Silenciado pela igreja, ativo no Papo das 9!
Relembrando aqui o Papo que tivemos há 5 anos com o Padre Júlio Lancelotti. É a nossa homenagem a esse sacerdote que foi …
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Aleluia! [risadas] Graças a Deus, padre. Vamos lá. Eu sei que seu tamanho tá tarefado agora. Eu tô preocupado com >> tô preocupado com seu horário.
Falar com você. Não, não. Vamos lá. Vamos. >> Tô preocupado com seu horário.
Vamos lá, padre. Vamos começar por onde >> esse papo deve começar. O senhor tá já há 35 anos pelo menos ajudando a população em situação de rua. A pandemia fez com que essa situação se agravasse dramaticamente. Eu queria saber quais são os dados consolidados que o senhor dispõe sobre quem hoje em São Paulo, quantas pessoas estão em situação de rua e quem é essa população em situação de rua?
Tem um perfil? >> Então, tem um perfil. Eh, um dado importante, o IBGE não faz o senso da população de rua. O IBGE faria o senso agora em 2020. O censo foi adiado, mas embora muitas reivindicações, o IBGE já declarou que não fará o senso da população de rua, porque precisa de uma metodologia própria e porque o IBGE só faz senso a domicílio.
São Paulo tem um senso da população de rua como a metodologia própria. Eh, e nós temos dados de levantamento do IPEIA. O IPEIA considera que hoje temos 220.000 1000 pessoas nas ruas nas cidades e de são do Brasil. Então, o Brasil teria 220.000 pessoas em situação de rua. E eu acho que esse número já aumentou.
O censo de São Paulo aponta que foi feito em final de 2018 para 2019, foi publicado em 2019, aponta 25.000 1000 pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo. Do penúltimo pro último, um aumento de mais de 50%. Mas mesmo assim nós sabemos que esse dado está a quem da realidade. Nós consideramos hoje que São Paulo teria de 30 a 32.000 pessoas eh vivendo pelas ruas da cidade. O Rio de Janeiro eh chega a ter 17.000, 1000, o que proporcionalmente é um número assustador e esse número aumenta em todas as capitais, em todas as grandes cidades.
Então, para pegar um dado, aqui próximo da paróquia está o espaço de convivência São Martinho de Lima, que é de uma entidade social em convênio com a prefeitura. Nós que iniciamos esse trabalho voluntariamente e depois ele se complexificou e hoje é um convênio com a prefeitura. Eh, antes da pandemia, passavam por lá 4.000 pessoas no primeiro eh a primeira vez em um mês durante a pandemia passam pela primeira vez no mês 8.000. Então nós percebemos que o número de mulheres na rua aumenta, de mulheres com crianças, de grupos familiares. Então a rua é bastante heterogênea.
Esse perfil ainda é majoritariamente masculino. Aumenta o número de jovens, aumenta o número de idosos, mas agora aumenta mais o número de pessoas. Eu não gosto muito do termo, mas para que a gente entender, eh, economicamente ativas, isto é, pessoas que ou estão procurando emprego ou já estão desalentadas. Muitos são doentes, já não procuram mais, mas há o desalento e eh eles trabalham muito nas questões informais. Por exemplo, André, uma questão que me chama muita atenção, eh, em São Paulo, que vemos muito problema por isso, é a população de rua que monta a estrutura dura do Lola Palusa, que monta a estrutura dura da virada cultural de São Paulo.
Então, essa estrutura dura quem carrega, quem descarrega é a população de rua, pois tem os recicladores, o pessoal que faz o trabalho reciclado. e tem pessoas com sofrimento mental, com eh uma diversidade de questões. Então, é uma população, eh, para concluir isso que você perguntou, que dentro do pensamento do Papa Francisco são os descartados, são os indesejáveis, são aqueles que ninguém quer chegar perto, que não convive, que não percebe. Às vezes eu pergunto pro morador de rua, você tá bem? Às vezes, dependendo das você tá triste, o que foi que te aconteceu?
Eles até assustam agora pela manhã, eh, estava até agora a pouco no centro comunitário e nós entregamos hoje para passaram mais de 500 eh 500 pessoas entre homens, mulheres e crianças. E nós entregamos hoje pros homens uma cueca nova. Então, eles ficaram muito espantados de ter uma cueca nova. E eu conhecia as várias em cada dedo eu pendurava uma de diversos tamanhos e cores. Eles ficam perplexos que podem escolher porque normalmente eles recebem uma cueca usada e as mulheres podiam pegar e escolher duas calcinhas.
