05 de Janeiro

O Dia da Infâmia

Há exatos dois meses um tsunami de lama sepultava a bacia do Rio Doce e levava junto a imagem de uma mineradora que se orgulhava de ser a 1ª do mundo a obter a certificação ISO 14.001 (de gestão ambiental).

Se no mundo corporativo repete-se como um mantra que é preciso proteger a todo custo a “imagem, o prestígio e a reputação” de uma empresa, como explicar que a Samarco tenha cometido tantos erros?

O que dizer, por exemplo, do rudimentaríssimo sistema de alerta por telefone, que tentou – sem sucesso – “ligar” para as pessoas de Bento Rodrigues para que deixassem imediatamente o local? Nem o líder comunitário – que num primeiro momento a Samarco disse ter acionado – foi efetivamente contactado. Valeu a pena a economia obtida com a não instalação de um sistema de sirenes ou alto-falantes? É possível que o número oficial de mortos até agora (17) fosse menor, se os sistemas de alerta fossem mais eficientes.

Como explicar que 60 dias após a tragédia não se saiba ainda a causa do rompimento da barragem? Como justificar que a Samarco só tenha desembolsado algum dinheiro para remediar minimamente situação dos desabrigados (R$20 mil e o custeio de alojamentos provisórios) após cobranças insistentes do Ministério Público? O que explicaria o fato da empresa só ter se dignado a mobilizar recursos para o resgate e tratamentos dos muitos animais atingidos pela onda de lama após sucessivos apelos do mesmo Ministério Público?

Qual o plano de revitalização da bacia do Rio Doce, quanto custa e quem paga?

Qual a dimensão dos impactos acusados pela lama de rejeitos que ainda se expande no litoral capixaba?
Foi tão escandalosa a omissão da empresa (e de suas acionistas Vale e BHP Billiton), bem como das diferentes esferas de governo – com sistemas fragilíssimos de licenciamento e fiscalização – que a maior tragédia ambiental do Brasil mereceu um puxão de orelhas público da ONU.

Especialistas das Nações Unidas classificaram de “inaceitável” a resposta do governo e das empresas ao desastre de Mariana.

“As providências tomadas pelo governo brasileiro, a Vale e a BHP para prevenir danos foram claramente insuficientes. As empresas e o governo deveriam estar fazendo tudo que podem para prevenir mais problemas, o que inclui a exposição a metais pesados e substâncias tóxicas. Este não é o momento para posturas defensivas”, disseram os técnicos da ONU que acompanharam de perto a situação.

A tragédia de Mariana se transformou num case internacional (negativo) de como não se deve licenciar uma atividade mineradora, como não se deve fiscalizá-la, como não se deve operá-la, como não fazer contenção de danos ou remediação de desastre.

Resta a esperança de que todas as muitas promessas de ressuscitação da Bacia do Doce sejam cumpridas. Mas isso só acontecerá de fato se a tragédia de Mariana não cair no esquecimento. Que o dia 5 de novembro seja sempre lembrado como o dia da infâmia.

 

André Trigueiro

 

 

Fonte: G1 – Blog Mundo Sustentável

 

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29 de Dezembro

​O outro lado de 2015

Resumirei em tópicos – com breves comentários – acontecimentos de 2015 que sugerem cautela aos que apressadamente amaldiçoam esse ano como absolutamente “ruim” ou “perdido”. Para confundir os pessimistas, decidi que a minha lista só contém notícias boas. É evidente que foi um ano com dificuldades extremas, e notícias terríveis como o maior desastre ambiental do Brasil (a famigerada lama de rejeitos da Samarco), o aumento do desmatamento na Amazônia, a elevação das emissões de gases estufa no Brasil, entre outras ocorrências lamentáveis. Mas destacarei aqui o lado cheio do copo, como se diz. É pra dar sorte em 2016!

