Dia de eleição, Dia de São Francisco | Papo das 9 #1084
Que significa ir às urnas no dia de São Francisco de Assis, padroeiro da ecologia? No 1º turno das eleições de 2026, em 4 de outubro, André Trigueiro aproveita a coincidência do calendário para falar de voto consciente sem indicar candidato nem partido: princípios e valores que deveriam pesar na escolha de presidente, governador, senadores e deputados num país que ele descreve como a maior potência ambiental do planeta. Para ele, votar pensando no bem comum é também um exercício espiritual, e deixar ao acaso o voto para o Congresso é abrir mão de decidir.
André recapitula eventos climáticos extremos de 2026, da tragédia das chuvas em Juiz de Fora (MG) ao Super El Niño, e o alerta do PNUMA de que a meta de 1,5 °C do Acordo de Paris será ultrapassada. Atribuir tudo a Deus, diz ele, é fugir da responsabilidade humana. Ele liga o clima ao preço do azeite, dos ovos e do frango, mostra como a Amazônia chega à chuva e ao ar de quem vive longe dela e relata o que a série que fez no Pantanal para o Jornal Nacional encontrou: segundo cientistas do MapBiomas, o ponto de não retorno já é realidade em alguns lugares. Sobrevivência, insiste, não tem cor partidária. O convite é pesquisar as propostas para meio ambiente, educação e segurança pública, olhar para a presença do Estado onde faltam escola, creche e curso profissionalizante, e manter uma cidadania ativa e vigilante durante todo o mandato.
Na abertura, André explica que não fará indução de voto e que vai compartilhar princípios. Ele lê a crônica “Não voto por mim, mas por quem ainda precisa”, de Martha Medeiros, sobre votar com consciência dos próprios privilégios, e defende que inclusão social e combate à desigualdade e à fome expressam o amor ao próximo, e não um lado A ou B. Na leitura espírita, recorre à lei de igualdade, entre as leis morais de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec: a desigualdade das condições sociais é obra do homem, e não de Deus. Daí a ressalva de que a meritocracia pede o mesmo ponto de partida. No encerramento, São Francisco, que segundo André percebeu o sagrado na natureza, inspira o desejo final: que sejamos eleitores conscientes. Fiquem com Deus.
Capítulos do episódio
- 0:00 — Abertura: dia de eleição no dia de São Francisco de Assis
- 1:38 — Princípios e valores na hora do voto, sem indução
- 2:39 — Senado e deputados: o voto que a gente esquece
- 4:24 — Voto como exercício espiritual e dever com o coletivo
- 8:06 — Brasil megadiverso: o meio ambiente em cada mandato
- 9:32 — Que ano é este? Os eventos climáticos extremos de 2026
- 13:19 — Super El Niño, oceanos aquecidos e as enchentes no Sul
- 15:46 — Aquecimento global, energia limpa e o debate do carvão
- 17:26 — O alerta do PNUMA sobre a meta de 1,5 °C de Paris
- 18:23 — Deus não é desculpa: banalização e negacionismo
- 21:51 — Azeite, ovos e frango: o clima no preço da comida
- 23:42 — Amazônia: desmatamento, fumaça e chuva para todos
- 26:24 — Pantanal e Cerrado diante do ponto de não retorno
- 28:11 — Presta atenção no voto: cidadania ativa e vigilante
- 30:20 — Martha Medeiros: votar por quem ainda precisa
- 34:54 — Inclusão é amor ao próximo, não lado A ou B
- 36:45 — Lei de igualdade em O Livro dos Espíritos
- 38:22 — Meritocracia pede o mesmo ponto de partida
- 40:18 — Segurança pública, escola e presença do Estado
- 42:46 — Vigilância cidadã ao longo de todo o mandato
- 43:57 — São Francisco, o sagrado na natureza e a riqueza do Brasil
- 45:49 — Encerramento: que sejamos eleitores conscientes
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[suspirando] Bom dia, bom dia, bom dia a todos vocês. Onde vocês estiverem, com quem vocês estiverem, do jeito que vocês estiverem. Uma soleira agora abriu aqui. Eu vou cobrir a luz num dia luminoso que é um dia de São Francisco de Assis e quis o destino, que exatamente no 4 de outubro, dia de São Francisco de Assiso, padroeiro da ecologia, fôssemos todos nós pelo calendário eleitoral instigados a participar dos rumos do Brasil. Eu acho esse tema extremamente inspirador.
