Por Andre Dessandes | dezembro 5, 2016 5:49 pm

 

Fonte: IHU

 

O mundo está à beira de um apocalipse climático. O aquecimento global corre o risco de produzir mudanças radicais na sociedade humana, principalmente em nível geopolítico e demográfico. Embora ainda não existam estimativas certas sobre o fenômeno, inúmeros estudos estão tentando quantificar o seu porte. As previsões mais confiáveis falam de, pelo menos, 350 milhões de “migrantes ambientais” (ou seja, migrantes causados por riscos relacionados com o clima) até 2050.

O dado foi divulgado na semana passada no Desertification Report 2014, da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD): até 2020, nada menos do que 60 milhões de pessoas poderiam se deslocar das áreas desertificadas da África sub-saariana para a África do Norte e a Europa.
Outra agência da ONU, a UN Water, fala de 1,8 milhão de pessoas que, até 2025, viverão em condições de escassez hídrica absoluta, enquanto dois terços da população global poderiam sofrer tensões sociais devidas à dificuldade de acesso à água.

Os dados, no entanto, não faltam. De acordo com a Organização Mundial para as Migrações (OIM), em 2014, a probabilidade de ser deslocado por causa de desastre aumentou em 60% em comparação com 40 anos atrás.

Para o Internal Displacement Monitoring Centre do Norwegian Refugee Council, de 2008 a 2015, houve 202,4 milhões de pessoas deslocadas ou realocadas, 15% devido a eventos geofísicos, como erupções vulcânicas e terremotos, e 85% a eventos atmosféricos. Apenas em 2015, os deslocados internos no mesmo estado eram 27,8 milhões, dos quais 8,6 milhões provocados por conflitos e violências, e 19,2 milhões por desastres naturais, intensos e violentos.

Acnur, no Global Trend 2016, ao contrário, apresenta números muito mais substanciais: 40,8 milhões de refugiados internos ou deslocados em 2015.

Deve-se dizer que a questão da ligação entre mudanças climáticas e migrantes não recebeu até agora a atenção de muitos pesquisadores, e, portanto, ainda não existem pesquisas aprofundadas sobre diversas questões, incluindo, acima de tudo, o status de “migrantes ambiental”.

Com efeito, os “migrantes ambientais” não se enquadram nos parâmetros da figura de refugiado reconhecida pela Convenção de Genebra. Razão pela qual, em nível de proteção internacional, eles não têm direito algum. Seria preciso, portanto – dizem inúmeros especialistas – superar a definição de refugiado, e nisso a Europa poderia se tornar promotora junto à ONU, para que sejam reconhecidos direitos aos refugiados econômicos e ambientais.

Há poucos dias, a FAO lançou um novo alerta devido às consequências das mudanças climáticas sobre a luta contra a fome. “Serão 130 milhões as pessoas a mais que sofrerão de fome e de desnutrição como causa direta das mudanças climáticas, se continuarmos com as políticas atuais”, disse Maria Helena Semedo, vice-diretora geral da FAO.

“Isso poderia significar não alcançar o nosso objetivo de erradicar a fome no mundo até 2030. Nos próximos 15 anos, viveremos um aumento da população e, ao mesmo tempo, veremos um deslocamento para as cidades, onde se espera que 60% das pessoas irão viver. Portanto, teremos menos pessoas disponíveis para produzir alimentos.”

São necessárias políticas incisivas, baseadas em medidas concretas, que possam favorecer as populações mais vulneráveis. “Devemos modificar o nosso modo de produzir para que seja mais sustentável, como discutido no evento de hoje: é necessária uma abordagem mais integrada, que ajude as populações a se tornarem resilientes em relação às mudanças climáticas”, explicou Maria Helena Semedo.

“Caso contrário, elas ficarão mais pobres, e aumentará a insegurança alimentar. A mudança deve abranger não só a produção, mas também os padrões de consumo. Por exemplo, em relação aos desperdícios e às perdas alimentares: sem um bom sistema de transporte e uma capacidade de congelar os produtos, parte daquilo que produzimos é destruída.”

 

 

 

 

Postado por Daniela Kussama