– A Encíclica Verde do Papa Francisco: Pela 1ª vez na História da Igreja uma encíclica elege o meio ambiente como tema central, apontando a humanidade como responsável por um modelo de desenvolvimento que gera miséria e pobreza, ao mesmo tempo em que devasta os recursos naturais fundamentais à vida. A Encíclica “Laudato Si” repercutiu dentro e fora da Igreja, inspirando mais comprometimento e atitude em favor da nossa “casa comum”.

– Os 17 ODS: Depois das 8 metas do milênio – que balizaram as políticas públicas de muitos países do mundo, inclusive o Brasil – foram aprovados os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Esse conjunto de metas resume os principais anseios da civilização na busca por um mundo melhor e mais justo. No calendário das negociações multilaterais conduzidas pela ONU, foi um dos encontros mais importantes do século.

– COP21: Foi celebrado em Paris o primeiro acordo global vinculante do clima, com força de lei internacional, determinando o compromisso coletivo – de todos os países do mundo – em reduzir as emissões de gases estufa. Embora o texto não apresente claramente metas e prazos – apenas a intenção de não permitir a elevação da temperatura média do planeta acima de 2ºC neste século – foi um passo importante para a implementação de uma economia de baixo carbono. É definidor de rumos para o setor público, para investimentos privados, e para as mobilizações do terceiro setor.

– Crise Hídrica: O Supremo Tribunal Federal evitou a judicialização da disputa pelas águas da Bacia do Paraíba do Sul arbitrando um acordo técnico com representantes de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Pelo acordo, foram acertados os limites de retirada de água de cada Estado, definidos por estudos técnicos sem interferência política. Uma solução salomônica, que impediu brigas inócuas e patéticas. Na região Sudeste, não se confirmaram os piores cenários de desabastecimento. As chuvas nesta reta final de 2015 ajudaram bastante na recomposição parcial dos reservatórios. Mas o alerta para 2016 continua.

– Energia Solar: A Tesla Motors lançou baterias solares para uso doméstico (PowerWall) e para uso industrial (PowerPack) que permitem o armazenamento inteligente desta fonte de energia limpa e renovável. É o ponto de partida para uma revolução no setor energético, com a possibilidade de estocarmos sol e vento em baterias mais potentes. Elon Musk, dono da Tesla, abriu mão da patente dessas baterias abrindo caminho para que outros produtos – inspirados nesses lançamentos – cheguem logo ao mercado. No Brasil, os primeiros leilões para seleção de empresas interessadas em investir energia solar tiraram o país da inércia: nos próximos dois anos veremos se multiplicar pelo país a primeira geração de grandes empreendimentos solares.

– Energia Eólica: Em apenas 5 anos a energia do vento realizou a proeza de produzir energia elétrica para aproximadamente 35 milhões de brasileiros. A energia eólica do Brasil virou um case internacional, seja pelo fator de capacidade dos parques brasileiros (nossos ventos são considerados por muitos especialistas os melhores do mundo, especialmente no Nordeste) seja pelo modelo de negócio que manteve-se em alta apesar da crise econômica (com leilões disputados sempre com deságio, e investimentos milionários previstos para os próximos anos sem subsídios).

– Uma Doce esperança : A degradação da bacia do rio Doce vem de longe, muitos antes  do lamaçal da Samarco (que ficou exposta à execração pública pela sucessão de erros cometidos antes, durante e depois da tragédia). Após essa terrível catástrofe, o Brasil tem a chance de realizar, ao mesmo tempo, as seguintes ações:
1) A revitalização da Bacia do Rio Doce totalmente custeada pela Samarco/Vale/BHP Billiton. Isso só será possível com Ministério Público, Justiça, governantes e a sociedade civil mobilizados e mantendo o assunto em evidência.

2) Um outro Código da Mineração em lugar daquele desenhado no projeto do deputado Leonardo Quintão (PMDB/MG) que só atendia aos interesses das mineradoras, que aliás, financiaram a campanha dele. O lobby da mineração é forte, mas esmoreceu depois da tragédia de Mariana.