Então é uma coisa tão simples, tão corriqueira. Eu ouço dos irmãos de rua me pedindo um creme dental, uma escova de dente. Então a gente pensa que a vida deles é feita de alguma outra coisa. Eles têm as mesmas necessidades que nós temos. Eles também querem escovar os dentes, mas não tem escova.
Eles querem tomar banho e não tem um sabonete. Eles querem pôr uma cueca limpa e não tem. Eu até ouvi um que pegou a cueca e disse para mim: "Que bom, padre, faz um mês que eu tô com a mesma". >> Eita, padre. >> E quem usam mais?
>> São problemas complexos, são situações distintas, como o senhor bem descreveu, e numa ordem de grandeza gigantesca. Descreva, por favor, para nós, que ainda não tem familiaridade com a sua rotina, o que é esse trabalho que o senhor desenvolve? ajudando a população de rua. O que que o senhor faz exatamente? De que jeito?
Eu procuro, André, conviver. Então, eh, eu não digo que trabalho com a população de rua, eu convivo com essa população de rua, porque eu procuro quebrar a incomunicabilidade e externar, que eles são importantes para mim naquilo que eh nós conseguimos para eh qualificar, humanizar, dar um pouco de de conforto e de coragem na vida, vê-los sorrir, porque amanhã eu vou dar para cada um deles um desodorante. Então eu tô, eu fico mais feliz do que eles, mas quando eles pegam o desodorante, eles olham para aquilo como acho que se eu olharia se eu tivesse ganhado, não sei, não saberia dizer o quê, mas eh eh eh eh eles olham muito admirados porque isso externa, cuidado, você é importante para mim eh saber o nome, falar com eles, perguntar os sentimentos. Então, o que eu busco é conviver. Esse é um passo que nós temos.
Essa convivência me traz conhecimento, indignação, afeto, solidariedade, conflito, tudo que tem a convivência. para que eu possa através disso eh estabelecer eh canais de comunicação com o poder legislativo, com o poder executivo, com o judiciário, tentando que eles eh eh percebam quem são essas pessoas e que eles são pessoas, não são coisas. Eh, eu me incomoda muito quando eu ouço as autoridades dizendo: "Tem vaga, tem vaga". Eu digo, mas o a eles não são carros. Vaga é para carro, vaga é de estacionamento.
O que as pessoas precisam ter é lugar e não lugar que tire autonomia. Então essa é uma questão que a convivência me chama muito atenção. Eles precisam ter autonomia. Nós não podemos tutelar a população de rua como se eles fossem completamente incapazes. Eles são também criativos.
Eu gosto muito do filme O Auto da Compadecida. Eu acho que eu já assisti aquele filme umas 1 vezes e se eu assistir outras 1000 eu vou me emocionar. Eh, me toca demais a compadecida, a Fernanda Montenegro que faz o papel da compadecida, realmente é um é uma figura exponencial, né? >> E um Jesus negro >> negro. E ela diz: "A malandragem é a arma do pobre".
Então eles têm que ter ginga para sobreviver. Eles têm que ter eh manejo. Eles têm eh o maior trabalho quem dá somos nós para eles, porque eles têm que ficar descobrindo o que é que a gente quer ouvir. Eles têm que ficar descobrindo o que é que nos agrada. Eles têm que ficar descobrindo como é que eles vão conseguir alguma coisa, eh que história que eles vão me contar.
Então, eh eh isso desumaniza e quando a gente fica desumanizado, a gente vai perdendo os padrões éticos, vai perdendo. É, é o que a gente vê, a classe política. Eu tenho dito muito, André, e você sabe bem disso. Quem superfaturou o preço dos respiradores durante a pandemia não é nenhum morador de rua. Quem adulterou o álcool em gel morador de rua.
Quem desviou verbas públicas não é nenhum morador de rua. E se um deles, não que eu concorde, aceite, nem justifique, mas se um deles pegar R$ 10, a polícia cai em cima deles, quebra em pedacinho e a justiça condena. Então, nós somos eh eh uma sociedade que tem uma hipocrisia muito violenta e eles percebem tudo isso em nós. E uma coisa que é fundamental, você só convive com quem você quer bem. Se eu não quero bem a eles, não adianta, eu não consigo nada.
