Por Andre Dessandes | dezembro 8, 2016 7:08 pm

 

Tem tanta gente torcendo para que 2016 termine logo – como se a simples virada do ano significasse o fim de uma maldição ou praga – que resolvi escrever estas linhas em favor de um entendimento menos supersticioso deste período difícil.

Não acredito em punições ou castigos divinos, muito menos na regência do acaso. Diante de tantas especulações sobre o que estaria por trás dessa curiosa sincronicidade de eventos turbulentos (no Brasil e no mundo) continuo achando que há algo mais profundo por trás de tudo isso.

Tudo na natureza se resolve em ciclos (há quem ganhe muito dinheiro por aí mostrando como esses ciclos também explicam as alternâncias na política e na economia). Na tradição judaico-cristã, esses ciclos são expressos poeticamente no Antigo Testamento em Eclesiastes: “Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar…”.

Na espiral dos tempos – onde as leis que regem a vida e o universo se desdobram – há momentos de ruptura, em que os ciclos mudam de patamar e todos somos instigados a perceber as coisas de outro jeito, uma oitava acima. É um convite à evolução.

Diante da perplexidade causada por múltiplas crises, cada um de nós reage de um jeito. Há aqueles em que predominam os sentimentos negativos, quando se replicam comportamentos nefastos a si próprios e a coletividade. Tornam-se reféns do ódio, da intolerância, do egoísmo doentio. Diante dos cenários sombrios, afinam-se às trevas. Acuados pelo medo, intimidam e amedrontam. Ou se refugiam em comportamentos alienantes, com ou sem o uso de drogas.

Há aqueles, entretanto, que não perdem a fé (em Deus ou em algo que empreste um sentido ético a existência). Sofrem, mas mantém a sobriedade. Fraquejam, mas não desistem. Caem, mas se levantam movidos por sentimentos nobres. Vivem o conflito sem se deixar levar pelo arrastão raivoso dos impulsos mais grosseiros. Teimosamente, remam contra a maré. Percebem em meio à confusão que há gente em situação ainda pior, que merece ajuda, solidariedade. Acreditam que, se tudo passa, essa turbulência também passará.

Para esses, a consciência é o norte magnético da bússola. Por cima das nuvens espessas e carregadas, sabem que o sol ainda brilha. Lembrar disso todo dia, em vários momentos do dia, constitui o grande desafio.

2016 está sendo muito difícil.
Mas o aprendizado até aqui – a duríssimas penas – foi intenso.
Que venha 2017!

André Trigueiro