3) Um amplo projeto de revitalização das bacias hidrográficas brasileiras, todas historicamente degradadas e abandonadas à própria sorte. Os chamados comitês de bacia (criados a partir da Lei Nacional de Recursos Hídricos, há quase 20 anos) tem limitações técnicas e orçamentárias. Um pacto pelas águas – nesta guerra que deve ser perene contra a escassez – passa por um novo modelo de gestão, uma nova governança das bacias brasileiras.

Que possamos fazer mais e melhor em 2016!

 

André Trigueiro

 

 

Fonte: G1 – Blog Mundo Sustentável

 

 

 

 

 

 

 

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14 de Dezembro

A COP21 já foi. E agora, como será?

O acordo do Clima aprovado em Paris neste sábado (12) não resolve o problema do aquecimento global, apenas cria um ambiente político mais favorável à tomada de decisão para que os objetivos assinalados formalmente por 196 países seja alcançado.Como todo marco regulatório, o acordo estabelece apenas as condições para que algo aconteça, e, nesse caso, não há sequer prazos ou metas. As propostas apresentadas voluntariamente pelos países (INDCs) passam a ser consideradas “metas” que serão reavaliadas a cada 5 anos, embora a soma dessas propostas não elimine hoje o risco de enfrentarmos os piores cenários climáticos com a iminente elevação média de temperatura acima de 2ºC.Sendo assim, o que precisa ser feito para que o Acordo de Paris faça alguma diferença para a Humanidade? A COP-21 sinaliza um caminho. Para segui-lo, é preciso realizar muito mais – e melhor – do que tem sido feito até agora. A quantidade de moléculas de C02 na atmosfera já ultrapassou as 400 ppm (partes por milhão), indicador que confirmaria – segundo o Painel Intergovernamental de Mudança Climática da ONU – a progressão rápida da temperatura acima dos 2°C.

Paris, por si, não muda essa realidade. Falta arregaçar a manga e transformar discurso em atitude. Como o acordo não obriga os países a realizarem “algo mais” além daquilo que alguns já se propuseram a fazer, há uma imensa lacuna que só poderá ser preenchida com firmeza, determinação e muita coragem para enfrentar, por exemplo, certos lobbies.

 

Veja abaixo a minha participação na GloboNews comentando a Cop-21:

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A decisão mais urgente deveria ser a eliminação gradual dos U$ 700 bilhões anuais em subsídios para os combustíveis fósseis. Sem essa medida, como imaginar que a nossa atual dependência de petróleo, carvão e gás (75% da energia do mundo é suja) se modifique no curto prazo?

Pra piorar a situação, apesar dos investimentos crescentes que acontecem mundo afora em fontes limpas e renováveis de energia (solar, eólica, biomassa,etc) nada sugere, pelo andar da carruagem, que testemunhemos a inflexão da curva de emissões de gases estufa. Segundo a vice-presidente do IPCC, a climatologista brasileira Thelma Krugg, a queima de combustíveis fósseis segue em alta e não há indícios de que isso se modifique tão cedo.

Estimular a compra de veículos automotores – com a redução do IPI, por exemplo – não é algo compatível com o Acordo de Paris, assim como a prorrogação do prazo para a existência de lixões no Brasil – a decomposição da matéria orgânica provoca emissões importantes de metano (CH4) que é um gás de efeito estufa – recentemente aprovada pelo Congresso. A recente elevação das taxas de desmatamento na Amazônia fez acender a luz amarela nas rotinas de fiscalização e punição dos criminosos. Como admitir que apenas 3% das multas aplicadas pelo IBAMA desde 2011 tenham sido pagas?