Eles já me viram eh com eles enfrentando polícia, enfrentando rapa, enfrentando bomba de gás, tropa de choque, porque essas pessoas são indefesas. Eles são tratados com crueldade, com negligência, são invisibilizados. Então, o primeiro passo político é o afeto. O primeiro passo da política econômica é a é o segundo é a partilha. é a capacidade de olhar para eles e perceber.
Outro dia eu falei para um grupo, tava conversando com o grupo, eu disse para eles assim: "Quem tem boca tem direito de comer". >> E a um falou assim para mim: "Só de comer?" Eu falei: "Não, de beijar também". Mas eh eles têm as mesmas necessidades que todos. Eles também querem ter carinho, eles também precisam de afeto. E a minha senha de convivência com esses irmãos é o olhar, ser capaz de olhar nos olhos deles e ler o que lá está escrito.
Padre, o senhor se transformou numa autoridade em relação a todo o universo dessa população desassistida que configura talvez o nível mais dramático da exclusão social. O senhor conhece algum lugar no Brasil onde uma política pública seja reconhecidamente eficiente? Qual é, na sua opinião, o papel do Estado para virar esse jogo? Olha, eh, o Papa Francisco na exortação apostólica, eh, eh, Evangelho Gudum, é, que ela tem muito do da Gudpés, do Concílio, da Constituição dogmática, ela eh o Papa não chama nem de excluído, o Papa chama de descartado, porque o excluído você pode falar, vamos fazer política de de inclusão. Com o descartado não tem política de encarte.
Quem tá descartado está condenado ao descarte. Então, eh, nós precisaríamos mudar no Brasil a desigualdade. Eu acho que uma proposta que alguns municípios já têm e que deveria de ser implantada a nível nacional, eu tenho dito a muitos candidatos à prefeitura, eh, a renda mínima municipal. Então isso seria com critérios, com critério de de eh mulheres primeiro, mulheres com crianças, pessoas deficientes, mas a renda mínima. Nós, eu acabei de falar agora com o grupo de sindicalistas, de centrais sindicais e nós estamos lutando para que o auxílio emergencial de R$ 600 não tenha nenhum centavo a menos e que pelo menos dure até dezembro.
Ah, o Brasil não aguenta. Aguenta. Tira o privilégio do judiciário. Por que que um desembargador tem que receber 500.000, R$ 600.000. Os desembargadores viveram com o auxílio emergencial de R$ 600?
Por que que os políticos têm que ter tanto privilégio? Por que que o Senado custa tão caro? Então, eh, Santo Tomás de Aquino, que é muito invocado pelos conservadores, Santo Tomás de Aquino, que é o doutor angélico, o, o que deu origem à escolástica e tomismo, que os conservadores gostam muito de invocar. E eu gosto muito também de São Tomás de Aquino. >> Eh, São Tomás de Aquino diz: "No tempo de penúria, todos os bens se tornam comuns." Num tempo de penúria, >> todos os bens se tornam comuns.
Então, nós temos que nesse momento, eh, e é uma coisa muito difícil abrir mão de privilégios, mas nós teremos que ter a grandeza humana de abrir mão de privilégio. Quem come dois, coma só um. para que o que não come nenhum coma um também. E que não seja aquela estatística do frango que um come três frangos e na estatística sai que o todo brasileiro comeu um frango. Eu não gosto de comer frango, mas tô pegando o exemplo de de estatística que você entende bem.
Agora, padre, como é que o senhor explica ou qual é a percepção que o senhor tem quando tantas pessoas que se dizem cristãs e vamos fazer o recorte católico, que é a denominação que o senhor representa, mas não é a exclusividade do catolicismo. Quero frisar, nós cristãos, de uma forma geral, que falamos de Jesus, citamos trechos do evangelho, frequentamos a missa, comungamos os sacramentos todos, na hora de falar sobre população de rua, a gente não revela nenhuma compaixão, nenhuma misericórdia, nenhum exercício amoroso de compreensão do outro como irmão e humanidade. Há relativamente pouco tempo, um vídeo viralizou nas redes, mostrando, e eu não vou citar a autoria, mas duas pessoas de posse cristãs reportando a situação da população de rua como se fosse opcional, como se elas estivessem na rua, porque escolheram estar na rua e que na rua estavam eh prejudicando a cidade. Então, era um apelo que foi dirigido à população de rua para não ficar na rua. A população de rua ou em situação de rua teria essa opção.
