Ambiente Brasil

Mônica Pinto

Jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela UFRJ, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, André Trigueiro tornou-se referência no conceito de Jornalismo Ambiental – de cuja Rede Brasileira é membro. Coordenador Editorial e um dos autores do livro Meio Ambiente no Século XXI (Editora Sextante, 2003), desde 96 ele vem atuando como repórter e apresentador do “Jornal das Dez” da Globo News, canal de TV a cabo onde também produziu, roteirizou e apresentou programas especiais ligados à temática socioambiental. Pela série Água: o desafio do século 21, de 2003, recebeu o Prêmio Imprensa Embratel de Televisão e o Prêmio Ethos – Responsabilidade Social, na categoria Televisão.

Na equipe da Globo, André Trigueiro participou das coberturas das Olimpíadas de Sidney, na Austrália, em 2000, e da Copa do Mundo de 2002, na Coréia do Sul e Japão . Hoje, é comentarista da Rádio CBN (860 Kwz), onde apresenta aos sábados e domingos o quadro “Mundo Sustentável”, e consultor e articulista do site www.ecopop.com.br.

AmbienteBrasil – O senhor é autor de um livro que reúne as opiniões de 21 especialistas em diversos campos, convidados a discorrer sobre a transversalidade em suas áreas de atuação. O que se pode depreender dessas análises? Há como se obter uma interface ambiental em todos os planos do conhecimento?

André Trigueiro – Não há dúvidas de que a questão ambiental alcança indistintamente todas as áreas do saber e do conhecimento. Se entendermos que “meio ambiente somos nós, o meio que nos cerca e as relações que estabelecemos com esse meio”, penetramos num universo que se desdobra na direção do infinito, e que se revela tal qual os físicos quânticos o descrevem desde o início do século passado, como uma rede de fenômenos interdependentes, que interagem o tempo todo.

Estamos todos mergulhados na teia da vida e precisamos urgentemente descerrar o véu da ignorância para descobrir o valor da sustentabilidade. Se não formos sustentáveis, estaremos condenados ao desaparecimento enquanto espécie. O livro “Meio Ambiente no século 21” reúne um estoque precioso de informações que denunciam um modelo de desenvolvimento “ecologicamente predatório, socialmente perverso e politicamente injusto”, sinalizando rumo e perspectiva para os leitores.

AmbienteBrasil – Qual o perfil do chamado Ecojornalismo e de que maneiras ele pode contribuir para uma melhor consciência ambiental em grande escala?

André – Entendo que o jornalismo ambiental abre caminho para o entendimento de que a escassez de recursos hídricos, o consumismo desenfreado, a monumental produção de lixo, o aquecimento global, a manipulação inescrupulosa dos genes, a destruição acelerada da biodiversidade, a esterilização do solo, o agrupamento insustentável de pessoas em grandes centros urbanos, entre outras questões fundamentais, merecem mais espaço na mídia. Não apenas espaço, mas o devido tratamento. Entendo que sobre esses assuntos não há imparcialidade. Assim como não sou imparcial com a corrupção e a escravidão, não sou imparcial com a insustentabilidade. Nesse sentido, o jornalismo precisa se posicionar com clareza em defesa da vida, e da qualidade de vida.

AmbienteBrasil – No que consiste o Movimento de Manada, que o senhor associou, em uma palestra, ao atual projeto civilizatório?

André – Como explicar um projeto de civilização que exaure numa escala sem precedentes os recursos naturais não renováveis fundamentais à vida? É suicida. Não há outra palavra que o defina melhor. Ainda assim, os atuais meios de produção e de consumo, apontados como os maiores vilões ambientais da atualidade por diversas organizações sérias e de credibilidade (PNUD, PNUMA, WWF, Wordwatch, etc.) se mantém imunes à qualquer questionamento ou iniciativa de reformulação por parte do poder político e dos grandes grupos econômicos. O movimento de manada é este, alienado e insano, na direção do imediatismo, do lucro fácil e rápido, do projeto individual em detrimento do coletivo, da globalização assimétrica (que privatiza o lucro e democratiza o prejuízo), da indiferença à lenta agonia de um planeta que dá evidentes sinais de saturação. O movimento de manada é esse que nos projeta na direção do abismo sem que haja espaço para a reflexão, para o questionamento do modelo, para a revisão dos conceitos já estabelecidos e que se cristalizam como dogmas de uma fé tragicamente cega.

