Meio ambiente para todos

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI” (Editora Sextante, 2003). Já recebeu o Prêmio Imprensa Embratel de Televisão; o Prêmio Ethos – Responsabilidade Social, na categoria Televisão; recebeu o título de “Hors Concours” no Segundo Prêmio CEBDS de Desenvolvimento Sustentável” e o Prêmio Nacional de Conservação e Uso Racional de Energia 2005, oferecido pela Eletrobrás e pela Petrobrás. É comentarista da Rádio CBN (860 Kwz), onde apresenta, aos sábados e domingos, o quadro “Mundo Sustentável”; e é consultor e articulista do site www.ecopop.com.br.

Portal Itaú Voluntário – Suas reportagens renderam vários prêmios. Por que trabalhar com jornalismo ambiental?

André Trigueiro – Não me considero propriamente um jornalista ambiental. Sou jornalista e procuro exercitar a visão sistêmica na minha profissão. Tento enxergar o universo tal como os físicos quânticos o descrevem, uma imensa rede de fenômenos interligados e interdependentes, que interagem o tempo inteiro. Estamos mergulhados na teia da vida e cada pequena ação, ou inação, repercute no todo. É muito interessante e desafiador transportar essa visão do universo para o jornalismo. Entendo que é possível aplicarmos a visão sistêmica no dia-a-dia de uma redação, sem prejuízo do lead, ou da notícia. A visão sistêmica enriquece as histórias contadas pelos jornalistas e revela uma abordagem menos linear e superficial do mundo.

Portal Itaú Voluntário – O jornalista deve, além de informar, denunciar?

André Trigueiro – Entendo que os jornalistas têm duas funções básicas: denunciar o que está errado e sinalizar rumo e perspectiva para a sociedade. A calibragem dessas duas vertentes varia de veículo para veículo. Na área ambiental, os assuntos sempre têm espaço garantido num cenário de tragédia: enchentes, terremotos, furacões, vazamentos de óleo, queimadas, etc. O desafio está em perceber como notícia aquilo que não é apenas problema, tragédia ou desgraça. Há inúmeras soluções interessantes, inteligentes, e até de baixo custo, que revelam o aparecimento de uma nova cultura, um novo jeito de explorar os recursos naturais, uma relação de parceria com o meio ambiente, que deverá assegurar a nossa sobrevivência nesse planeta. Simplesmente não temos opção: ou nos tornamos sustentáveis, ou desapareceremos como espécie.

Portal Itaú Voluntário – Como surgiu a idéia de publicar “Mundo Sustentável”?

André Trigueiro – “Mundo Sustentável” reúne algumas reportagens de rádio, televisão, jornal e internet feitas por mim nos últimos anos, sobre assuntos que me me interessam bastante como, por exemplo, consumo consciente, lixo, água, biodoversidade, energia, meio ambiente nas cidades e outras questões que afligem o Brasil e o mundo neste início de século XXI. O livro denuncia as mazelas do atual modelo de desenvolvimento “ecologicamente predatório, socialmente perverso e politicamente injusto” que exaure numa velocidade sem precedentes os recursos naturais não renováveis do planeta. Senti que deveria reunir este material num livro e convidei especialistas, com notório saber em cada uma das áreas pesquisadas, para tecer livremente comentários sobre o assunto. O timing da leitura é dinâmico, há muita informação relevante para a melhor compreensão do mundo que vivemos hoje. O livro pode ser comprado em livrarias ou no site www.mundosustentavel.com.br .

Portal Itaú Voluntário – O livro traz dados sobre consumo, produção e meio ambiente. Fale sobre esses dados.

André Trigueiro – Inúmeros relatórios produzidos pela ONU e por organizações não governamentais, universidades e institutos de pesquisa do Brasil e do exterior consideram os atuais meios de produção e de consumo os maiores vilões ambientais da atualidade. O efeito disso sobre o meio ambiente se assemelha a uma praga de gafanhotos destruindo uma plantação. Somos a a maior ameaça que esse planeta já acolheu, os maiores predadores da natureza e nossa capacidade de destruir os recursos fundamentais à vida nos ameaça enquanto espécie. Trata-se de um modelo suicida de civilização que precisa ser repensado em nosso próprio benefício. Segundo a organização WWF, já ultrapassamos em 20% a capacidade do planeta suprir a nossa demanda de matéria-prima e energia. O relatório “Estado do Mundo 2004″, publicado pelo Worldwatch Institute, uma das organizações de maior credibilidade na produção de diagnósticos científicos, resume da seguinte maneira as mazelas da atual sociedade de consumo:” Altos níveis de obesidade e dívidas pessoais, menos tempo livre e meio ambiente danificado são sinais de que o consumo excessivo está dominuindo a qualidade de vida de muitas pessoas”. Precisamos mudar o rumo dos acontecimentos agora para não nos arrependermos depois. A luz amarela já acendeu…

Portal Itaú Voluntário – Por que destinar todos os direitos autorais para o Centro de Valorização da Vida (CVV)?

André Trigueiro – Sou um profundo admirador do trabalho que o CVV vem realizando no Brasil desde 1962. É uma organização voluntária, sem vinculações políticas ou religiosas, que realiza um trabalho gratuito, 24 horas por dia, de apoio emocional e prevenção do suicídio. Em 2005, de janeiro a outubro, os 58 postos do CVV espalhados pelo Brasil receberam mais de 900 mil ligações. É um número impressionante e revelador. Segundo o Ministério da saúde, o suicídio é considerado caso de saúde publica, embora a mídia não dê a devida visibilidade à esse problema. O fato é que o CVV é mantido pelos próprios voluntários e precisa de ajuda. Fico feliz que o livro possa, de alguma maneira, ajudar essa importante instituição a continuar desenvolvendo esse belo trabalho que vem fazendo a diferença no dia-a-dia de milhares de brasileiros.

