Por Andre Dessandes | janeiro 11, 2017 10:39 am

 

“A internet nos dá a falsa sensação de estarmos no controle das nossas vidas”

Cláudia Guimarães acompanhou aula de Zygmunt Bauman no Rio de Janeiro

 

A expectativa era enorme. No auditório onde se realizava o evento Educação 360, o silêncio reinava absoluto. Pela primeira vez, os brasileiros teriam a oportunidade de escutar ao vivo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, de 89 anos, criador do conceito de “modernidade líquida”, marcada pela insegurança, instabilidade e efemeridade – dos produtos que consumimos a nossas relações pessoais.

Se o início da palestra foi centrado nos desafios da educação no século XXI, como postamos aqui ontem, boa parte da sua fala terminou abordando um dos assuntos favoritos de Bauman: o fenômeno da internet e como ele se insere nesses “tempos líquidos”.

Em seu livro Vigilância líquida, o sociólogo já resumia em uma frase a abordagem que faria desse tema na palestra no Rio de Janeiro: “Hoje, o medo da exposição foi abafado pela alegria de ser notado”.

Na mesma obra, observava que vivemos numa sociedade confessional, “que se destaca por eliminar a fronteira que antes separava o privado do público, e por fazer da exposição pública do privado, uma virtude e uma obrigação públicas”.

E com muita argúcia, acrescentava: “A paixão por se fazer registrar é um exemplo importante, talvez o mais gritante, dos nossos tempos, nos quais a versão atualizada do cogito (penso) de Descartes seria: ´Sou visto (observado, notado, registrado), logo existo´.”

Em sua palestra de mais de uma hora, muito concorrida, apesar da chuva e do frio, Bauman voltou a se debruçar sobre esse tema, compartilhando com a plateia suas impressões sobre o mundo virtual.

Na sua opinião, a internet foi abraçada “com tanta alegria” porque dá a agradável sensação de liberdade e de escolha. Além disso, “a internet e o Facebook nos tranquilizam e nos dão a sensação de proteção e abrigo, afastando o medo inconsciente de sermos abandonados. Na verdade, muitas vezes você está cercado de pessoas tão solitárias quanto você”, afirmou.

A dissolução dos laços comunitários tradicionais e a sensação de “falta de pertencimento” no mundo moderno têm sido, aliás, um dos assuntos recorrentes em seus livros. E naquela tarde, o tema veio à baila quando o sociólogo lembrou que, com a internet, estamos criando uma rede, não uma comunidade:

– A rede pertence a mim; quanto à comunidade, eu pertenço a ela. Na rede, é possível remover e selecionar com quem quero relacionar. Enquanto eu quiser essa rede existe. Se eu parar de nutri-la, a rede vai desaparecer.

Com seu olhar perspicaz, que foge ao senso comum e sempre descortina novos horizontes, Bauman apontou que a internet cria uma enganosa zona de conforto, onde o “estrangeiro” – ou seja, todo aquele que pensa diferente de nós – pode ser excluído a qualquer momento, com apenas um clique.

– É como um condomínio de pessoas ricas, que expulsa os que querem entrar. A zona de conforto é o eco que reflete nossa própria voz. Ou um espelho que reflete nosso próprio rosto.

O problema, ressaltou, é que no mundo off-line (em casa, no trabalho, na escola, na rua) não é possível eliminar as pessoas que não gostamos e, portanto, precisamos estabelecer um diálogo.

– Mas, no mundo on-line, onde grande parte das pessoas passa pelo menos nove horas por dia, não desenvolvemos as habilidades sociais indispensáveis ao convívio com as outras pessoas.

Para o sociólogo, essa situação traz consequências graves para a sociedade, porque “a arte do diálogo será cada vez mais necessária em um planeta globalizado. E, até agora, não estamos conseguindo avançar nessa direção”, afirmou.

Diante de uma plateia que absorvia cada palavra como uma fina e rara iguaria, Bauman ressaltou também a falsa percepção que a internet nos proporciona de estarmos no controle de quem somos, assim como das nossas vidas:

– A internet cria a ilusão de que nossos problemas serão resolvidos. Mas, em algum momento, você terá que voltar ao mundo real, off-line.

Todos esses aspectos não significam, ponderou, que o advento da internet não tenha trazido grandes vantagens.“Não há como conceber a sociedade no futuro sem tecnologia. Então, se não pode vencê-la, una-se a ela”. Mais adiante, concluiu: “Mas temos o permanente desafio de encontrar formas de usá-la a serviço do bem comum”.

