Por Andre Dessandes | setembro 8, 2016 11:33 pm

 

Numa sociedade tão desigual e excludente como a nossa, não se passa impunemente por um evento que reúne 5 mil pessoas diferentes da “maioria”. Boa parte delas passou a vida inteira lidando com o preconceito, bullying, olhares de espanto ou piedade, descrédito ou desprezo. Para estarem hoje no Rio disputando a Paralimpíada, elas transformaram a dor disso tudo em combustível para muitas mudanças. A principal delas: ignorar os valores dessa sociedade tão desigual e excludente.

Estive hoje no Parque Olímpico e vi algumas provas de natação. Cada nadador que se lançava na água desenvolveu seu próprio estilo, condizente com seu próprio corpo. Para atravessar a piscina, foi preciso adaptar a deficiência (êita palavrinha incômoda) ao objetivo de toda disputa esportiva: chegar do outro lado o mais rápido possível.

Entre os espectadores, milhares de alunos da rede pública (com ingressos doados pela Prefeitura) certamente se espantaram com o desempenho espetacular dos donos da festa. Ao retornarem para as escolas – mesmo que os professores falhem no uso inteligente de um farto material pedagógico coletado nas arenas paralímpicas – restará na memória a lembrança de que “aqueles caras são legais”. Creiam: não é pouca coisa.

Nunca se falou tanto em acessibilidade no Brasil. Nunca prestamos tanta atenção nas calçadas sem rampas, nos ônibus sem elevadores, na ausência de sinais sonoros nos cruzamentos, e outros problemas que atingem diretamente 45 milhões de brasileiros que, segundo o IBGE, possuem alguma deficiência.

Sim, eles sempre estiveram por aí mas fora do nosso radar.
Eles têm direitos e pagam impostos, mas foram solenemente ignorados pelos governantes. A boa notícia é que a rede de aliados está crescendo. Ninguém sai de uma Paralimpíada (ou de uma cerimônia de abertura como a de ontem) como entrou.

E o que fazer com a palavra “deficiente”?

No texto abaixo, atribuído ao poeta Mario Quintana, uma inspirada contestação do uso corrente do termo:

“Deficiente” é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

“Louco” é quem não procura ser feliz com o que possui.

“Cego” é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.

“Surdo” é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.

“Mudo” é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

“Paralítico” é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.

“Diabético” é quem não consegue ser doce.

“Anão” é quem não sabe deixar o amor crescer.

E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:
“Miseráveis” são todos aqueles que não conseguem falar com Deus.

 

André Trigueiro