Estão na rua porque querem. O que diz a sua experiência, padre? >> Olha, não é uma escolha. Se você disser para um qualquer morador de rua, você quer ter um lugar para morar, quer ter uma casinha, quer ter o teu quarto e ele vai querer. E nós não queremos que os moradores de rua precisem ter coberturas, mas eles precisam ter uma porta para abrir, um lugar para deitar.
uma mesa para ter o seu alimento. Eles me pedem muito um fogãozinho para fazer a comida. Isso é viável. Isso não é impossível. Você veja a na pandemia pelo mundo todo, até Londres abriu a rede hoteleira e a rede hoteleira até de cinco estrelas.
São Paulo. Eh, nós pedimos que a rede hoteleira viabilizasse e leitos para a população de rua. 120 dias depois da pandemia, a prefeitura conseguiu 50, depois 100, 150, deve estar em 200. O Ministério Público recomendou 8.000 leitos na rede hoteleira. A rede hoteleira de São Paulo preferiu ficar fechada a eh e abrir espaço para que essas pessoas fossem socorridas, mulheres, crianças.
Nós temos que garantir o isolamento social ainda. Eh, nós não sabemos ainda se teremos um rebote ou não, mas nós precisamos trabalhar para que na emergência sanitária ou não as pessoas têm condições de vida. Eu vejo alguns que tem barraquinho, eles fazem um jardinzinho em volta, põe o tapetinho, põe um vasinho, aí vem o rapa, vem a GCM, vem a PM, chuta tudo, arrebenta tudo, arranca tudo. Eh, o que você sabe disso, a força motriz hoje no Brasil é a especulação imobiliária e nas cidades, a como há especulação da terra, há a questão da especulação imobiliária. Então, nós temos que humanizar a vida, diminuir as as desigualdades e isso mantendo uma renda mínima.
O respeito à pluralidade e à diversidade, não tutelando as populações empobrecidas, sabendo que eles têm a sua maneira de ser, de pensar, a sua a sua cultura. Então tudo são várias questões que implicam que nós não tenhamos um pensamento tão simplista e tão raso e dizer: "Ah, ele tá na rua porque ele escolheu". Impossível. Ninguém escolhe dormir na chuva. Ninguém escolhe ter que dormir numa calçada dura.
Ninguém escolhe não ter um banheiro para usar. Ninguém escolhe não ter um alimento para poder comer na hora que sente fome. Ô padre, eh, nessa longa jornada do senhor evangélica apostólica nas ruas, eu acompanho na sua página no Instagram imagens e registros muito comoventes que sensibilizam o senhor e o senhor deseja compartilhar, provavelmente para eh desentupir os poros dos cidadãos que não conseguem ter o olhar que o senhor construiu sobre quem tá em situação de rua. Tem alguma história que ele já lhe tocou mais profundamente, que o senhor não esquece, que é algo que marcou até aqui a sua trajetória junto desses irmãos em humanidade desprovidos de um lugar seguro para ficar. Olha, tem agora durante a pandemia até nós estamos juntando histórias e fotografias, mas outro dia eu encontrei um irmão que veio da cracolândia muito barbudo, cabeludo, com a roupa muito suja, muito destruído.
E eu vi que ele não chegava perto dos outros. Eu fui até ele e falei se ele queria almoçar, ele quis. pegou a comida, mas foi sentar na calçada longe. Aí eu fui até ele outra vez, ele me falou o nome e eu disse para ele: "Os teus olhos têm muito brilho, os teus olhos têm luz, os teus olhos são os olhos de Jesus". E ele me olhou espantado e eu disse: "Benha, vamos ver uma roupa para você.
