Por Daniela Kussama | agosto 2, 2017 11:47 am

Quando a série “Os 13 porquês” foi lançada meses atrás publiquei aqui no face um artigo criticando algumas cenas que poderiam induzir ao suicídio pessoas fragilizadas psíquica ou emocionalmente. Usei dados e pesquisas da Organização Mundial da Saúde – que embasaram parte dos conteúdos do livro “Viver é a Melhor Opçao”, de minha autoria – para escrever o artigo.

Pois bem, acaba de ser publicada em uma revista médica dos Estados Unidos uma pesquisa informando que após o lançamento da série (a mais popular da história da Netflix) as consultas feitas na internet relacionadas a suicídio aumentaram 19%, as buscas sobre “como se suicidar” aumentaram 26%, sobre “cometer suicídio” aumentaram 18%, e “como se matar” aumentaram 9%.

Disponibilizo abaixo o artigo que escrevi em abril deste ano após o lançamento de “Os 13 porquês” e também o link da reportagem sobre a pesquisa publicada no final de julho na “JAMA Internal Medicine”.

 

O Globo: Série ’13 reasons why’ está relacionada a aumento de pensamentos suicidas, diz pesquisa

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Foram tantas pessoas – próximas ou desconhecidas – que fizeram contato pelo face ou por e-mail pedindo que eu escrevesse algo sobre a série da Netflix “13 reasons why” (“Os 13 porquês”, baseado no best-seller homônimo lançado em 2007 sobre o suicídio de uma adolescente nos Estados Unidos) que reservei o dia de hoje para uma maratona cansativa assistindo aos filmes na telinha do computador.

Antes de compartilhar minha opinião sobre a série, segue um breve resumo do enredo (se você tem aversão a spoilers, pule os próximos dois parágrafos).

A série começa com um fato consumado: o suicídio da jovem Hannah Baker, e o cuidado que ela teve – antes de se matar – de registrar em 13 diferentes gravações as situações e os personagens que teriam de alguma forma contribuído para a decisão de se matar.

Bullying, drogas, depressão, assédio, homofobia, violência sexual e outros problemas recorrentes na escola onde Hanna estuda – e em tantas outras escolas pelo mundo – tornam a vida da protagonista uma experiência cada vez mais angustiante. Castigada por sucessivas decepções e frustrações, sem ter com quem compartilhar sua dor, ela se percebe subitamente sem saída. É quando resolve se matar.

Sou contra qualquer censura e não tenho competência para fazer crítica de cinema. Mas desde 1999 venho estudando o fenômeno do suicídio e um resumo desse trabalho encontra-se disponível no livro “Viver é a melhor opção: a prevenção do suicídio no Brasil e no mundo” (Ed. Correio Fraterno, 2015).

É assustadora a forma como a série da Netflix atropela várias recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre como se deve abordar o problema do suicídio em obras de ficção. A ótima ideia de expor o problema do suicídio entre jovens – um tema relevante que deveria inspirar mais roteiristas – ignorou alguns cuidados básicos indicados pelos profissionais de saúde especializados no assunto (“suicidólogos”).

Poucas vezes no cinema uma cena de suicídio foi mostrada com tamanho realismo e brutalidade. É uma aula mórbida sobre como promover o autoextermínio numa banheira. Violência desnecessária, tragicamente didática e infortunadamente sugestiva.

Antevendo as críticas, a Netflix abre o capítulo com um texto onde se lê a seguinte mensagem: “este episódio contém cenas que alguns espectadores podem considerar perturbadoras e/ou podem não ser adequadas para públicos mais jovens”. Será que funciona como álibi? Não para a OMS.

Após encerrar a maioria das gravações – em que aponta nominalmente os “culpados” por seu mal estar existencial – Hannah se sente melhor por ter “despejado tudo”. Diz ela no filme: “senti que talvez pudesse vencer isso. Eu decidi dar mais uma chance à vida. Desta vez eu ia pedir ajuda. Por que sei que não podia fazer isso sozinha”. É quando ela procura o profissional que oferece os serviços de “conselheiro” na escola onde estuda. Cria-se a expectativa de que finalmente Hanna terá a ajuda e o apoio necessários para sair do buraco em que se encontra.

A conversa com o conselheiro da escola é difícil, dolorida, e decepcionante. Hannah hesita em seguir em frente – principalmente quando o assunto é o estupro sofrido por um colega de escola – e deixa abruptamente a sala onde o atendimento acontecia, apesar dos apelos feitos pelo conselheiro para que continuasse a conversa. Ela fecha a porta, pára do lado de fora e fica na expectativa de que o profissional saia da sala e a procure. Mas isso não acontece. É a derradeira frustração antes de cometer suicídio. Não sem antes deixar gravado o relato sobre seu desapontamento com o profissional da escola que não agiu exatamente como ela esperava.

A série é inspiradora – no mau sentido – para que jovens depressivos e angustiados não percebam outra saída que não a própria morte. Pior: sugere que suicidas em potencial registrem em gravações ou anotações os “culpados” pelos seus infortúnios, e punam através do suicídio aqueles que lhe faltaram quando mais precisavam. O suicídio como pretexto para se vingar de alguém, aliás, é um comportamento patológico. Mas a personagem principal da série não parece alguém que possua algum distúrbio. Pelo contrário. O relato sereno e lúcido de Hanna nas gravações sugere que o suicídio possa ser a resposta esperada, previsível, diante de tantas desilusões e sofrimentos. Será? Segundo a Organização Mundial de Saúde, em pelo menos 90% dos casos, os suicídios estão relacionados a patologias de ordem mental, diagnosticáveis e tratáveis, principalmente a depressão.

Além do “Efeito Werther” (a constatação de que o suicídio é inspirador para pessoas fragilizadas psíquica ou emocionalmente) a série da Netflix promove também a vitimização do suicida, justificando o autoextermínio de Hannah por tudo o que lhe aconteceu. Como se diante de tantas experiências dolorosas, não houvesse mesmo outra saída. Como se os outros – quando não fazem exatamente aquilo que esperamos deles – pudessem ser responsabilizados pelo suicídio de alguém.

Num mundo onde o suicídio é caso de saúde pública, e o autoextermínio de jovens vem aumentando de forma preocupante, espera-se que outras séries possam ser mais cuidadosas e responsáveis na abordagem do tema.

André Trigueiro (abril de 2017)