Enquanto o analfabetismo ambiental prevalecer no meio político, a situação não deverá mudar tão cedo. É preciso adequar as políticas públicas ao norte magnético apontado pela bússola de Paris. Em 2016 teremos eleições para Prefeitos e Vereadores no Brasil.Importante que os candidatos sejam cobrados sobre o que pretendem fazer, por exemplo, em relação à construção civil (compromissos efetivos em favor das construções sustentáveis, que são bem mais eficientes no consumo de energia), mobilidade urbana (estimular transporte público de massa, criar programas de carona solidária, abrir espaço para pedestres e ciclistas, etc), expansão ou proteção das áreas verdes (bom para a saúde e bom para o meio ambiente, porque cada jardim ou floresta tem a capacidade de estocar C02 a um custo baixíssimo), entre outras medidas urgentes.

Como promover tamanho freio de arrumação em um planeta tão acostumado a emitir gases estufa sem um novo projeto educacional? Desde cedo a garotada precisa entender o gigantesco desafio civilizatório embutido no combate ao aquecimento global. Compreender o senso de urgência em torno do assunto é algo extremamente importante para essas novas gerações que deverão crescer – se nada for feito – num planeta onde o desequilíbrio climático já tem provocado eventos extremos (furacões, tornados, tufões, tempestades mais violentos), mudança do ciclo das chuvas (com impactos vorazes sobre hidroeletricidade e produção agrícola), elevação do nível do mar, inundação das áreas costeiras, aumento das doenças transmitidas por mosquitos (inclusive aquelas veiculadas pelo Aedes Aegypti como o Zika vírus e a terrível microcefalia).

O Acordo do Clima é certamente um dos maiores e mais importantes da história da diplomacia mundial. Mas não nos iludamos. Tal como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (adotada pela ONU em 1948) o Acordo sinaliza rumo e perspectiva, aponta o que é o certo, e se apresenta como um compromisso coletivo. Tornar o Acordo realidade exige atitude. Diária e obstinada.

André Trigueiro 
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Legenda da imagem da capa: Nuvens de fumaça de poluição são vistas perto da ponte Guomao, na área comercial de Pequim, na China, após a cidade emitir seu primeiro ‘alerta vermelho’ para a poluição do ar. Crédito: Reuters 

 

Fonte: G1 – Blog Mundo Sustentável

 

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02 de Setembro

Onde há vento, não há crise

Enquanto o Brasil amarga uma das piores crises econômicas de sua História, o vento pede passagem. A palavra crise passa longe da cadeia de produção de energia eólica, que já responde por 5% de toda a energia consumida no país (em 2023 deverão ser impressionantes 23%) com aproximadamente 40 mil empregos gerados, 11 fábricas instaladas – com demanda crescente de mão de obra especializada – e R$ 6 bilhões de investimentos previstos por conta dos leilões de energia já realizados.

É no Nordeste do país que os parques eólicos se multiplicam mais rapidamente. Ventos fortes e regulares determinam a atratividade do negócio que tornou o Brasil o 4º país do mundo que mais investiu nessa fonte em 2014, atingindo o 10º lugar no ranking internacional das nações que mais produzem energia eólica.

Destaque para o Rio Grande do Norte, que apesar da pequena extensão territorial, se tornou o grande provedor de energia do Brasil a partir do vento, com 34% de toda a capacidade instalada no país. São 81 parques eólicos em operação, 22 em construção e outros 77 já autorizados. Se a natureza foi generosa com os potiguares soprando os ventos que fazem a alegria dos investidores – e dos muitos proprietários rurais, invariavelmente pequenos, que recebem royalties pela energia gerada – os gestores públicos tentam fazer a parte que lhes cabe. Foram 2.500 licenciamentos ambientais concedidos em um estado onde não se leva mais do que 3 horas para abrir uma nova empresa.

Castigado por quase 5 anos de severa estiagem, o Nordeste deve aos parques eólicos (pelo menos até agora) a eliminação do risco de desabastecimento de água para abastecimento humano. Cada MW de energia gerado pelo vento permite que menos água saia dos reservatórios para esse fim. A região também se beneficia do fato de que é justamente nos períodos de seca que o vento sopra mais forte. Nos meses de chuva – quando chove – há menos ventos. A chamada “complementaridade” torna o sistema elétrico mais eficiente e seguro.