Ao final da palestra, Bauman reservou um generoso espaço para responder a perguntas feitas pela plateia e, apesar dos quase 90 anos, ainda encontrou energia para atender uma longa fila de fãs em busca do seu autógrafo. Depois de tantos anos de espera pela chance de vê-lo pessoalmente, Bauman havia superado todas as expectativas dos que o admiram e há anos acompanham a sua obra.

 

Claudia Guimarães, jornalista e educadora ambiental

 

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Zygmunt Bauman: “Educação não é commodity”

Em palestra no Rio de Janeiro, o sociólogo Zygmunt Bauman, um dos mais influentes pensadores da atualidade, analisa os desafios da educação no século XXI

“Se você quer se planejar para um ano, plante milho.

Se quer se planejar para 10 anos, plante uma árvore.

Se quer se planejar para 100 anos, eduque a população.”

 

Com esse milenar provérbio chinês, o renomado sociólogo polonês Zygmunt Bauman iniciou sua palestra no evento Educação 360, que anualmente reúne no Rio de Janeiro educadores do Brasil e de diferentes países.

Nem a chuva, o frio ou a distância desanimaram a plateia de cerca de 500 privilegiados, que conseguiram se inscrever gratuitamente e vieram de diferentes partes do país para escutar um dos mais referenciais pensadores da atualidade.

O absoluto e cerimonioso silêncio da plateia, raro por essas bandas, dava a pista de que não estávamos diante de um acadêmico comum. Prestes a celebrar 90 anos, Bauman vem contribuindo há décadas para entendermos o mundo atual, suas contradições e complexidades. Tarefa por si já hercúlea, mas que ganha maior relevância pela sua capacidade de se comunicar com os leitores de forma clara e acessível, fugindo do hermetismo dos textos acadêmicos.

Criador do conceito de “sociedade líquida”, onde tudo é efêmero e está feito para não perdurar – dos produtos que consumimos até as nossas relações pessoais –, Bauman há muito acompanha atentamente as principais transformações sociais, econômicas e políticas do panorama mundial.

Seus livros analisam com um olhar crítico e original aspectos da sociedade moderna que afetam diretamente o nosso dia a dia, como o consumismo, a globalização, o advento da internet e a crise das instituições políticas.

E foi num inglês pausado (ele está radicado há muitos anos em Leeds, Inglaterra) e falando por mais de uma hora em pé, apesar da avançada idade, que um elegante Bauman discorreu na tarde do último sábado sobre algumas dessas questões.

Pedindo desculpas de antemão porque o reduzido tempo o impediria de se aprofundar nas origens da crise na educação, Bauman focou nos desafios que enfrentamos hoje, como a dificuldade de atenção: “É preciso ter determinadas qualidades se você deseja construir conhecimento e não só agregá-lo: atenção, persistência e paciência”. E as três, ressaltou, estão em falta no mundo moderno, assim como o pensamento linear.

Na sua opinião, a crise de atenção atinge a todos, mas impacta principalmente os jovens: “Se um professor pede aos alunos para lerem um artigo para a próxima aula, eles não o fazem. No máximo, leem o resumo na internet. Em tese, toda a informação está disponível ali, mas ela vem em pedaços, fragmentos”. E acrescentou: “Os estudantes querem o twitter do ensino acadêmico. Mas não é possível resumir conhecimento em 140 caracteres”.

Tão desafiante para a educação quanto a crise de atenção é a falta de persistência. “Ler hoje um romance como Guerra e Paz, de León Tolstoi, é missão difícil, até para a geração mais velha”. Segundo ele, cada vez mais estamos perdendo a capacidade de fazer atividades que dão frutos a longo prazo, porque queremos resultados imediatos. E arrematou, tirando gargalhadas da plateia: “O melhor símbolo disso é o café instantâneo!”

Bauman criticou também a elitização da educação, cada vez mais cara e inacessível, lembrando que ela vem sendo reformulada para atender a interesses econômicos de curto prazo: “É uma decisão errada, que vai afetar nossos filhos, netos e bisnetos”. E concluiu: “Educação não é commodity”.

Sempre veemente, Bauman encerrou sua palestra sem perder em nenhum momento o olhar sereno com que nos habituamos a vê-lo defender a dignidade humana em todas as suas dimensões.

 

Cláudia Guimarães, jornalista e educadora ambiental