Por Daniela Kussama | fevereiro 4, 2018 11:04 am

Se você é daqueles que se sentem incomodados com o “culto ao descartável”–dogma perverso da sociedade de consumo– e observa perplexo a produção monumental de lixo que se espalha por mares e continentes mundo afora, há motivos para se animar em 2018.

Desde o primeiro dia do ano, a China bloqueou a importação de resíduos recicláveis, uma rotina consolidada desde a década de 1980 sob o pretexto de converter em matéria-prima a lixarada de países ricos como Estados Unidos, Inglaterra, Coreia do Sul e Japão.

Só que o mercado consumidor chinês passou a produzir tanto lixo que o governo daquele país não teve outra alternativa senão barrar a entrada de 24 tipos de resíduos, algo em torno de 10 milhões de toneladas por ano (70% do total estimado de lixo em circulação no mundo).

Quem se acostumou a varrer o próprio lixo para debaixo do tapete chinês vai ser desafiado a corrigir o rumo e, em vez de exportar os resíduos para países pobres da África, incrementar os próprios sistemas de reciclagem, reduzir a produção de materiais descartáveis (plásticos principalmente), promover a economia circular, o consumo colaborativo e o ecodesign. É uma oportunidade fabulosa de fazer a coisa certa estimulando novos modelos de negócio lucrativos e sustentáveis.

Enquanto isso, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, a Coca-Cola (que contribui de forma avassaladora para o derrame indiscriminado de embalagens plásticas) anunciava um ambicioso projeto de coletar e reciclar 100% dessas embalagens até 2030. Só no Brasil a empresa planeja investir R$ 1,6 bilhão para elevar o percentual de destinação correta desses materiais dos atuais 51% para 66% até 2020. Considerando o histórico descaso da companhia na busca por soluções visando o cumprimento da logística reversa (prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos), é um avanço notável.

Também neste início de 2018 o Brasil deixou de ser o hospedeiro do segundo maior lixão do planeta, impedindo a entrada de resíduos sólidos urbanos (exceto entulho) no gigantesco vazadouro da Estrutural, em Brasília. A medida trouxe novos nutrientes para um debate urgente que muitos municípios ainda evitam: quando nos livraremos de vez dos 2.976 lixões que ainda emporcalham o país, impactando a qualidade de vida de 78 milhões de brasileiros?

A propósito: você faz coleta seletiva? Sabe para onde vai o seu lixo e que impactos causa? É nos pequenos gestos que a gente muda a realidade de um país. Que tal começar pelo lixo?

 

André Trigueiro

 

Fonte: Folha de S. Paulo