No último dia 11 de agosto, registrou-se um feito histórico: o fator de capacidade (o percentual de energia efetivamente gerado) dos ventos do nordeste foi de 80% – um recorde – muito acima, por exemplo, da média mundial que oscila na faixa dos 30%. Até o Diretor-Geral do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), Hermes Chipp, a quem cabe a pilotagem do sistema interligado nacional, declarou-se surpreendido com o desempenho do setor eólico. Sincero, ele também admitiu que mudou de opinião em relação a importância do vento na matriz energética brasileira. Se há 5 anos o clima era de desconfiança, pelo fato da energia eólica ser intermitente, hoje prevalece a certeza de que sem os ventos a situação seria muito pior.

Hermes Chipp foi um dos convidados da mesa redonda mediada por mim no primeiro dia de debates do  Windpower Brazil 2015, que acontece até amanhã no Rio de Janeiro reunindo mais de 2 mil participantes de 804 empresas nacionais e estrangeiras.

Quem quiser conferir de perto o evento deve se preparar para uma sensação estranha, uma espécie de vertigem, ao se deparar com uma avalanche de dados, números, estatísticas, projeções e depoimentos de quem parece distante da crise econômica do país. “Crise, que crise?”, é a pergunta que não quer calar quando o assunto é energia eólica.

Presidente executiva da Abeeólica, Associação Brasileira de Energia Éolica, Elbia Melo, fala em conferência.

Foto: Presidente executiva da Abeeólica, Associação Brasileira de Energia Éolica, Elbia Melo, fala durante conferência. Crédito: Arquivo Pessoal.

 

André Trigueiro

 

 

Fonte: G1 – Blog Mundo Sustentável

 

 

 

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01 de Setembro

Setembro amarelo

Quando a atriz Cássia Kiss apareceu na TV com os seios à mostra há 27 anos, ensinando as mulheres brasileiras a fazerem o autoexame para prevenir o câncer de mama, muita gente achou a campanha escandalosa e apelativa. O fato é que até hoje essa campanha é celebrada pela redução efetiva do número de casos da doença.

Pois é, na área da saúde pública sabe-se que a prevenção de qualquer doença se faz com informação clara e objetiva.

O que a maioria dos brasileiros ignora – e parte dos profissionais de saúde também – é que isso também vale para suicídio. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 90% dos casos os suicídios são preveníveis por estarem associados a patologias de ordem mental diagnosticáveis e tratáveis, principalmente a depressão. Ou seja, de cada dez casos de autoextermínio, nove podem ser evitados onde houver o diagnóstico preciso dessas patologias, o devido tratamento e a assistência das redes de cuidado e atenção.

É preciso abrir espaço para campanhas de prevenção e reverter as estatísticas num mundo onde aproximadamente 800 mil pessoas se matam a cada ano, 2.200 a cada dia, e um novo caso é registrado a cada 40 segundos. No Brasil, são aproximadamente 12 mil casos por ano, o que dá uma média de 32 suicídios por dia.

Ainda assim, por incrível que pareça, este continua sendo um assunto invisível, fora do radar da sociedade. E não é difícil identificar alguém na família, no círculo de amizades ou na vizinhança que já tentou se matar ou consumou o ato suicida. Pode-se dizer que boa parte dessas pessoas que desapareceram em circunstâncias tão violentas ainda estaria entre nós se os mais próximos soubessem como agir quando determinadas pistas ou sinais dão conta de que algo não vai bem.

Além dos sintomas característicos das psicopatologias associadas ao suicídio (depressão, transtornos relacionados ao uso de substâncias, esquizofrenia, transtornos de personalidade, etc) é importante acompanhar eventuais mudanças de comportamento que indiquem a tendência ao isolamento social, desinteresse generalizado, angústia e aflição, baixo rendimento escolar ou produtividade. São alguns indícios de que algo pode estar errado.