Você não quer uma outra roupa?" Ele disse: "Quero que essa roupa tava tava suja, com odor ruim. Aí nós fomos procurando e dentro da blusa que ele usava, no forro tava perdido uma bibliazinha. Aí ele achou, aí ele mesmo me falou: "Eh, eu eu toco violino." >> Olha, >> eu tocava violino na igreja. Eu falei: "Não, eu queria tanto fazer uma orquestra com os irmãos de rua, você podia nos ajudar." Eh, eu aí falei para ele, "Vamos trocar sua máscara, que a sua máscara tá muito suja." Ele trocou e eu disse: "O seu rosto é o rosto de Jesus. Você tem o rosto como o de Jesus." Ele me olhou surpreso, sorriu e eh aí eu chamei a pessoa que cuida ali e disse: "Você eh tá vendo esse aqui, esse nosso amigo ele vai vir aqui para tomar o café da manhã e quando você vier, você diz que conversou comigo.
Aí você vai dizer o quê?" Ele disse que eu sou Jesus do padre J. [risadas] >> Ai, que maravilha. Eu achei que uma pernura de de um E outra coisa que me chamou muito atenção, mas muito, num desses dias do isolamento muito grande, muita gente de manhã, 1 hora meia depois de atender, eh, eu tava um pouco cansado, aí entro aqui na cozinha da da igreja para tomar um chá ou uma água, coisa que eu ainda não consegui hoje, mas aí eu daqui a pouco eu vou lá tomar um chá. E aí o o ministro falaram: "Tem um senhor aí ou tem uma pessoa que quer falar com você?" Falei: "Nossa, mas eu acabei de sair de lá, já estão me chamando." Aí eu voltei e já essa pessoa estava na perto da porta e tinha um papel na mão. Aí ele disse para mim: "É para você".
Quando eu peguei aquilo, eu vi que era um cheque. E quando eu abri e vi o cheque, era um cheque de R$ 3.000. Eu disse: "Que é isso, filho?" Ele disse: "É para você. Toda a aparência dele de um morador de rua". Aí eu disse: "Mas você não pode me dar isso.
Você quer que eu guarde para você? De quem é isso?" Ele disse: "Eu estou dando para você. Eu é minha minha eh contribuição. Eu nunca tinha visto essa pessoa e nunca mais a vi, nunca mais encontrei. Eu fiquei com esse cheque no meu bolso mais de uma semana pensando, será que é perdido?
Será que foi extraviado? Será que é falsificado? Será que é roubado? E mais eu olhava para aquele cheque, mais intrigado eu ficava. >> Por fim, eu depositei e foi compensado.
Eu nunca mais essa pessoa, >> nunca tinha visto e nunca mais eu vi. Também um outro catador eh eh num desses dias parou na cerca aqui da da na entrada da igreja e me chamou. Esse eu conheço, eu sei que ele é reciclador. Eh, ele deve ter conseguido receber o auxílio emergencial. Ele me dou me deu uma nota de R$ 50 e disse: "É para você".
Eu falei: "Você quer que guarde para você?" Ele falou: "Não, eu tô dando para você". Falei: "Não, você não pode dar isso para mim". Falou: "Tô dando, eu não tenho ninguém, eu quero dar para você". >> Olha que lindo. >> Então, eh, são coisas assim da humanidade dessas pessoas.
Eh, você sabe, André, eles me perguntavam e me perguntam: "Você tá bem? Você tá cansado? Senta, descansa um pouco. Hoje eu tô percebendo que você tá cansado. De quem eu ouço isso?
Não é dos outros padres, não é de Eu ouço disso dos moradores de rua. Eles falam isso para mim. Eles eh me acompanham, param o trânsito para eu atravessar a rua. Então, eh, quem tá bem durante a pandemia, uma senhora com três filhos, ela veio aqui um dia sem os filhos e ela queria alguma coisa que não conseguia. Ela brigou, xingou, berrou, foi embora gritando.
Eh, num outro dia que tava chovendo, muito frio, ela voltou e parou na cerca outra vez e me chamou. Eu falei: "Diga, viu?" Ela disse: "Padre, eu te suplico, arranja uma barraca para mim". Eu falei: "Ah, você dia me xingou tanto." Ela falou: "Esquece, eu te suplico, eu te suplico. Arranja uma barraca para mim. Eu não dormi essa noite.
Eu fiquei cuidando meu filho, minha minhas duas filhas para que eles dormissem. E nós ficamos na chuva a noite inteira". Eu falei para ela: "Entra aqui". Aí ela sentou ali no banquinho que tem perto do portão e eu disse para ela: "Eu não vou te dar uma barraca, filha". Ela olhou espantada para mim.
