Por Andre Dessandes | fevereiro 13, 2017 6:07 pm

 

 

Por Alexandre Mansur

Fonte: Blog do Planeta – Época

 

Se o presidente Donald Trump estiver mesmo disposto a tirar os Estados Unidos do caminho de uma economia limpa, como as empresas modernas reagem a isso? Quem pode ajudar a responder é a organização We Mean Business. Trata-se de uma coalizão de entidades empresariais que reúne boa parte das maiores companhias globais. A organização promove a rota da sustentabilidade, como energias renováveis e menor emissão de carbono. No Brasil, trabalham junto com o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável. O britânico Nigel Topping, presidente da We Mean Business, acha que é cedo demais para saber como será de verdade o governo Trump nessa área. Mas antecipa que as empresas não vão mudar.

 

ÉPOCA – O que podemos esperar do governo Trump na área de sustentabilidade? A transição para uma economia mais limpa que estava em curso nos Estados Unidos vai parar?

Nigel Topping – Nós realmente não sabemos. Temos algumas pistas apenas. Uma é que ele afirmou rejeitar as energias renováveis. É possível que os benefícios fiscais para energia solar e eólica sejam reduzidos. Isso não seria necessariamente ruim. Além disso, fala-se muito de uma possível saída do Acordo de Paris. Até agora, o presidente não falou disso. O novo secretário de Estado, embora venha da indústria do petróleo, entende perfeitamente a ciência das mudanças climáticas. Ele diz que seria má ideia não estar na mesa de negociação de qualquer acordo climático. Já sinalizou fortemente que os Estados Unidos permanecerão nas negociações dessa área. O conselho empresarial do presidente acabou de ter sua primeira reunião. Ele inclui pessoas como Elon Musk, fundador da Tesla, empresa que desenvolve carros elétricos e baterias para energia renovável. Também incluiu o CEO da GM, que está para lançar o Bolt, que pode ser o primeiro carro elétrico popular nos Estados Unidos. Não sabemos que tipo de influência eles vão exercer. Podem contar ao presidente os benefícios de uma economia mais limpa.

 

 

ÉPOCA – E se o governo Trump se desenvolver rumo a pior cenário?

Topping – Depende do que você considera o pior cenário. A economia é resiliente à decisões do governo. Existe uma inércia no caminho para uma economia limpa e de baixo carbono. Nenhum banco financiaria novas usinas de carvão, por exemplo. Elas não são economicamente viáveis. Até o gás natural é mais competitivo. O fato é que as tecnologias de energias renováveis estão ficando cada vez melhores e economicamente mais eficientes. Isso não tem volta. Além disso, existe a questão da competitividade do país. Os chineses anunciaram um investimento de US$ 360 bilhões em energia renovável até 2020. Se os americanos pararem ou recuarem, perderão sua posição no mercado internacional. Se não se prepararem para uma economia limpa, ficarão para trás. Os fabricantes chineses, japoneses e europeus vão se beneficiar de um possível atraso americano. Basta pensar num exemplo. Em 1973, quando houve o primeiro choque do petróleo, o governo americano reagiu de forma errada. Agora, metade dos carros circulando nos Estados Unidos são do Japão, da Coreia do Sul ou da Europa.

 

 

ÉPOCA – Como as empresas americanas devem reagir?

Topping – A melhor forma é continuar seus negócios no caminho em que estão. O Google tem a meta de ter 100% de energia renovável até 2017. Outras empresas gigantes como Apple, Ikea, Facebook, Starbucks e Johnson & Johnson também têm metas para ficar só com energia renovável. Isso é bom para a economia dessas empresas. Reduz custos. Também é bom para a reputação das marcas. E essas empresas sabem que precisam se preparar para futuras regulamentações que enfrentarão no resto do mundo. Por isso, devem se antecipar.

 

 

ÉPOCA – Como você convenceria um líder empresarial cético em relação às mudanças climáticas?

Topping – Deve haver poucos que ainda não compreenderam o desafio climático. Em geral, eles são bem instruídos cientificamente. Se mesmo assim um deles escolher não acreditar, não será convencido por argumentos lógicos. Uma forma alternativa de encarar a questão é como fazem os militares. Se a ciência climática é incerta, isso não justifica a inércia. Você não se prepara militarmente quando o inimigo começa a invadir seu território. Você se prepara porque existe a chance de ser invadido. E há também outros motivos para um empresário encarar as mudanças climáticas. Motivos pragmáticos. A legislação e o mercado estão dando sinais. Mesmo que você não acredite em nada disso, precisa enfrentar regulações em todo o mundo. Se não se modernizar, ficará para trás.

 

 

 

 

Postado por Daniela Kussama