Portal Itaú Voluntário – Como contribuir para o desenvolvimento sustentável?

André Trigueiro – “Desenvolvimento sustentável” significa gerar emprego e renda, assegurando a rentabilidade do empreendimento, sem destruir o meio ambiente. O que eu acho mais apropriado para nós, cidadãos comuns, adotarmos como postura de vida, é sermos sustentáveis. Ser menos consumista, priorizar produtos e serviços comprometidos com o uso racional dos recursos naturais, reduzir o volume de lixo, separar os recicláveis, não desperdiçar água, economizar energia, privilegiar o transporte coletivo, agir em favor da coletividade, votar em candidatos que sejam comprometidos com a sustentabilidade, são algumas opções que considero importantes, inteligentes e urgentes. Em resumo: o que está em jogo é a qualidade de vida de quem habita um planeta onde os recursos são finitos e cada vez mais escassos. Ser sustentável é ser consciente.

Portal Itaú Voluntário – Fale sobre consumo consciente.

André Trigueiro – O consumo favorece a vida. O consumismo degrada a vida. Quando perdemos a noção do que é necessário e nos aventuramos na farra do consumo, exaurimos mais rapidamente os estoques de matéria-prima e energia que estão presentes nas roupas, sapatos, móveis, carros, eletrodomésticos, enfim, tudo o que é produzido pelo homem a partir dos recursos naturais. O consumista coleciona recursos que estão desaparecendo da natureza não por necessidade, mas por vaidade. O consumidor consciente não cede fácil aos apelos da publicidade, questiona se realmente precisa de tudo o que é anunciado como a nova maravilha do mundo e se livra das amarras do materialismo. É mais fácil ser feliz sem ser consumista. Quem se entrega aos apelos do consumo irracional e compulsivo nunca terá paz porque sempre será um alvo fácil da propaganda que estimula novos desejos. O consumo consciente sacia a alma, sossega o ego, nos ensina a ser felizes com simplicidade e saúde.

Portal Itaú Voluntário – Quem é responsável pela proteção do meio ambiente?

André Trigueiro – É responsabilidade de todos. Inclusive dos governos. Se delegarmos aos governos a missão de proteger o meio ambiente, estaremos automaticamente assinando nossa sentença de morte. Nenhum governo poderá reverter sozinho o atual cenário de destruição e degradação ambiental. Todos somos responsáveis. Cada um deve interferir fazendo o que nos cabe agora, no presente. Simples assim. Mas alguém já disse que as coisas mais simples são as mais difíceis de serem praticadas.

Portal Itaú Voluntário – Como o voluntário pode colaborar com a preservação do meio ambiente?

André Trigueiro – O meio ambiente começa no meio da gente. Não dá para separar a gente do meio que nos cerca. Somos seres feitos predominantemente de água e precisamos dela limpa para viver. Carregamos nas veias minérios que jazem nas profundezas do solo. Quando estamos com a saúde debilitada, precisamos reforçar nosso estoque de sais minerais. Podemos passar vários dias sem comer e aguns dias sem beber, mas apenas alguns poucos minutos sem respirar. O ar é o nosso principal nutriente, precisamos respirar todos os momentos e a qualidade do ar define a qualidade de nossa saúde. Somos feitos dos mesmos elementos que constituem esse planeta. Ter consciência disso determina a disposição de fazer as mesmas coisas de um jeito diferente. O teólogo e escritor Leonardo Boff advrete que a “falta de cuidado” é a marca registrada dos tempos atuais. Se todos tivermos mais cuidado com a vida na sua concepção mais ampla, estaremos transformando para melhor a realidade que nos cerca.

Portal Itaú Voluntário – A questão ambiental pode ser resolvida por meio de tecnologia?

André Trigueiro – Não necessariamente. A tecnologia é uma ferramenta importante – em alguns casos pode até ser determinante – para o sucesso de um projeto sustentável. Mas a verdadeira solução depende de um novo estilo de vida, hábitos menos consumistas, menos materialismo, menos ignorância sobre as leis que regem a vida e o universo que precipitam o nosso fracasso civilizatório. Mahatma Gandhi foi muito feliz quando afirmou que “a Terra tem o suficiente para satisfazer as necessidades de todos, mas não a ganância de todos os homens”.

Portal Itaú Voluntário – Qual a ligação entre a diminuição do volume de água, aquecimento global e desmatamento?

André Trigueiro – As florestas promovem a recarga dos aquíferos subterrâneos, o suprimento regular de água doce das fontes e dos rios. A perda progressiva de áreas verdes abala o equilíbrio dinâmico desse sistema. Além disso, derrubar floresta significa devolver carbono para a atmosfera e agravar o efeito estufa. Todo vegetal absorve carbono no processo de crescimento. No caso das árvores, esse carbono fica estocado nas raízes, tronco, galhos e folhas. Quando é queimada, cortada ou morre naturalmente, a árvore devolve esse carbono para a atmosfera. Em tempos de Tratado de Quioto, quando o mundo dá os primeiros passos para reduzir progressivamente as emissões de carbono na atmosfera, derrubar árvores não é inteligente.