Ela tinha suplicado tanto e eu não ia dar barraca para ela. Eu disse para ela: "Você vai pro hotel hoje, você e teus três filhos." >> Nossa. >> Ela disse: "Padre, eu não acredito. O eu o senhor vai me levar pro hotel? Você vai?" "Não, não vou te levar não.
Já tem gente aqui que vai levar você." E ela tá no hotel até agora. E a ela fala para mim: "Padre, eu preciso agora arranjar um emprego. Você já tá fazendo muito por mim". Eh, vamos eh achar um um caminho. Então, eh, são muitas histórias.
Agora mesmo eu tava com o Gael, que é o nenezinho, fez um mês, que também chegou aqui, que eu digo que ele é o menino Jesus. Ele nasceu com a linguinha presa, não conseguia mamar. Nós conseguimos a a bombinha, a mãe tava tirando o leite e dando, mas através do Instagram, uma fonudióloga entrou em contato comigo, conseguiu uma eh cirurgiã aqui de São Paulo que faz esse corte na língua presa. Eh, levou, os consultórios de rua acompanharam, consultório de rua é uma política pública que dá certo. E eh ele fez a cirurgia, veio hoje me visitar e já tá mamando diretamente no peito da mãe.
Tá, Deus >> arrumado e eh precisa ver como ele ganhou peso, como ele tá mais pesado. Então você vê, nada disso muda o sistema, mas isso muda o nível de humanização. E e isso aponta de que você tem que atender aqui olhando ali, olhando pro horizonte, o horizonte de um Brasil mais justo, mais solidário, mais fraterno, onde eh a biodiversidade seja respeitada e a diversidade humana também. Que o Pantanal não seja queimado e a Amazônia seja preservada. que os povos indígenas vivam e que os quilombolas toquem os seus atabaques, que todas as culturas e todos os grupos e que a solidariedade não é uma dimensão religiosa, a solidariedade é uma dimensão humana, porque os ateus também são muito solidários.
Muito bem. Privatizando eh dimensões humanas como virtudes. Não são virtudes, são dimensões humanas. Acho que o que Jesus trouxe para nós e aquela questão que você colocou, Jesus não veio trazer uma religião. Jesus veio propor que nós humanizemos a vida.
Eu gosto muito do que diz Sua Sant Lailama. Todos nós temos muito carinho e respeito à sua santidade da Lailama. Um dia perguntaram a ele qual é a melhor religião? E Sua Santidade da Lailama disse: "A melhor religião é aquela que te faz mais humana." Porque tem gente que tem religião e é tão desumano. Eh, a religião é um instrumento, não é um fim.
E para nos humanizar, eu falei para você, tem que ter o nome é do grego humano. [risadas] >> Padre, eu tô preocupado com seu tempo. Eu vou fazer duas perguntas em uma. Como ajudar o trabalho que o senhor realiza pela Igreja São Miguel Arcanjo da Moca? A primeira pergunta, como as pessoas podem ajudar, principalmente quem não é de São Paulo, porque quem é de São Paulo vai ter mais facilidade.
A segunda, o senhor teria alguma orientação para quem tá na rua, se depara com uma pessoa em situação de rua e por vezes diz assim: "Eu não vou dar dinheiro porque eu não sei se vai usar o dinheiro para beber, para droga, para craque? Eh, que que eu faço? Como é que eu posso ajudar? O que que tá ao meu alcance fazer? Porque eu não tenho o dia para parar e conversar com essa pessoa.
Eu preciso ser mais pragmático. Haverá quem coloque a culpa no tempo dizendo: "Eu tô de passagem, mas eu quero ajudar essa pessoa". Senhor teria alguma dica de como a gente se torna mais presente e menos omisso no socorro a quem tá em situação de rua? >> Eu eu pergunto assim, primeiro eu tenho uma coisa que todo mundo pode fazer e não custa nada para ninguém. Mude o lugar social, faça aquilo que nos diz o grande Leonardo Bof.
