeito. Boa parte dos problemas ambientais crônicos hoje advém da má gestão política. Cargos públicos relacionados a meio ambiente não devem ser de cota política, mas de cota pessoal: tem que ser alguém com competência, com biografia, com formação, com experiência.
Alguém que possa enfrentar um lobby de empreiteiras, por exemplo.
NEUTRO EM CARBONO

Trigueiro põe em prática o que prega: seus dois programas, Cidades e Soluções (Globo News e Futura) e Mundo Sustentável (CBN) são neutros em carbono: toda emissão de gases provocada pelas diversas etapas da produção e da transmissão dos programas é compensada por plantio de árvores. Ambos têm certificação da ONG Iniciativa Verde. As emissões são calculadas considerando-se o deslocamento das equipes, o consumo de energia elétrica para a produção e transmissão e a energia consumida pelos telespectadores.

“Eu sou otimista. Estamos vivendo um processo, não se muda a cultura por decreto.”