AmbienteBrasil – O senhor também já defendeu “uma nova maneira de fazer jornalismo”. O que ela preconiza?

André – Cuidado com as palavras e as imagens para que não se replique a violência e a desesperança. Se há violência no mundo, o jornalismo não pode se omitir. Porém, não se justifica o sensacionalismo e os conteúdos apelativos que se vê com freqüência na mídia. Não é preciso mostrar sangue e pedaços de corpos para informar que uma guerra é fratricida. Pode-se informar sobre as guerras sem ser apelativo. Essa nova maneira de fazer jornalismo poderia também dar status de notícia a alguns assuntos ambientais que só ganham destaque em situações de tragédia. Grandes vazamentos de óleo, por exemplo, sempre rendem manchetes. Mas novas tecnologias no setor de energia em substituição ao petróleo ficam relegadas às revistas científicas. Meio ambiente não pode ser destaque apenas em situações de crise.

AmbienteBrasil – O senhor já apresentou um programa especial chamado “Planeta Estufa”. Qual a sua opinião sobre as mudanças climáticas globais?

André – Este vinha sendo o assunto dominante nos debates internacionais até os atentados de onze de setembro. Não há mais dúvida de que a humanidade contribui efetivamente para o aquecimento global. Ainda não é possível, entretanto, precisar em que medida contribuímos para o fenômeno. As conseqüências do aquecimento sobre o clima do planeta ainda estão sendo estudadas, mas o que já se sabe é suficiente para alarmar as autoridades e justificar o Tratado de Quioto, em vigor desde 16 de fevereiro passado. Mas o Tratado não resolverá o problema. Pelo acordo, os países industrializados deverão reduzir suas emissões de gases estufa entre 2008 e 2012 em aproximadamente 5 %, quando o mínimo necessário, segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU, seria um percentual mínimo de redução da ordem de 60%. Mas é um começo, e isso, por si, já é bastante positivo. Para o próximo período de compromisso, depois de 2012, os países em desenvolvimento, principalmente China, Índia, Brasil e Indonésia deverão ter compromissos formais de redução. Mas sobre esse assunto, ainda estamos muito longe de um consenso. Creio que o agravamento das intempéries climáticas – respondo a essa entrevista um dia depois de meteorologistas brasileiros e estrangeiros reunidos em um congresso concordarem que o fenômeno Catarina foi mesmo um furacão, o primeiro a aparecer por estes lados – deverá acelerar as negociações do clima na direção que interessa: a da redução drástica das emissões de CO2 e dos demais gases estufa.

AmbienteBrasil – O senhor acredita que o mercado de carbono, alavancado pelo Protocolo de Kyoto, será eficaz no sentido de minimizar esses efeitos?

André – É preciso avaliar com cuidado o funcionamento desse mercado e verificar os reais benefícios na contabilidade das emissões. Pouco adiantará se o mercado de carbono “alavancar” investimentos na direção de projetos de energia limpa, reflorestamento e seqüestro de carbono em aterros de lixo nos países em desenvolvimento, se as emissões globais de gases estufa não forem drasticamente reduzidas. De qualquer maneira, é importante reconhecer que esse mercado foi uma solução criativa apresentada pelo Brasil, e que livrou as negociações do clima de um impasse perigoso.

AmbienteBrasil – Com o programa “Água: o desafio do século 21”, o senhor recebeu o prêmio Embratel de Televisão e o Prêmio Ethos de Responsabilidade Social. De que maneiras responsabilidade social e ambiental podem se entrelaçar?

André – O meio ambiente começa no meio da gente. O cuidado com a natureza começa com o cuidado com a gente. A ambientalista queniana Wangari Matthai conquistou em 2004 o Prêmio Nobel da Paz pelo belíssimo trabalho à frente do Green Belt Movement (Movimento Cinturão Verde). Num país como o Quênia, onde o setor de infraestrutura é completamente ineficiente, a população devasta as florestas para retirar lenha e produzir energia para aquecer os lares e cozinhar. O desaparecimento de extensas áreas verdes exauriu a biodiversidade, fez sumir os animais, secou os rios, e a vida se tornou um pesadelo. A solução para milhares de pessoas foi migrar para as cidades reproduzindo uma realidade bastante conhecida no Brasil: multiplicação de favelas em condições insalubres, degradação da qualidade de vida, falta de oportunidades e de empregos, aumento dos índices de violência. Existe uma relação estreita entre qualidade de vida e meio ambiente.

