Por Andre Dessandes | janeiro 30, 2017 5:17 pm

 

Por Alexandre Mansur

Fonte: Blog do Planeta – Época

 

Os primeiros dias de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos dão sinais de um grande retrocesso para a ciência e para o meio ambiente. A dúvida agora é o tamanho do prejuízo, principalmente em relação às mudanças climáticas. As pesquisas e as ações para evitar o pior do aquecimento global podem sofrer? Trump irá mesmo abandonar o Acordo de Paris, tratado assinado em dezembro de 2015 para reduzir as emissões de efeito estufa? O pesquisador americano Andrew Light, do centro de estratégia World Resources Institute, baseado em Washington, confirma os riscos. Mas diz que não será fácil tirar os EUA e o mundo do caminho de uma economia limpa. Light, que trabalhou no Departamento de Estado e também é professor da George Mason University, afirma que as empresas não dependem do governo federal para manter seus investimentos em produção com menos emissões.

 

ÉPOCA – Quais são os riscos de uma administração Trump para a ciência climática?

Andrew Light – Duas áreas nos preocupam mais. Primeiro, a manutenção da regulamentação colocada em prática pela gestão de Barak Obama. São as regulamentações federais da Agência de Proteção Ambiental (EPA) para reduzir as emissões de gases de efeito estufa nos Estados Unidos. Tudo inica que Trump está indo direto para desmantelar essas restrições. Porém, não será tão fácil. Podemos ver uma grande batalha legal com a Suprema Corte em torno disso. A Corte já determinou no passado que o dióxido de carbono (ou gás carbônico) pode ser considerado como um poluente. Isso dá à EPA bases legais para restringir as emissões. Qualquer tentativa de derrubar esses limites será questionada na Suprema Corte. Além disso, outra área de preocupação é a esfera internacional. Não está claro se o governo Trump irá realmente abandonar o Acordo de Paris ou até mesmo rejeitar as negociações climáticas coordenadas pela ONU. O secretário de Estado, Rex Tillerson, disse repetidamente que os EUA irão “permanecer na mesa de negociações”. Ainda estamos para ver de que “mesa” ele está falando. Se é o Acordo de Paris. Se são as negociações em geral. Ou o que quer que seja.

 

ÉPOCA – A gestão de Trump pode prejudicar o avanço da ciência nos EUA?

Light – Ainda estamos esperando sinais mais claros para avaliar isso. Os primeiros indicadores são preocupantes. Primeiro, soubemos de uma tentativa para cancelar todas as bolsas de pesquisas ligadas à ciência climática. Depois, ficamos sabendo que elas foram apenas congeladas. Na minha avaliação, os principais centros de pesquisas como a Nasa (agência especial americana) ou a NOAA (agência de oceanos e atmosfera) não ficarão sem recursos. Mas o governo pode cancelar investimentos em comunicação e capacitação nas áreas de pesquisas climáticas vinculadas a outros setores como o Departamento de Agricultura, ou o Departamento do Interior.

 

ÉPOCA – Qual seria a melhor forma de defender a ciência climática desse tipo de constrangimento?

Light – Todos os cientistas precisam agora tratar de lançar luz sobre o que estão fazendo. E não hesitar em chamar atenção para qualquer tentativa de censura ou corte de verbas. Os pesquisadores precisarão se esforçar mais também para deixar claro o valor de seus estudos para a sociedade. Definitivamente, os cientistas precisarão ser mais assertivos. E precisarão se unir para pressionar o Congresso em busca de apoio.

 

ÉPOCA – Caso o governo Trump aumente incentivos e investimentos em fontes sujas de energia, como o carvão, como ficam as empresas que já estão na transição para uma economia de baixo carbono?

Light – Não acredito que elas mudarão de rumo. As empresas que já desenvolveram tecnologias limpas, encontraram novos negócios e investiram em formas de produção menos poluentes ou energias limpas não vão se desviar agora do rumo. Uma administração federal não tem tanto poder nos EUA. A tendência geral de se afastar dos combustíveis fósseis na economia continuará. O que deveria nos preocupar mais agora são outros riscos. A administração de Trump pode começar a barganhar os padrões de qualidade ambiental com as empresas. O governo pode dizer: fique comigo que eu vou reduzir a regulamentação para a sua atividade. Pode haver mais liberdade para atividades danosas.

 

ÉPOCA – Os EUA já tiveram outro presidente, George W. Bush, que negava a ciência do clima. Não será a mesma coisa agora?

Light – Agora é diferente. As mudanças climáticas evoluíram. O planeta está mais quente. As consequências das alternações na atmosfera estão mais avançadas. Já estamos sentindo mais impactos. Temos muito menos tempo para evitar as piores consequências. Agora qualquer perda de tempo causa um estrago muito maior. Além disso, o cenário internacional mudou. Na gestão de Bush, havia o Protocolo de Kioto (acordo com metas de emissões assinado em 1997). Ele era bom. Mas só tinha obrigações para os países ricos. Os países em desenvolvimento não tinham nenhuma obrigação, independente do seu tamanho. Agora o Acordo de Paris inclui todo mundo. Cada país tem uma meta diferente. Mas estão todos dentro. Isso não tem precedentes. Se Trump sair desse acordo, o prejuízo será muito maior.

 

ÉPOCA – O Acordo de Paris sobreviveria sem os EUA?

Light – Sim. Mas não tão forte. Alguns países podem usar a saída dos EUA como desculpa para não fazer o que combinaram. Mas creio que a maior parte dos países manteria seus compromissos. Primeiro porque é a coisa certa a fazer. Segundo porque faz sentido econômico. É mais barato agora fazer a transição para uma economia de baixo carbono. E os investimentos feitos agora criam vantagens para os países. É por isso que acredito que a maioria dos países vai trabalhar para fazer do acordo um sucesso.

 

 

 

 

Postado por Daniela Kussama