Por Daniela Kussama | março 11, 2017 8:45 am

 

Há exatamente 10 anos a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que o governo americano deveria regular as emissões de CO2 (dióxido de carbono) na atmosfera para proteger a população americana da exposição a poluentes do ar. O parecer da mais alta corte do país afirmava que o governo do presidente republicano George W. Bush não ofereceu “nenhuma explicação racional” que justificasse a recusa em controlar as emissões de C02. Em consequência disso, a Suprema Corte exigiu que a EPA (Environmental Protection Agency), o mais importante órgão ambiental daquele país, entrasse em ação regulando essas emissões.

Isso só veio a acontecer dois anos depois, em abril de 2009, já no Governo Obama. Foi quando a EPA publicou um relatório de 133 páginas produzido pelos cientistas do órgão (que serviu de base para um decreto federal) estabelecendo metas e prazos para que os grandes poluidores reduzissem as suas emissões a níveis considerados toleráveis.

Fiz esta introdução para que os leitores tenham a noção do absurdo ocorrido essa semana nos Estados Unidos de Trump. Lobista do petróleo e negacionista do clima, Scott Pruitt – nomeado por Donald Trump para chefiar justamente a EPA – disse o seguinte:

“Considero que medir, com precisão, [a influência] da atividade humana no clima é algo muito desafiante e existe um grande desacordo acerca do seu nível de impacto. Por isso não, eu não diria que [o C02] é uma principal causa do aquecimento global”.

Em poucas palavras o Sr. Pruitt desacreditou o que diz o próprio site da EPA – onde se lê que o “dióxido de carbono (CO2) é o principal gás de efeito estufa que está a contribuir para as recentes alterações climáticas”- além do corpo científico da Nasa (Agência Espacial Americana) e do NOOA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional). Contradiz também o parecer da Suprema Corte de 10 anos atrás, aquele que exige que a EPA regule as emissões de CO2.

Ex-senador pelo Estado de Oklahoma, onde foi procurador-geral, Scott Pruitt foi um ferrenho opositor de todas as regulações ambientais propostas durante o Governo Obama. Moveu 14 ações na Justiça contra a EPA (que hoje preside). No mês passado, por determinação da Justiça americana, veio à tona a troca de e-mails entre Pruitt (quando era procurador-geral) e as empresas que mais se opuseram às regulações ambientais. São 6 mil páginas de e-mails (!!!) que, segundo alguns analistas, confirmam a subserviência dele a este setor da economia.

Das duas uma: ou o preposto de Trump na área ambiental é um idiota que julga ser possível ludibriar a opinião pública com declarações sem embasamento científico, ou acredita que o lobby do petróleo – que ele representa com afinco há tantos anos – haverá de se sobrepor à lei, à ciência e ao bom senso.

 

André Trigueiro