A gente vive dizendo aqui no papo das ve: "Preste atenção aos sinais. E os sinais estão aí, pelo menos para mim. Que que significa ir às urnas num dia de São Francisco de Assis? Para quem conhece a história do povoverelo de Assis, para quem conhece a realidade do Brasil, quando a gente faz o cruzamento do padroeiro da ecologia com a escolha dos dirigentes que vão nos governar nos próximos anos. Me permita, eu vou fazer aqui, vou aproveitar essa coincidência, acreditando que o acaso não existe, para fazer a minha reflexão.
Primeiro, o que deveria estar em jogo na hora do voto? Vamos colocar assim, há um conjunto de variáveis. que cada um de nós tem a própria sensibilidade, a própria percepção do que é prioritário, do que é urgente, do que precisa ser corrigido. E isso é de cada um. Eu não seria aqui desleal e antiético, fazendo qualquer indução para votarem A, B, C ou D, mas sem entrar no, digamos no território eh perigoso do proselitismo político partidário, obviamente eu vou sim compartilhar princípios e valores que, do meu ponto de vista precisam estar presentes.
na hora da gente decidir num país democrático quem haverá de nos governar. Isso é muito importante. Então, primeiro, é lamentável a gente chegar no dia da eleição com as pesquisas indicando que boa parte dos brasileiros não tem a menor noção em quem vai votar, por exemplo, para senadora. Em alguns lugares, 40% dos eleitores não têm ainda um nome para votar para senador. Não sabem que são duas vagas para o Senado, são du dois votos.
Deixam assim, é, o Deus dará, né? E o mesmo se dá em relação a deputado federal e deputado estadual. Aí depois a gente fica aqui, esse congresso é horroroso, é o pior congresso da história. Fizeram uma hashtag, né? Pior congresso da história.
Aí dá vontade de perguntar paraas pessoas: "Vem cá, você votou em quem?" A pessoa não se lembra. A pessoa não se lembra. Então, com todo respeito, a gente deveria ter mais atenção e ter a noção das consequências, que é ou não votar em ninguém por descrédito, por ressentimento, pela convicção que construiu de que ninguém presta, não vou votar em ninguém, não vou perder meu tempo, que eu particularmente discorso de virro com argumentos e fundamentos. sempre há alguém que presta ou que você praticará o voto útil na perspectiva de que há alguém que presta mais do que o outro. Então, nesse sentido, confiar a sorte, ah, que escolham alguém, quem vier vai fazer o que tem que ser feito, é uma temeridade.
Mais do que isso, quando a gente falar de uma visão, eu diria, encorpada de como algumas tradições vêm à eleição, algumas tradições religiosas e espiritualistas, porque isso tem a ver com a evolução espiritual, tá gente? Já vou dar spoiler, tá? Você ter consciência de como você poderia interceder em favor do seu país, do bem comum, em favor do coletivo, é um exercício espiritual. Esquece. Ah, eu não acredito em Deus.
Eu acredito em Deus, eu não sou espiritualista. Para quem tem alguma noção do que seja o território da espiritualidade, a gente não tá falando só do próprio umbigo, a gente tá falando do dever que temos, especialmente na área do cristianismo e suas múltiplas vertentes, a responsabilidade que cada um de nós tem para com o coletivo. É muito importante isso. Nenhuma religião, por princípio preconiza o egoísmo como valor. Ah, eu vou votar porque eu quero para mim sozinho isso, isso, isso e aquilo.
É claro que você vai colocar perspectivas pessoais. Se você, por exemplo, entende como empresário, eu acho que tem muita burocracia, muitos problemas para eu abrir uma empresa, coisa e tal. Eu quero alguém que tem uma boa proposta para não ser tão difícil abrir uma empresa no Brasil é teu direito. Da mesma forma, uma pessoa que tá tendo muita dificuldade em arrumar bons empregos porque não teve uma boa escolaridade, não conseguiu ter um lar estruturado e se ressente da falta de apoio do Estado num momento de absoluta escassez, indigência. E essa pessoa diz: "Eu preciso de uma força por um período para pelo menos me alimentar".
Essa pessoa pode ser movida. Portanto, ach acho que ela tem esse direito de dizer: "Qual candidato se lembra de mim? Eu que tô na banca rota. Eu eu tô sem estrutura nenhuma". Portanto, para ficar bem claro minha posição, sem prejuízo das suas convicções pessoais, daquilo que tal ou qual candidato lhe ofereça, para você, para você, quem está inserido no território místico transcendental da espiritualidade?