Para enfrentar o tabu em torno do assunto – e a brutal desinformação que agrava as estatísticas – celebra-se neste dia 10 de setembro o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. Para dar ainda mais visibilidade a esse grito de alerta em favor da vida, a Associação Internacional pela Prevenção do Suicídio (IASP) lançou o movimento Setembro Amarelo, que tenta associar esta cor à causa da prevenção do autoextermínio. A ideia é pintar, iluminar e estampar o amarelo nas mais diversas resoluções por aí.

É possível que a campanha não tenha o mesmo efeito que o autoexame da Cássia Kiss. Mas é um começo. Aliás, Cássia Kiss escreveu certa vez uma mensagem de gratidão ao CVV – Centro de Valorização da Vida – que realiza desde 1962 um trabalho voluntário de apoio emocional e prevenção do suicídio por telefone (141) e mais recentemente pela internet (http://www.cvv.org.br/site/chat.html ) sem vinculação política ou religiosa. Munida da mesma coragem com que exibiu os seios na TV em favor da vida, ela deu o seguinte depoimento sobre a instituição: “Certa vez, há muitos anos, precisei de ajuda especial. Tinha vontade de desaparecer (coisa normal no mundo de quem não tem compromisso, responsabilidade comunitária). Chamei o CVV. Estou viva e integrada”.

 

André Trigueiro

 

 

Fonte: G1 – Blog Mundo Sustentável

 

 

 

 

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14 de Agosto

Até que enfim um ministro “holístico”

O Ministro da Fazenda Joaquim Levy fez história ontem ao se tornar o primeiro titular do cargo a participar de um evento público – não organizado pelo governo – sobre mudanças climáticas. Foi durante durante o encontro do Fórum de Ação Empresarial pelo Clima, uma iniciativa do Instituto Ethos em parceria com o Valor Econômico e a Globo News.

Acompanhado da Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, Levy recebeu em mãos a “Carta Aberta ao Brasil sobre Mudança de Clima 2015”, assinada por 42 grandes empresas que se comprometem, entre outras ações, a reduzir emissões de gases estufa e a não comprar produtos associados ao desmatamento. O documento também reforça a expectativa dessas empresas de que o governo seja “protagonista” na conferência do clima de Paris (COP-21) em dezembro, e incorpore à sua proposta (INDC – Contribuição Nacionalmente Determinada, no jargão diplomático) o compromisso de estimular – entre várias outras medidas – uma economia de baixo carbono.

Segundo a Ministra Izabela, a proposta do Brasil – que já foi objeto de uma consulta pública – só deverá ser conhecida em outubro. Mas o encontro serviu para revelar os bastidores da confecção desse documento. Izabella e Levy – que já trabalharam juntos no Governo do Estado do Rio de Janeiro na gestão Sergio Cabral – já se reuniram várias vezes em Brasília para discutir iniciativas que possam estimular o uso inteligente dos recursos naturais, a eficiência energética e inovação. Além deles, os ministros da Agricultura, Energia, Relações Exteriores e Planejamento tem a função de assessorar diretamente a Presidente Dilma em relação a proposta do Brasil.

“Mitigação” e “adaptação” são expressões proferidas com naturalidade pelo Ministro da Fazenda, que tem estudado as experiências de outros países no enfrentamento do aquecimento global e, por várias vezes no evento do Ethos, disse bem humorado que está “fazendo continhas” para ver o que é possível aplicar no Brasil sem riscos para a economia, especialmente em tempos de crise.

Quando o assunto é meio ambiente, Joaquim Levy, encontra em família dois importantes aliados: o pai e a mulher. Mas é comedido ao explicar como essa influência se dá. Quando era Secretário de Fazenda do Estado do Rio instituiu o ICMS ecológico, que redistribui as maiores fatias do principal imposto estadual aos municípios que mais protegem as águas, as matas ou erradicam lixões.

