Por Daniela Kussama | setembro 22, 2017 9:15 am

 

O Brasil registra 32 suicídios por dia, taxa superior às vítimas de muitos tipos de câncer. Mas, segundo a Organização Mundial da Saúde, nove em cada 10 casos poderiam ser prevenidos. Na busca por reverter esse cenário, o CVV (Centro de Valorização da Vida) criou, em 2014, em parceria com o Conselho Federal de Medicina e com a Associação Brasileira de Psiquiatria, o Setembro Amarelo. O movimento hoje garante a iluminação de monumentos históricos, caminhadas e passeios ciclísticos, entre muitas outras ações. O jornalista André Trigueiro é um dos engajados na causa e lançou o livro “Viver é a Melhor Opção”, que vai muito além de estatísticas. A obra trata da importância de quebrar o tabu, do papel das mídias, dos fatores de risco e da prevenção na prática. Trigueiro esteve em Vitória e falou com exclusividade para a ES Brasil.

Os sintomas de um possível suicida, via de regra, são silenciosos. Como identificar que uma pessoa precisa de ajuda?
Nem sempre é possível identificar um suicida. A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que em 90% dos casos há uma relação com patologias de ordem mental, diagnosticáveis e tratáveis. A principal psicopatologia, que está diretamente ligada ao suicídio, é a depressão, mas existem várias manifestações, desde as mais leves às mais graves. Via de regra, a pessoa em depressão é aquela que está em estado de tristeza constante, não interage socialmente, não tem ânimo para se trabalhar, estudar, namorar, se divertir, entre outras causas. Às vezes, ela pode expressar verbalmente ou por escrito uma mensagem de despedida, um alerta de que está pensando em desistir de viver, e isso, por precaução, deve ser objeto de atenção.

As crises econômica e política e os casos de desemprego podem ter aumentado o índice de casos de suicídio?
Os dados de causas de suicídio demoram um pouco para serem apresentados pelo Ministério da Saúde. Mas, sem dúvida alguma, a crise econômica, principalmente o desemprego, atinge com mais força o segmento masculino. Em uma sociedade patriarcal, em que a cultura é machista, equivocadamente, atribui-se a figura do homem o papel de provedor do lar, como chefe de família. O homem que está sem trabalho corre o risco de não aceitar essa condição. O conceito de família mudou, e a mulher passou a ajudar nas despesas, deixando de lado a cultura masculina como centro. O estresse causado por essa situação não provoca o suicídio, mas agrava uma situação de desânimo, desalento e eventual depressão.

Iniciativas como o Setembro Amarelo e o CVV são ferramentas importantes no combate ao suicídio?
Não tenho dúvidas disso. O Setembro Amarelo surgiu para isso, para trazer o assunto à tona, é a “luz” do debate, da discussão. O CVV tem uma reputação muito importante, pois atende um número de pessoas que está sofrendo.
Isso é demonstrado pela quantidade de ligações e atendimentos. É um serviço considerado pelo Ministério da Saúde como de utilidade pública. O Ministério confirmou ainda que, até 2020, as ligações serão gratuitas em todo o Brasil, pois entendeu que é algo importantíssimo. É um serviço indispensável nos dias de hoje.

A informação é a melhor forma de prevenção na maioria dos casos?
A informação é uma delas, ajuda a prevenir. Claro, existem outras, como conhecimento adequado de médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde, notificação de casos de suicídio de forma correta para que não haja riscos de acidentes de carro, quedas acidentais, acidentes com armas de fogo, que, na verdade, são suicídios, mas não aparecem nos registros oficiais. Além disso, há a mobilização de diferentes setores da sociedade, em prol da prevenção e assistência a quem sofre.
Isso tudo faz parte do “pacote” de prevenção ao suicídio.

De acordo com o último relatório divulgado pela OMS, aproximadamente 800 mil óbitos por ano, no mundo, seriam por suicídio. Como estão esses dados no Brasil?
Em média, no mundo, 2.200 casos são contabilizados por dia; é confirmado um suicídio a cada 40 segundos. No Brasil, são registrados 32 casos por dia. Em alguns lugares, esse problema ocorre com mais frequência, como no Rio Grande do Sul, que registra o maior número de casos. O país possui uma política de prevenção ao suicídio desde 2004 e não a leva a sério, e isso é muito ruim, não ajuda em nada.

Do que se trata o livro “Viver é a Melhor Opção”?
Eu o escrevi e contei com o apoio da minha esposa, a jornalista Claudia Guimarães, a coautora. Nele, abordamos o fato de que o suicídio é um problema de saúde pública, que pode ser prevenido com informação e debates. Falamos sobre os principais fatores de risco, a posição do Ministério da Saúde e da OMS em relação ao tema, o que fazer na área da prevenção e a visão da doutrina espírita. Percebemos que deveríamos dar publicidade a esse assunto e então decidimos compartilhar esses dados, a fim de ajudar outras pessoas.

A intenção é contribuir para a melhora do estado de espírito de uma pessoa que pensa em tirar a vida ou ser apenas uma leitura complementar?
O livro não é um exemplar de autoajuda, mas já ajudou muitas pessoas a melhorar. Funciona para quem quer uma leitura complementar. Traz informações úteis para quem queira agir na direção da prevenção. Mas muitas pessoas em sofrimento que leram o livro relataram que se sentiram gratificadas, melhores a partir de informações abordadas na obra.

Por que esse tema ainda é tratado como tabu? Há incentivo ao suicídio no país?
Há um jeito certo de falar sobre o assunto. O tabu existe em razão do risco da abordagem equivocada do assunto. Dependendo de como se fala sobre o suicídio, isso pode, sim, induzir pessoas fragilizadas emocional ou fisicamente a cometerem o suicídio, mas existe uma forma de falar sobre o assunto, e é isso que a OMS defende. Precisamos destacar sempre os meios de informação para evitar mais casos.

Há previsão para outro lançamento?
Sim. Lançarei o livro “Cidades e Soluções: como construir uma sociedade sustentável”, e a venda será feita pelos voluntários do CVV de Vitória, que ficará com toda a renda. O Espírito Santo está de parabéns, pois possui políticas de prevenção e dá valor à campanha Setembro Amarelo, além de ter o centro como um grande aliado. Só tenho elogios.

Fonte: ES BRASIL