Quem se diz acreditar em Deus? ou não acredita em Deus, não tem nenhuma convicção religiosa, mas tem um coração humanista, porque o humanista não precisa ser religioso, mas ele é alguém que se preocupa com o ser humano, o humanista, ele tem valores e princípios que remetem ao coletivo. Nós deveríamos entender o voto, penso eu, e isso, o papo das 9, há mais de 6 anos a gente vem aqui procurando abrir espaço para bons exemplos, sermos vitrines de soluções que consideram o bem-estar social, o coletivo, o bem comum. Quando vem a encíclica do Papa. Eu sou espírita, por que que eu vou falar de Papa?
Porque o Papa é uma liderança religiosa que manifesta através das encíclicas as suas preocupações. Hoje é dia de São Francisco de Assis. Hoje é dia do padroeiro da ecologia. Hoje é dia da gente ir às urnas. Então eu tô partindo desse dessa coincidência nos calendários para confabular aqui sobre a importância do voto num país chamado Brasil.
O Brasil é o único país do mundo com o nome de árvore. É também a maior potência mega biodiversa, a maior potência ambiental deste planeta. Portanto, votar para presidente, para governador, para senadores dois, para deputado federal, para deputado estadual num país chamado Brasil, é hashtag outra coisa em relação a qualquer outro país do mundo. Por quê? Em maior ou menor grau, cada um desses candidatos haverá de se posicionar em diferentes momentos dos seus mandatos, sobre temas alusivos: a água, a esgoto, a floresta, a clima, a lixo, a transição energética, a necessidade de arborização urbana ou não, a maior ou menor predisposição a punir criminosos ambientais, a maior ou menor predisposição a fazer licenciamento ambiental, como deve ser, com muitos critérios técnicos razoáveis e necessários para que o empreendimento não seja um problema para a comunidade e para o meio ambiente.
Então se liga, hoje estamos indo às urnas num dia de São Francisco. Que ano é esse de 2024? 2026. Eu tô com a tragédia do Rio Grande do Sul na cabeça. Que ano é esse em que estamos indo às urnas?
Ano da graça de 2026? Para você ter o contexto, nós estamos no dia 4 de outubro de um ano que começou 10 meses atrás, quase isso. O ano começou com a maior tragédia climática de Juiz de Fora em Minas Gerais. Mais uma cidade do Brasil, dentre tantas, que virou notícia por conta de uma ecatombe, por conta de um dilúvio muito acima da série histórica que promoveu mortes, perda de patrimônio público e privado, não se recuperou ainda. Nós estamos no ano em que os europeus do hemisfério norte registraram o verão mais destruidor da história do planeta, com incêndios sem controle, depredando matas nativas numa extensão sem precedentes.
Na França e na Espanha, nós tivemos mais de 30.000 1 óbitos no continente europeu, onde tem dinheiro, mas eles não estavam preparados para essa onda de calor intermitente, mais de 30.000 óbitos, uma secura monumental dos rios mais importantes da Europa. Eu tô falando do Danúbio, atravessa vários países, do rio Reno na Alemanha, do rio Sena, que atravessa Paris. Paris não é o único alcance do rio Sena. Nós tivemos diversas quebras de safra, problemas em relação a produtos europeus. O clima deixou os europeus na lona.
Nós tivemos na fronteira do Nepal com o Tibete imagens absurdamente impressionantes de uma enchurrada que era de água, de gelo, de pedra, de lama, a partir de um bolão que eles chamam de lago glacial. O degelo dos Himalaias está acelerado. Nem toda a água que derrete vai parar no rio. Ela fica por vezes encapsulada em bolsões, lagos glaciais e vão se acumulando ali porque ainda tem um paredão de gelo, ainda tem um gelo mais robusto que vai permitindo a entrada dessa água, do gelo de cima que derreteu numa reentrância, num bolsão. Aí você vai tendo um lago de água de de gelo ali e num dia qualquer essa esse lago glacial descobre um caminho para fluir caindo de centenas de metros de altura, promovendo o que a gente viu naquelas imagens que não tem precedente.
Eu já fiz essa pesquisa, não vi e vários analistas que recorreram à série histórica, porque ali é uma área que vez por outra tem um desabamento, um deslizamento, uma cabeça d'água, como a gente chama no Brasil, chove forte na cabeceira, a água vem acumulando, vem uma enchurrada igual ao que a gente viu esse ano, não? E isso tá ligado à aquecimento global. Nós estamos testemunhando pela primeira vez o fenômeno nesse ano de 2026. Hoje é dia de São Francisco, dia de ir às urnas. Eu tô fazendo aqui uma contextualização do momento.