Engenheiro por formação, com doutorado em Economia, Levy se tornou o primeiro Ministro da Fazenda a manifestar publicamente o compromisso de estudar as mudanças climáticas e as ferramentas econômicas mais inteligentes capazes de desestimular o uso de combustíveis fósseis e proteger as florestas. Gosta de conversar sobre o assunto, e se sentiu envaidecido – como brasileiro – ao ouvir do Presidente Barack Obama durante recente visita aos Estados Unidos que o Brasil “é o país do mundo que mais reduziu emissões de gases estufa voluntariamente nos últimos anos”

Coube a mim mediar o debate entre Levy e Izabella no evento do Ethos. Deixei a última pergunta para o ministro. Quis saber dele se não se sentia às vezes um estranho no ninho num país onde aparentemente a maioria dos economistas não demonstra muito interesse na área da sustentabilidade. Ao responder, Levy deixou claro que estava ali por entender a importância do assunto e por defender uma visão mais abrangente, “holística”, no exercício do cargo.

É bem vinda em qualquer área profissional, especialmente no comando da economia da maior potência megabiodiversa do planeta, a prática da visão sistêmica ou holística. Que as declarações – e principalmente as atitudes – de Levy nesse quesito, sejam inspiradoras para seus sucessores.

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André Trigueiro e o Ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Crédito: Arquivo Pessoal

 

 

André Trigueiro

 

Foto1: Joaquim Levy, André Trigueiro e Izabella Teixeira no Fórum de Ação Empresarial pelo Clima. Crédito: Arquivo Pessoal

 

 

 

Fonte: G1 – Blog Mundo Sustentável

 

 

 

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31 de Julho

Que m… é essa?

Vírus ou bactérias? A poucos dias da celebração que marcará exatamente um ano do início das Olimpíadas do Rio, microorganismos ameaçadores à saúde disputam a liderança no ranking de preocupações dos atletas que virão à cidade para disputar as provas de iatismo e remo.

A polêmica envolvendo o estudo encomendado pela Associated Press (AP, uma das maiores agências de notícias do mundo) junto à Universidade Feevale, de Novo Hamburgo, para saber qual a situação das águas do Rio de Janeiro é inspiradora. Pouco importa se há imprecisão nos dados técnicos levantados. A poluição é fato, a omissão das autoridades também, e o risco de contaminação dos atletas – em maior ou menor grau – humilha a cidade anfitriã dos Jogos.

Em quase 30 anos de profissão, já perdi a conta de quantas reportagens já fiz sobre o assunto. Já cobri inauguração de Estação de Tratamento de Esgoto (com direito a banda de música, placa e fitinha) sem esgoto por falta de tubulações ligando a estação às casas das pessoas. Já registramos inúmeras vezes a ruptura de envelhecidas tubulações de esgoto nos costões rochosos da Urca e da Avenida Niemeyer, precipitando o aparecimento de cascatas de merda.

Os temidos coliformes fecais têm sido encontrados em proporções avassaladoras nos chuveirinhos das praias, nas areias da orla, nas cascatinhas das Paineiras, e entre uma onda e outra disputada pelos surfistas no Leblon (próximo à Visconde de Albuquerque), em São Conrado (próximo à Rocinha) e na Barra (onde há três meses alguns dos principais surfistas do mundo, entre eles o maior campeão de todos os tempos, Kelly Slater,reclamaram do mau cheiro da água e relacionaram o odor forte aos sintomas típicos de intoxicação que derrubaram esses atletas em plena competição).

Não é possível passear pelo Rio de Janeiro sem uma involuntária degustação olfativa com diferentes gradações de odores fétidos de esgoto liberados pelos bueiros, valas, lagoas, rios, praias e alguns pontos da baía. Não importa em que lugar da cidade você esteja. O “futum” poderá lhe alcançar assim de repente, em áreas mais ou menos nobres, para seu desencanto.

