Por Daniela Kussama | março 5, 2018 10:32 am

Por: Stephanie D’Ornelas, especial para a Gazeta do Povo.

Fonte: Gazeta do Povo

 

O escritor e jornalista André Trigueiro não tem medo de defender seus ideais em prol do meio-ambiente. Mesmo que receba rótulos como “ecochato” ou “biodesagradável”, nas palavras dele. Afinal, para o ambientalista, “vale a pena fazer o bem, e o mundo só será um lugar melhor e mais justo se for sustentável”, afirma.

O apresentador e editor-chefe do programa Cidades e Soluções, da GloboNews, foi um dos nomes de peso que compuseram a programação do Smart City Expo Curitiba 2018, primeira edição brasileira do maior evento sobre cidades inteligentes do mundo, o Smart City Expo World Congress, que acontece anualmente em Barcelona.

Em sua palestra no segundo e último dia de congresso, nesta quinta-feira (1), Trigueiro destacou que se a forma de fazer política no Brasil continuar a mesma, nossas cidades nunca irão melhorar. “Existe uma maldição sobre a administração pública brasileira, que é a descontinuidade administrativa e os interesses casuísticos, oportunistas de políticos que não privilegiam o interesse público”. E completou: “A gente não fala de soluções mágicas, mirabolantes ou extremamente caras [para tornar as cidades inteligentes]. A gente fala da capacidade de aglutinar forças que façam a cidade avançar numa agenda que seja do interesse público. Isso é suprapartidário, extrapola tempo de mandato, e precisa estar calcado na palavra planejamento.”

 

Nem o básico a gente tem

Frisou ainda que o Brasil ainda tem um longo caminho pela frente quando se trata de cidades sustentáveis. Uma de suas principais críticas é a falta de saneamento básico no país. “Não basta coletar; coletado não é tratado. Mais de 100 milhões de brasileiros não têm esgoto tratado, isso é uma vergonha”, diz. Ele cita soluções encontradas pelo país com biodigestores, capazes de gerar gás e adubo a partir dos excrementos. Um dos exemplos apontados foi o projeto da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) que está gerando energia por biogás como alternativa para os resíduos do esgoto, aliando eficiência e baixo custo.

 

Inovação contínua

Em relação a Curitiba, o jornalista e sumidade em sustentabilidade declarou que, apesar da capital paranaense ter alcançado o reconhecimento mundial por suas soluções urbanísticas do passado, não pode se acomodar com a fama. “A fase lá de trás do Lerner passou, tem que se fazer ajustes em soluções que durante algum tempo funcionaram muito bem, mas que hoje precisam de algum tipo de mudança. Algumas iniciativas de vinte anos atrás ainda merecem ser chamadas de inteligentes e sustentáveis, outras talvez já precisem de alterações. Porque o mundo é dinâmico, e a gente precisa descobrir sempre o que funciona das soluções antigas e quais são as novas experiências que podem ser introduzidas em benefício de todos”, opina ele.

 

Residências para uma cidade sustentável

Trigueiro destacou a iniciativa das cidades brasileiras que aderem ao IPTU Verde – legislações municipais que isentam ou reduzem o imposto de proprietários de imóveis que cumpram uma série de determinações que contribuam com a sustentabilidade e preservação do meio-ambiente –, incluindo Curitiba, Salvador, Guarulhos e Cuiabá. O programa funciona de maneira diferente em cada localidade, e, em algumas delas, está incentivando cidadãos a trocarem o chuveiro elétrico por opções sustentáveis.

“O Brasil é campeão mundial em chuveiro elétrico. É um país que só deve perder em insolação para a Austrália. O sol é generoso, até em Curitiba, e a gente desperdiça o sol em favor de um eletrointensivo que tem um custo caríssimo logístico para o país”. Iluminação e ventilação natural, captação de água de chuva, solo permeável e telhado verde são outros itens que ele numerou como essenciais para a garantia de residências e cidades sustentáveis.

 

Reflexões sobre o descarte

“Um smartphone não pode durar apenas quatro anos e virar lixo eletrônico. A grande indústria gosta de obsolescência programada, de curto prazo”, sublinhou Trigueiro na palestra. “Eu não sou analista de mercado, mas ouso dizer que quem ganha dinheiro com plástico descartável vai se dar mal. E não é só saquinho plástico de supermercado e garrafa PET, é também cápsula de café, isopor. No Brasil há três mil lixões ou aterros irregulares que impactam a qualidade de vida de 77 milhões de brasileiros. Não é possível falar de smart cities sem encarar essa dura realidade. Nenhum país do mundo que se diga desenvolvido chegou lá sem cuidar de seus resíduos e excrementos de forma adequada”, afirma. Para ele, nada é mais efetivo para mudar essa realidade do que educação de qualidade com ênfase no estudo ambiental.