Super Elninho é uma expressão nova. Não me lembro de tê-la ouvido antes de 2026. Você tinha o ninho, que é um fenômeno natural, que tem origem na elevação da temperatura das águas do Oceano Pacífico. O clima é um sistema interligado. Isso interfere na formação de nuvem.
Isso interfere na temperatura da água nas suas correntes marítimas que leva essa água mais quente para outro lugar e vão precipitar outros fenômenos. Eloninho, a gente sabe o que que é. Super Ninho tem relação com o aquecimento global. O oceano se tornou o filtro da elevação da temperatura média do planeta, mas até os oceanos não estão suportando tanto calor. E aí vem na média, gente, eu tô falando de um oceano gigantesco que é o Pacífico.
Metade do planeta Terra é água salgada. Quando você vira o Globo assim, é o Pacífico. O Pacífico está com as águas extremamente aquecidas. Super El Ninho. É isso.
É elemento detonador de vários eventos extremos. O povo do sul do país, eu tô falando de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. pelas pesquisas recentes até ontem que eu vi, eu não vou entrar em pormenores, não vou entrar em detalhes, parece na escolha de seus representantes para diferentes cargos, tá? para diferentes cargos, eh, não estaria vendo tanto problema em soberanamente, a direito de cada eleitor, escolher representantes que não parecem verbalizar com frequência ou manifestar a devida preocupação com esses incidentes que acometem principalmente o Rio Grande do Sul, mas não apenas. Eu estive no Rio Grande do Sul em 2024.
Eu vi de perto aquilo ali. Eu tive em Musum esse ano que sofreu três enchentes seguidas de 23 para 24. As águas do rio que rasga Musum, atravessa ao meio Musum, subiram 27 m acima do nível normal. Então, nós estamos testemunhando e eu não terminei ainda minhas análises sobre 26, que que é esse ano que a gente tá indo às urnas no dia de São Francisco de Assis. Nós estamos testemunhando o que se convencionou chamar de eventos climáticos extremos muito, muito assustadores e violentos que têm origem no aquecimento global, que é o agravamento do efeito estufa.
Nós somos os responsáveis pela mudança da temperatura média do planeta. Nós, penso eu, é a minha opinião, você pode não concordar, escolhemos representantes hoje de novo que ou estão ligados no que tá acontecendo ou vão prosseguir na marcha insensatez, ignorando a urgência de reduzir a emissão de gases, principalmente plantando árvore, principalmente mudando matriz elétrica, fontes limpas e renováveis, o lobby do carvão. O lobby do carvão mineral, especialmente no Rio Grande do Sul, ele existe lá pros lados de Candiota. Esse debate tá colocado, é um debate técnico. Se o Brasil tem essa esse cardápio variado de tantas fontes renováveis de energia e tá sobrando energia solar e eólica que o operador nacional do sistema elétrico tem que cortar porque a gente produz muito mais do que precisa, é uma anomalia.
Aí vai investir em carvão com com subsídio meu e teu. Por quê? Por quê? Essa é uma questão que tá colocada, não é de hoje. Nesse ano da graça de 2026, nós testemunhamos uma declaração muito constrangida do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o Pinuma, dando conta de que 14 anos depois de celebrarmos o acordo do clima de Paris, a primeira meta do acordo de Paris é: não devemos deixar ultrapassar em 1,5 a temperatura média do planeta em relação ao que era essa temperatura.
no período pré-revolução industrial. Já batemos. A notícia não é boa. E é constrangedora essa constatação porque um acordo juridicamente perfeito celebrado em dezembro de 2015 em Paris, 11 anos depois, no ano da graça de 26 e hoje é dia de eleição, hoje é dia de São Francisco de Assis. A gente banalizou não cumprir um acordo climático.
A gente banalizou não conseguir segurar a temperatura em 1,5. A gente continua achando evento climático extremo algo que é fazer o quê? Ah, Deus é quem sabe. Deus é que que Deus todo o respeito. Eu sou crente em Deus, mas meter Deus nessa história é de uma covardinha intelectual e moral absurda para não dizer ignorância, para não dizer negacionismo.
negacionismo é um palavrão em em tempos de crise climática, em tempos de não vacinação a partir de mensagens mentirosas da campanha de vacina. Negacionismo mata. Eu já falei isso várias vezes, mas vamos lá. Estamos falando de um ano em que vamos às urnas no dia de São Francisco. Também testemunhamos um recorde na temperatura dos oceanos.
