Por Mundo Sustentável | agosto 21, 2016 10:40 pm

Daqui a uma semana a União Internacional de Ciências Geológicas reunirá na Cidade do Cabo, na África do Sul, alguns dos mais importantes cientistas do mundo para decidir, entre outras questões relevantes, se o planeta já teria ingressado em uma nova era geológica denominada Antropoceno.

O termo não é novo e já é usado informalmente por vários especialistas para designar um período em que a nossa espécie vem alterando de tal maneira o clima e os ecossistemas que já não seria possível explicar o planeta sem nós. E isso não é propriamente um elogio.

Um exemplo do que somos capazes: a maior parte da água doce do planeta (em seu estado líquido e superficial) encontra-se estocada ou canalizada em estruturas artificiais. Isso pode funcionar muito bem (como nos reservatórios que abastecem Nova York) ou resultar em imensos desastres (como a irrigação das culturas de algodão da ex-União Soviética que transformou o mar de Aral em um deserto).

O Antropoceno foi lembrado em vários eventos internacionais no último 8 de agosto no Dia da Sobrecarga da Terra, quando, de acordo com os cálculos da Global Footprint Network, exaurimos -naquela data- os recursos do planeta que deveriam estar disponíveis para toda a humanidade até o último dia de 2016. Em bom português, entramos no “cheque especial”. Desde 2001 isso acontece cada vez mais cedo (em média, essa data-limite é antecipada três dias a cada ano).

Para suprir hoje a atual demanda de recursos naturais da humanidade, deveríamos ter uma Terra e “meia”. Como não há “meio planeta” disponível por aí, o jeito é saber usar com inteligência os recursos que nos restam.
Se o evento da Cidade do Cabo tornar oficial o Antropoceno teremos a chance de construir uma nova narrativa e refletir, em outros termos, sobre os problemas ambientais que já nos afligem. É uma oportunidade de ampliar o senso de urgência em favor das mudanças que precisam acontecer rápido.

Aulas de Antropoceno nas escolas e universidades, mais pessoas qualificadas para conceber projetos públicos ou privados com baixa pegada ecológica, mais gente percebendo que, se não fizermos o dever de casa, a casa cai.

A espécie líder, no topo da cadeia evolutiva, se vê agora acuada pelos próprios feitos. Corrigimos o rumo ou pereceremos.

 

André Trigueiro

 

Fonte: Folha de São Paulo