Por Andre Dessandes | janeiro 9, 2017 1:23 pm

 

Por Manuel Ansede

Fonte: El País

 

Em meio a um debate politizado sobre a redução do tráfego de veículos em Madri por causa da poluição, um novo estudo científico associa o fato de morar perto de uma via movimentada a um risco maior de contrair demência. Essa síndrome, que destrói a memória e o raciocínio, é um dos piores problemas de saúde pública em nível internacional: algo devastador para os pacientes e seus familiares. Mais de 47 milhões de pessoas sofrem de demência no planeta. E a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que esse total deve chegar a 135 milhões em 2050.

De acordo com esse novo estudo, liderado pelo pesquisador Hong Chen, da agência de saúde pública de Ontário, a província mais povoada do Canadá, a poluição gerada pelos automóveis poderia ser uma das inúmeras causas desta epidemia global. Seu trabalho analisou durante 10 anos a saúde dos 6,6 milhões de pessoas que vivem naquela região, que inclui as cidades de Toronto e Ottawa. Embora ainda não conclusivos, seus resultados são preocupantes, mostrando que as pessoas que vivem a menos de 50 metros de uma via muito movimentada apresentam 7% a mais de risco de sofrer de demência do que aquelas que vivem a mais de 300 metros.

As pessoas cujas moradias se localizam entre 50 e 100 metros de uma via movimentada, segundo os autores do estudo, apresentam 4% a mais de risco. E entre 101 metros e 200 metros de distância, os cientistas registraram um aumento de apenas 2%. “Nosso estudo sugere que as políticas efetivas para diminuir a exposição à poluição do tráfego trazem um benefício potencial para a prevenção da demência”, explica Chen. Suas conclusões foram publicadas nesta quinta-feira na revista médica The Lancet.

“Embora o aumento de risco possa parecer pequeno, ele se traduz no fato de que entre 7% e 11% dos casos de demência em pacientes que moram perto de vias principais podem ser atribuídos à exposição ao tráfego”, alertam os autores, do Canadá e dos Estados Unidos.

A equipe de Chen não demonstra a existência de uma relação de causa e efeito, mas levanta indícios consistentes que levam a um suposto responsável: a exposição em longo prazo a agentes tóxicos produzidos pelas emissões de gases dos automóveis, como o dióxido de nitrogênio, que obrigou Madri, na semana passada, a reduzir o tráfego de veículos, e as partículas finas suspensas no ar. Os autores apontam também outras substâncias tóxicas geradas pelo tráfego, como as partículas ultrafinas e os metais pesados.

Os pesquisadores tentaram encontrar possíveis variáveis que pudessem gerar alguma confusão ou provocar uma análise equivocada dos resultados, mas não as detectaram. Mesmo considerando diferenças de caráter socioeconômico por bairro, o risco de demência se mostrou maior para quem vive perto de vias movimentadas. A equipe de Chen, porém, não registrou uma ligação entre o tráfego e outras duas doenças neurológicas: o Parkinson e a esclerose múltipla.

 

“Não podemos descartar a possibilidade de que o ruído possa explicar em parte a associação que observamos em Ontário entre a exposição ao tráfego e a demência”, acrescenta Chen. Há um ano, um outro estudo independente, na Alemanha, estabeleceu um vínculo do ruído dos veículos e da contaminação do ar com a deterioração cognitiva leve em pessoas adultas mais expostas a esses fatores. Em 2015, um outro trabalho, em Taiwan, relacionou as partículas finas em suspensão ao Alzheimer.

“Precisamos adotar medidas preventivas imediatamente em vez de aguardar para reagir apenas dentro de algumas décadas”, defende a neuropatologista mexicana Lilian Calderón-Garcidueñas, da Universidade de Montana (EUA), em análise publicada também em The Lancet. Influenciando ou não no aparecimento da demência, a poluição do ar provoca 30.000 mortes precoces por ano na Espanha e 520.000 no conjunto da União Europeia, segundo a Agência Europeia para o Meio Ambiente.

“O estudo identificou as vias movimentadas e os agentes poluentes do tráfego como um possível fator de risco para a demência, descoberta que exigirá mais pesquisas antes que se tire alguma conclusão assertiva sobre o risco relacionado à poluição do ar em comparação com outros fatores de risco para a demência, como fumar, não fazer exercícios e sobrepeso”, afirmou ao portal Science Media Centre o neurocientista David Reynolds, chefe de pesquisa do Alzheimer’s Research UK, instituição britânica voltada para o estudo da demência.

 

 

Postado por Daniela Kussama