A gente fala muito pouco dos oceanos, né? A gente tá em terra firme, tem gente que nunca viu o mar. Brasil é um país que tem milhões de pessoas que nunca viram o mar, mas o que acontece no mar interfere na vida da população interiorana. É importante dizer isso, eh, essa dificuldade da gente fazer a conexão dos assuntos. Mais uma vez, né, a gente tá chegando no dia da eleição com as pessoas sem saber direito em quem votar para senador, deputado federal, deputado estadual, achando que presidente da República resolve tudo.
Não resolve tudo, não consegue resolver tudo. E aí temos a necessidade de nos unir nós cidadãos, de qualquer linha político partidária ou ideológica. Porque quando o assunto é sobrevivência, isso te diz respeito. Sobrevivência não tem coloração partidária. Sobrevivência não tem componente ideológico.
Quando a gente fala de sobrevivência, é uma palavra que abre os poros, abre a disposição pra gente escutar. as pessoas não estão se escutando. Abre canais de comunicação que precisam ser acionados pra gente entender do que se trata. É gravíssima a crise ambiental e climática. Não se fi no que eu tô falando.
Pesquise. Pesquise por diversas fontes ligadas a esse universo que checa, mapeia, faz prospecção de informação no campo, que mede, que publica em periódicos internacionais, que tem lugar de fala. É gente que vai lá e não tá achando, não tá opinando, tá demonstrando por evidências. É um absurdo, do meu ponto de vista, a gente tá nesse momento da história tão delicado, tão desafiador, votando em analfabetos ambientais e climáticos, porque isso tem a ver com a tua sobrevivência. As pessoas não fazem as conexões, né?
Você fala assim: "Eh, ah, o alimento tá caro". Poucos fazem conexões do tipo, vocês se lembram quando o azeite ficou caro durante quase 2 anos? Vocês se lembram? Não faz tanto tempo assim. Pouca gente sabia o quê?
O calor extremo secou as oliveiras de onde vem o azeite e as azeitonas. A lei da economia quando tem escassez, o preço sobe. O azeite foi parar o preço lá na estratosfera. As pessoas não fazem a conexão com o clima. Você se lembra da crise envolvendo aves, frango, galinha e ovos?
Tem pouco mais de um ano. Ah, tá caro o ovo, tá caro o preço da galinha. As pessoas não fazem as conexões com quê? As aves criadas em cativeiro são extremamente vulneráveis ao calor. Pergunte para quem ganha dinheiro produzindo proteína animal, especialmente no sul do país.
E aí você vai ver que qualquer variação térmica importante, há uma mortandade em massa dessas aves. Quando esquenta demais, o preço sobe porque as galinhas não aguentam o tranco ou não põe ovos como vinham botando, porque o metabolismo não tá legal. O que que eu tô querendo dizer com isso? São vários os produtos. Quem é agricultor sabe, ou agricultor familiar ou empresário do agronegócio.
Há uma profunda dependência das condições climáticas para você ter um bom desempenho, uma boa performance. O que eu não entendo é porque que certos empresários ligados a esse lado industrial da agropecuária banalizam o avanço do desmatamento da Amazônia, que é um ponto crucial ou deveria ser num dia de eleição, porque o Brasil tem ainda a maior floresta tropical úmida do planeta, mas ela tá em que pese a redução drástica dos níveis de desmatamento. Nós temos nessa eleição posicionamentos distintos em relação ao que fazer com a Amazônia, que políticas deveriam ser implementadas na Amazônia, gerando emprego e renda, mas não acelerando a devastação. É uma proposta, não é a única. Será que os eleitores estão antenados com isso?
Você que mora longe da Amazônia ou nunca foi à Amazônia, eu por acaso tenho o privilégio de conhecer a maioria do estado dos estados amazônicos. Dos nove estados amazônicos, tem um ou dois que eu não fui ainda. Eu já fui em circunstâncias bastante hostis de queimadas sem controle, etc. Eh, eu preciso dizer para vocês, você que tá longe da Amazônia sofre diretamente os efeitos do que ocorre por lá. Seja pela transporte de fumaça pelos ventos alíos, em tempos de queimada vem aquele fumacê da Amazônia grosso, caudaloso, transportado pro Sul Maravilha.
E aí vai chover fulig em São Paulo, como já choveu. Essa fumaça tá impregnada de componentes tóxicos e cancerígenos. As pessoas não se dão conta disso. Portanto, ah, Amazônia tá para lá, deixa rolar. Não, não é comigo.