Todo ponto de vista é a vista a partir de um ponto. Então, olhe, procure ler o mundo a partir de quem está embaixo, não a partir de quem está em cima. Eu também cito muito a Simone de Beboá quando ela diz: "Os opressores não teriam tanto poder se não tivessem cúmplices entre os oprimidos". Então, eh, muitas vezes, como Paulo Freire nos ensinou, o pobre pensando com a cabeça do rico, o negro pensando com a cabeça do branco, a mulher pensando com a cabeça do homem. Então, isso é muito importante, a gente mudar a nossa maneira de pensar, mudar a nossa maneira de agir.
Você pode, olhando um irmão de rua, dizer para ele: "Aí, irmão, valeu, tá tudo bem? Você não precisa dar nada. Dê um pouco do teu sorriso, do teu olhar, seja humano aquilo que o Jung diz. Você pode saber todas as técnicas, mas diante de um ser humano, seja humano. Eu acho que essa a grande questão.
Seja humano. Trate o morador de rua como você gostaria de ser tratado. Eh, a gente trata mal até o gari, trata com indiferença o ascensorista, trata com indiferença o o pessoal que faz a limpeza. Você pode, no tempo de calor ter uma garrafinha de água e quando encontrar um morador de rua, um catador, ofereça água. Ah, ofereça água.
Nada disso vai mudar, mas isso te faz pensar uma maneira diferente para que nas grandes decisões econômicas, políticas, eh, da nação, você também eh não busque o que é melhor para mim. Eu tenho que buscar o que é melhor pro meu irmão. Esse é o amor. Quem ama busca o melhor paraa pessoa amada. Nós temos que ser capazes de amar os povos indígenas, de amar a floresta, de amar os quilombolas, de amar os moradores de rua também.
Não é um sentimento. Quando eu era criança, dizia o o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxa. Eh, hoje o amor [risadas] é uma decisão política, é uma decisão econômica. Eh, agora nas eleições municipais, vote pensando nos pobres, vote pensando nos mais sofridos. Eh, não tem ninguém que tenha proposta acabado e correta, mas eu posso ajudar de muitas maneiras.
No meu Instagram tem na bi a uma forma de ajudar a nossa comunidade, mas eu gosto mais que as pessoas ajudem. Não falem mal dos irmãos de rua. Não discriminem. Não sejam homofóbicos. Não sejam LGBTfóbicos.
Sejam solidários, sejam eh não sejam medíocres, sejam pessoas que as que sintam a diferença. Olhe pro irmão de rua, pergunte para ele o nome, faça um aceno, faça um positivo para ele, faz um gesto de carinho, de atenção, não despreze quem não pode se defender. Todos nós podemos fazer isso. Pode não dar certo. Tem hora que tem algum que tá mais alterado, que tá com mais dificuldade, mas todos eles não perdem a sensibilidade.
Eles sabem muito bem quem age com medo e agem e sabem muito bem quem age com amor. >> São coisas rápidas e simples. >> Uma última pergunta agora é para terminar porque eu tô com aquele compromisso com o senhor. O senhor já tá em cima do laço. Eu não poderia deixar de reportar um fato lamentável, deplorável, de um incidente envolvendo o senhor e que levou o senhor com muita acuidade, com muita clareza, se sentir ameaçado.
O senhor teve a percepção e há testemunhas de quem esteja eh acompanhando seus movimentos de forma a intimidá-lo. E obviamente numa situação como essas a gente não pode desprezar até risco de acontecer qualquer coisa pior. Eu de público, eu falo por mim, pessoa física, eu não tô aqui representando nada ou ninguém. Uma das razões dessa live era de de público eh hipotecar total apoio e repúdio a qualquer ato, por menor que seja, que vá na contramão do entendimento, da ordem de grandeza e da importância do trabalho que o senhor desenvolve. Eu preciso perguntar, eu sei que o senhor realiza o seu trabalho focado naquilo que importa fazer e que o senhor vem fazendo a tanto tempo.
Mas há algo que o senhor gostaria de dizer em função dessas ameaças, por que que isso tá acontecendo? E o que que as pessoas que lê ajudam, lhe dão suporte, admiram o seu trabalho, podem fazer? Acho que nós temos que desmontar a máquina do ódio, temos que desmontar essa cultura do ódio, desmontar essa cultura que liberou eh o ódio. Eh, nós temos que viver numa sociedade pluralista. As pessoas pensam de maneiras diferentes.