Enquanto improvisamos soluções (“ecobarco” para coletar lixo flutuante, Unidades de Tratamento de Rio/UTR para reduzir a carga de poluentes despejada impunemente nos corpos hídricos etc) os problemas persistem e precipitam as autoridades na direção do ridículo de torcer para que não chova durante os jogos, o que agravaria a situação sanitária das raias olímpicas. Mergulhar de roupa na Baía de Guanabara para “garantir”a não periculosidade das águas é desespero. Mas o pior é assumir publicamente o não cumprimento formal de promessas feitas por escrito, como a não redução em 80% do lançamento de poluentes na Baía.

O fato é que perdemos o direito de errar. O saneamento não é “básico” por acaso. Se 16 cidades da Região Metropolitana do Rio não tratam seus esgotos, que acabam sendo vertidos impunemente para a Baía de Guanabara, o que pretendemos fazer? Se não há recursos públicos suficientes para resolver o gigantesco passivo sanitário dessa região, quais as chances de organizar PPPs (Parcerias Públicos Privadas) ou licitar concessões para a iniciativa privada de forma inteligente, ética, respeitando a Lei e o interesse público?

Pior do que bactérias ou vírus são os mesmos políticos de sempre que prometem “mudar” essa situação e não cumprem o que prometem. É a “normose” – a doença da normalidade – que acomete parte da população descrente de tudo e de todos.

Tolerância zero para o “business as usual”. A emergência sanitária do Rio já não é apenas prioridade política. É a condição moral para vivermos com dignidade neste pedacinho especial do mundo.

 

André Trigueiro

 

 

Fonte: G1 – Blog Mundo Sustentável

 

 

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01 de Julho

Dá pra fazer mais…

Zerar o desmatamento ilegal continua sendo um tema espinhoso para o governo brasileiro. Ao incluir esse assunto na declaração conjunta com o presidente Obama, a presidente Dilma se comprometeu a zerar o desmatamento ilegal até 2030. Por vias indiretas, avalizou o desmatamento ilegal por mais 15 anos ou pelo menos deixou claro que o governo não tem interesse em combater a ilegalidade num período de tempo mais curto ou não se julga em condições de fazê-lo.

Acrescente-se na lista de hipóteses a que parece ser a mais provável: um governo fraco politicamente não ousaria contrariar os interesses da bancada ruralista – cuja principal liderança encontra-se hoje no exercício da função de ministra da agricultura – que construiu historicamente o discurso de que não há como produzir mais alimentos sem expandir a fronteira agrícola na direção das florestas.

Anunciou-se também, para 2030, a meta de restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas (120 mil km²), o que pode ser entendido como um objetivo conservador se confrontado com o Código Florestal. Alguns estudos indicam que se o Código for cumprido à risca, e os proprietários rurais recuperarem nos termos da lei o que foi desmatado, será possível revegetar aproximadamente o dobro da área anunciada hoje. Será que o próprio governo reconhece problemas no cumprimento da lei?

2030 também foi o prazo estimado para que a nossa matriz energética seja composta de 28% a 33% por fontes limpas e renováveis além da geração hidráulica. De acordo com o Observatório do Clima, o Brasil conta hoje com aproximadamente 29% de fontes limpas e renováveis além da hidroeletricidade, o que significa um avanço tímido, bastante conservador. A energia eólica (que em poucos anos de investimentos já responde por 5% da matriz) continua em franca expansão a um custo baixo, enquanto a energia solar atraiu 382 projetos para o leilão da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) marcado para o próximo mês de agosto, quando serão ofertados 12.528 megawatts (MW), valor superior ao que deve ser gerado pela usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, com capacidade instalada de 11.000 MW.

Parece que estamos com o pé no freio. Que as excelentes oportunidades de negócio da economia de baixo carbono ainda causam alguma desconfiança no atual governo. Ou que ainda não nos sentimos preparados – embora tenhamos todos os recursos ao nosso alcance – para sermos protagonistas e não coadjuvantes dessa história.

 

André Trigueiro

 

 

Fonte: G1 – Blog Mundo Sustentável

 

 

 

 

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