Desculpa, tem tudo a ver com você. Pela fumaça que você inala, pelo nível da chuva, boa parte da chuva, ela vem do vapor emanado pela floresta. Proteger floresta é proteger a regulação das chuvas. Então, a gente tá falando de ciência. O tempo todo eu tô falando de ciência.
Outra dica. Como é que a gente não vê? É pena que nesse primeiro turno não houve debate, porque era importante explicitar posicionamentos, compromissos, dizer como é que você lida com esses desafios, que propostas você tem, o que você pretende fazer e de que jeito, porque a gente experimenta, vou repetir, uma crise ambiental e climática sem precedente. Esse ano eu fui no Pantanal, fizemos uma série pro Jornal Nacional, mostramos uma área do Pantanal em que cientistas do mapa e biomas fazendo o retrospecto do índice pluviométrico de chuva e das águas. Pantanal tem período de cheio e de seca.
Cheia e seca. O Pantanal respira. Só que o Pantanal tá respirando com dificuldade. A água não tá chegando onde chegava antes. Nós fomos a um ponto georreferenciado, longe, difícil de chegar, para mostrar uma área que há décadas a água já não tá chegando como chegava antes.
Conclusão dos cientistas do MAP Biomas, o ponto de não retorno já é uma realidade em alguns lugares do Pantanal. A Mercedes Bustamante da Universidade de Brasília, uma das maiores autoridades do cerrado, que é um ponto muito caro a grandes fazendeiros e produtores rurais. O cerrado também está na iminência de lidar com os chamados pontos de não retorno. Ou seja, chegamos num nível de depredação e de devastação que o bioma por si não tem a força, não tem a condição de recuperar a sua situação original, a sua configuração de antes. Isso é muito sério.
Isso tem a ver com qualidade de vida, de quem mora naquela região e de quem não mora, porque tá tudo conectado, tá tudo interligado. Hoje é dia de São Francisco de Assis, padroeiro da ecologia. Hoje é dia de ir às urnas. O meu trabalho há quase 40 anos tem sido como jornalista entender a produção de conhecimento na área do clima e do meio ambiente. Graças ao bom pai, eu consegui, tanto no Brasil como em várias partes do mundo, fazer reportagens e conhecer pessoas, criar fontes que me abastecem de informações relevantes que eu não posso guardar comigo na gaveta no momento que nós temos o privilégio de escolher o nosso destino.
Presta atenção em quem você vai votar. para deputado estadual, para deputado federal, para senador, para governador e para presidente, porque em diferentes níveis de responsabilidade todos eles podem fazer algo em favor ou contra esse momento grave que a gente tá enfrentando. É muito sério isso. E eu acho que a gente precisa, independentemente do dia da eleição, construir a cultura de uma cidadania ativa. Não adianta você lembrar que o Brasil é um país, aí tem gente, é uma pátria, não.
No dia da eleição, você ter orgulho de ser brasileiro e de poder participar do destino do seu país. Aí no dia seguinte e no resto do ano, isso fica meio ao Deus dará. Eu penso, minha opinião, a gente no Brasil se ressente e paga um preço caríssimo por isso. Nós não temos a cultura da cidadania ativa e vigilante. A gente não participa, a gente não se interessa, a gente delega ou a gente se omite e depois reclama.
Depois não adianta reclamar. Esse é o ponto, valorizar o voto, pesquisar antes de votar quais os candidatos que atendem as suas expectativas. E aí eu vou entrar mais uma vez, peço licença para repetir um trecho do Bela Crônica escrita pela Marta Medeiros, cara, no dia 6 de setembro, há quase um mês, no jornal O Globo. Não voto por mim, mas por quem ainda precisa. Eu achei essa crônica das mais felizes da Marta, que é uma prolífica cronista, mas ela expressou um pensamento que é de muita gente, privilegiada num país como o Brasil.
O subtítulo é: Tenho consciência dos privilégios que marcaram a minha trajetória e por isso, não posso escolher pensando apenas nos meus interesses. Aviso aos candidatos à presidência e demais cargos públicos. Sou uma mulher branca e heterossexual. Minha família pagou meu colégio e faculdade. Na juventude pude me exercitar, estudar idiomas, viajar.
Fui criada em meio a livros, filmes e teatro. Nenhum homem jamais levantou a mão para mim. Tenho plano de saúde e previdência privada. Trabalho há 45 anos. Minhas duas filhas estão criadas.
Vivo no meu próprio país. Nunca tive que abandoná-lo para fugir da fome ou de uma guerra. Se eu me apertar, aciono minha rede de contatos. Deveria votar em quem defende os meus interesses? Aí ela repete, os meus meus interesses foram atendidos desde o dia que eu nasci, aliás, antes mesmo de eu nascer, pois minha mãe teve condições de realizar os exames de pré-natal.