Eh, a democracia exige o respeito múltuo, as diferenças. Eu até convido essas pessoas, você sabe, André, eh, já na minha vida, eh, quatro pessoas depois de muitos anos vieram me dizer: "Eu ia matar você". eh eh tava tudo encomendado e me disse como não como, por que que não conseguiu e se arrependeu e depois veio pedir perdão. E essa pessoa que me insultou nesses dias com a moto esteve essa semana aqui, eu ainda não falei isso ainda eh publicamente. Você tá sendo o primeiro lugar que eu estou falando.
veio e eu estava dentro do carro já para ir embora quando essa pessoa chegou, porque sempre alguém me leva de um lado pro outro e disse: "Eu sou o cara da moto". E aí eu abri a porta do carro e me levantei, fui até até ele. Ele disse: "Eu vim te pedir perdão". Falei: "Fica tranquilo, filho. Fique em paz".
Eh, ele tinha depois eu estive na delegacia, soube que ele tinha estado na delegacia, mas ele não falou na delegacia o insulto que ele me fez. Ele disse que não sabia que era eu, mas sabia sim. E falou: "Padre". E e Mas enfim, eh eu não quero nutrir ódio, ódio por ninguém. E principalmente o que mais me fere é a dor dos irmãos de rua.
É eles apanharem da polícia, terem suas coisas subtraídas, tiradas pelo rapa. Então, nós precisamos eh e eu e e muitos ficam me cobrando, por que que você não aceita escolta? Eu não quero escolta. Eh, eu quero que o povo da rua tenha condições de viver, que todos que estão em situação de rua sejam tratados com dignidade, tem um lugar para dormir, para morar, que não sejam esses albergues onde eles são tutelados, mas que eles tenham a liberdade de viver. Acho que a gente aqui fala muitas coisas que precisariam depois ser um pouco mais destrinchadas, mas eh acho que a gente deve eh superar todo tipo de ódio, todo tipo de raiva e todo tipo de querer eliminar os outros.
Nós não podemos eliminar ninguém, mesmo que não me agrade, mesmo que eu não concorde, eh eu tenho esse direito. Ele tem esse direito também. O que nós não podemos é ferir dos outros e que, eh, destruir o outro. porque ele age de maneira diferente. A mudança vai ser conflitiva, porque mudar não é fácil.
Mudar não é fácil, mas todos nós temos essa capacidade. Temos a capacidade de mudar e sermos mais humanos. >> Padre, foi uma bênção, foi um bálsamo ouvi-lo nesses tempos difíceis falar. É inspirado por Jesus, pelo evangelho, ajudar a gente a não ter o coração fechado, empedernido, indiferente à dor que se multiplica nesses tempos bicudos, econômicos em função da pandemia também. e sinalizando pelo seu exemplo, mais do que por suas palavras, que há uma maneira da gente ser uma sociedade mais fraterna, inclusiva e sensível àeles que hoje estão em situação difícil, sabe, lá Deus amanhã, né, padre, se não somos nós, >> estamos numa dificuldade aflitiva.
>> Então, eu tenho certeza que num dado momento tínhamos quase 4700 pessoas há pouco acompanhando essa sua eh aula. de fraternidade, compaixão e fratelitute. A encíclica do Papa tá chegando para reforçar tudo que o senhor disse. >> Isso mesmo. E que nós aguardemos com muito carinho essa encíclica.
O Francisco hoje, você sabe bem disso, André, é a única voz no mundo com autoridade ética e moral para dizer aquilo que a humanidade precisa ouvir. O Francisco hoje é uma grande esperança pra humanidade, que nós recebamos essa encíclica de coração aberto e sejamos irmãos de todos. André, você é meu irmão. Todos que estão nos acompanhando, somos irmãos e irmãs e vamos juntos construir o sonho que tantos lutaram, como Dom Pedro Casaldáiga, como Bartolomeu de Casas, como Dom Paulo Evaristo, como Dom Luciano, como Irmã Dorot, como Margarida Alves, como Santo Dias, como Ezequiel Ramim, como Josimo, como Zumbi e Antônio Conselheiro. >> Opa, fica com Deus.
Ótimo dia e bom trabalho, padre. Tudo de bom. Gratidão. >> Obad. Deus abençoe.
Tudo de bom.