AmbienteBrasil – Como apresentador do quadro “Mundo Sustentável”, na rádio CBN, que exemplos mais chamaram sua atenção no aspecto do desenvolvimento econômico associado a preservação dos recursos naturais?

André – Há inúmeros exemplos interessantes registrados no site da rádio onde os comentários podem ser acessados via internet (http://radioclick.globo.com/cbn/). Um exemplo que eu adoro é o do biodigestor para tratamento de esgoto doméstico, um modelo alternativo e de baixo custo que assegura a eliminação de microorganismos nocivos à saúde e ainda gera energia através do gás metano. Em Petrópolis, a experiência desenvolvida pelo Instituto Ambiental (www.oia.org.br) com base na experiência desenvolvida pelos chineses deu tão certo, que tem justificado investimentos da Prefeitura de Petrópolis e da concessionária privada de águas e esgotos da região – Águas do Imperador – em obras de saneamento para comunidades de baixa renda na região.

AmbienteBrasil – Qual poderia ser classificado como “o mais grave problema ambiental do Brasil hoje”?

André – Destruir a Floresta Amazônica e o cerrado para plantar capim ou soja. É de uma burrice inominável. Deveremos pagar um preço caro pela nossa sanha de lucro imediato e pelas enormes dificuldades de viabilizar agora os investimentos necessários para pesquisa na área da biotecnologia, com o objetivo estratégico de colher mais tarde muito mais recursos com remédios e vacinas, e uma série de subprodutos florestais como ensinava Chico Mendes quando defendia a exploração da “floresta em pé”. Mas a falta de saneamento (apenas 20% dos esgotos recebem algum tipo de tratamento), o crescimento das favelas (no Rio de janeiro, apenas para citar um exemplo, um milhão de trezentas mil pessoas vivem em favelas, que crescem a uma taxa muito superior que as construções “legalizadas” devido à falta de financiamento para que famílias de baixa renda possam ter casa própria, o comércio ilegal de animais silvestres e a falta de políticas públicas destinadas à educação ambiental são enormes problemas que deveriam justificar mais atenção e recursos.

AmbienteBrasil – Onde o país avançou?

André – Na Florestania, conceito de cidadania ecológica que inspirou investimentos importantes no Acre em defesa da exploração sustentável dos recursos florestais. Na multiplicação dos comitês de bacia, encarregados de assumir o planejamento das bacias hidrográficas com a participação de diversos setores da sociedade civil. Na exploração do gás metano retirado do maior aterro sanitário de São Paulo (Bandeirantes) para produzir e gerar energia para duzentas mil pessoas. Na estruturação das redes ambientais que organizam o debate e definem a hora e o modo de agir em favor da sustentabilidade. Na atuação de organizações como IDEC e Akatu em favor do consumo consciente. Eu poderia ficar aqui algum tempo citando todos os bons exemplos que inspiram a nossa luta em favor de um mundo melhor e mais justo. Em resumo: tenho motivos para ser otimista. Mas tenho pressa de ver a mudança porque não sei quanto tempo o planeta pode esperar.

AmbienteBrasil – Em linhas gerais, como o senhor avalia a política ambiental do Governo Lula?

André – Admiro Marina Silva e tenho por ela um profundo respeito. Mas ela sozinha pouco pode. Reconheço o enorme esforço que a ministra tem feito para emprestar sentido à “transversalidade” dentro do governo. Houve avanços nesse sentido, é preciso reconhecer. Mas o fato é que o governo Lula está em dívida com o meio ambiente. A atual política desenvolvimentista, nas suas diretrizes fundamentais, remonta às décadas de 50 e 60. O mundo mudou. Toda política de desenvolvimento que não é sustentável é equivocada e ultrapassada por princípio. É o que a ONU vem preconizando desde a Rio-92. Defender a sustentabilidade na gestão pública – não por palavras, mas por atos e com recursos – é estar em sintonia com as demandas políticas, sociais e ambientais do nosso tempo.