Preciso do governo infinitamente menos do que aqueles que ainda lutam por seus direitos básicos. Tenho 65 anos de privilégios. Voto por quem tem 3 anos e é cuidado por um irmãozinho de 9 anos. Enquanto a mãe realiza serviços domésticos na casa dos outros aos sábados, inclusive. Voto porque por quem tem 12 anos e teve que sair da escola para ajudar na renda familiar.
Voto por quem tem 24 anos e ainda não conseguiu o primeiro emprego. Voto por quem mora nas encostas, por quem sofre violência. por quem mal sabe escrever. Seria uma indecência se eu votasse pensando em mim. Voto em quem pode impedir a escalada do retrocesso, da ignorância, da irresponsabilidade de indivíduos que nunca conceberam projeto social de inclusão e negam evidências científicas.
Aí ela encerra aqui minhas angústias emocionais conhecidas como white people problems, problemas das pessoas brancas. Minhas angústias emocionais conhecidas como white people problems, atenuo com amigos, com leitura, com terapia, sob um teto sólido e com a certeza que almoçarei amanhã. Desejo, claro, ver meus impostos bem investidos, valorização da cultura, meu ambiente preservado, corrupção combatida, mas sem esquecer o principal. Nunca iremos decolar enquanto o Brasil for um dos países mais desiguais do mundo. É o nosso problema maior que origina tantos outros.
Portanto, nobres candidatos, obrigada pela consideração, mas deixem para lá meus interesses. Vocês têm mais com que se preocupar. Marta Medeiros, Jornal Globo, 6 de setembro, agora desse ano. É interessante, me permito aqui a franqueza, esse discurso que alguns vão dizer assim: "Isso é de esquerda. S é de esquerda, cara.
Esse é um discurso cristão. É, é muito curiosa a forma como algumas pessoas quando ouvem falar de inclusão social, combate à desigualdade, combate à fome, fazem uma associação político-partidária imediata, [risadas] se dizendo cristãs. Assim, o que é o cristianismo na essência? Ama ao próximo como a ti mesmo. Foi a mensagem explícita deixada por Jesus através dos evangelistas.
Ama o próximo, não é o próximo que pensa como você, é da tua cor de pele, vota no teu candidato, fala a tua língua, teve o teu nível de escolaridade, tem o teu nível de renda, esse é o teu próximo? Não. Portanto, esse discurso que fala de inclusão é um discurso de amor, de compaixão e de misericórdia. No meio em que eu transito no universo cristão, que é o Espiritismo cristão, é muito curioso ver que algumas pessoas registram essa esse posicionamento como posicionamento político partidário do lado A ou do lado B. você segmenta, fala assim: "Isso aí, pô, desculpa, a gente tem explicitado no livro dos espíritos de onde se bebe a doutrina, exatamente na parte três do livro dos espíritos, que a gente chama de leis morais, que seriam a lei do amor, a lei do trabalho, né?
A gente tem a lei do progresso, a gente tem diretrizes universais. É como se fosse o software eh inteligente de Deus inserido no cosmos, né? Então ali aparece a lei da igualdade. Cara, é interessante porque eu acho que tem espírita que não, presta atenção em detalhes que não são irrelevantes. A lei da igualdade.
Ou seja, a desigualdade, isso é dito com todas as letras, não é de Deus. A desigualdade é dos homens. E cabe à humanidade estabelecer rotinas, trabalhos ou se você quiser usar no dia de eleição políticas públicas que fomentem a igualdade de oportunidades. Não é todo mundo ter Ah, então tá. Porque tem essa leitura milp, obtusa, eu diria até grosseira.
Isso é comunismo. Pessoa não trabalha e vai ter direito à casa, comida, roupa lavada, vai morar na tua casa. Olha a ignorância, todo respeito. Não é igualdade de oportunidades. Quando você fala de meritocracia é algo aparentemente bonito.
Você vai ascender socialmente por méritos próprios. Tô dentro, tô de acordo. Só tem um detalhe. Num país tão desigual, quem não teve acesso às melhores escolas, os melhores professores, os melhores cursinhos, portanto, não terá acesso às melhores oportunidades de passar no Enem, Exame Nacional do Ensino Médio, portanto, não terá acesso à universidade pública, portanto, não terá direito ao nível superior, porque tem um funil. tem um funil, não tem meritocracia possível quando você não larga do mesmo ponto.
Meritocracia, bem entendido, é o seguinte: nós estamos no mesmo patamar, nós tivemos acesso às mesmas oportunidades de crescimento intelectual, nível de escolaridade, oportunidade de aprender o que é certo e errado. E aí temos a nossa o nossa forma de buscar oportunidades partindo do mesmo ponto. Agora você fala em meritocracia assim, eu sou branco como a Marta. [risadas] Eu já, e não é nessa eleição, eu já aprendi que eu não vou votar por mim, porque eu já tenho muito mais do que o necessário. O voto precisa ser e não é uma coisa, veja, político partidário, ideológica, uma coisa de bom senso.
A gente precisa ser um país, todo mundo quer paz, a gente fala combate insegurança, né? Segurança pública é o grande tema do momento. Aí você só pensa em metralhar bandido, né? Você fala assim: "Não, tem que ocupar, tem que estilhaçar, tem que acabar". Aí você não quer saber, você realmente não tem interesse em saber que boa parte da garotada que flerta com facções criminosas que estão infiltradas no poder e estão infiltradas nas eleições.
Aqui no Rio de Janeiro, boa parte da Assembleia Legislativa do Estado do Rio responde a interesses de bandidos. Isso é público e notório, são fatos. Tá infiltrada a facção. A facção vai aliciar crianças e jovens para fazer essa migração para atividades ilícitas. Aí eu te pergunto, aonde isso se dá com mais facilidade?
Aonde o estado não tá presente? Aonde não tem curso profissionalizante? Aonde não tem creche? aonde não tem uma escola em com uma boa estrutura, com professores minimamente bem remunerados, que exerçam seu ofício. Aliás, o desafio pro próximo presidente da República e pro próximo governador do seu estado vai ser reverter o défic de pessoas interessadas em seguir a carreira de docentes.
Ninguém tá falando disso. Não teve debate, a gente não viu as propostas. Assim, com todo respeito, qual é a solução do seu candidato que você vai hoje votar, se já não votou, pro problema da gente ter déficit de vagas preenchidas em vários concursos pelo país, porque não temos gente querendo trabalhar como professor. Então, veja, são problemas muito claros. Eu não tô falando aqui com base em achismo.
Aonde o estado tá presente oferecendo seus serviços que acessam os excluídos e permitem oportunidades, você torna o crime desinteressante ou mais desinteressante. É algo um tanto fácil de entender. Mas no Brasil a gente tem o desafio de empoderar o cidadão no voto e na vigilância cidadã ao longo do mandato. Acompanha. Você prometeu isso, fez aquilo.
Você disse que ia fazer isso e deixou de fazer. É a panela de pressão de uma democracia saudável. Então, façamos por merecer o sonho de viver num país melhor e mais justo. Isso depende de várias coisas, principalmente da clareza desse momento, o voto. Seja qual for o seu candidato a deputado estadual, valorize.
Deputado federal, valorize dois senadores, valorize governador. Valorize presidente, valorize. Entenda a dimensão do voto, o comprometimento que você tem com essa oportunidade numa democracia para fazer desse país um país melhor e mais justo. Simples assim. Hoje é dia de São Francisco, o povo de Assis, que constrangeu oito séculos atrás uma igreja opulenta e corrupta, que tinha também o poder político.
Francisco optou pelo voto de pobreza, voto de castidade e foi o primeiro pensador cristão que percebeu o sagrado na natureza, o sagrado na obra do criador. e a necessidade da gente compreender o quanto de valor há na existência de todas as espécies. séculos depois, nós tivemos a ciência ambiental validando a retórica poética ambientalista de Francisco, dizendo: "Sem um meio ambiente equilibrado e protegido, nós não teremos saúde, longevidade e prosperidade. Isso é ciência. E o mundo precisa prestar atenção no que tá em jogo.
O Brasil, como disse, é um país singular neste planeta quando o assunto é riqueza ambiental. E tem gente fora do Brasil de olho nas nossas riquezas. Verifique qual o posicionamento dos seus candidatos todos em relação a essa possível subserviência ou concessões indevidas que flertam contra a nossa autonomia. A gente precisa proteger o que é nosso e tem muito valor, especialmente nos dias de hoje. Fiquem com Deus, tudo de bom.
Viva São Francisco. A live hoje foi inspirada no dia de São Francisco, que coincidentemente se dá num dia de votação. Então que sejamos nós eleitores conscientes. É só isso que eu desejo pro meu país. Fiquem com Deus.
Tudo de bom. Bom voto. Até a próxima. M.
