Por Andre Dessandes | agosto 6, 2016 11:30 pm

Quis o destino que a cerimônia de abertura mais ecológica da História dos Jogos acontecesse na cidade que desprezou o legado ambiental mais importante (o avanço do saneamento básico na Baía de Guanabara) e num país ameaçado por vários projetos de Lei que tentam inutilizar a ferramenta do licenciamento ambiental.

Contradições à parte, foi a cerimônia mais bonita que já vi sobre a riqueza da cultura brasileira. Mostrou a nossa cara, fugindo dos clichês que remetem às “caricaturas”. Mas foi na parte ambiental que o evento esbanjou coragem e inovação.

No momento esteticamente mais exuberante do espetáculo, mostramos os povos originais do Brasil ocupando o Maracanã (palavra que vem de “Maraca”, o som de um pássaro em tupi-guarani), embora Brasil afora prossigam os massacres contra os povos indígenas sem que haja qualquer resposta à altura dos governos.

Destacou-se a força de um povo miscigenado – nossa verdadeira identidade nacional – embora a representatividade política esteja fortemente (e tragicamente) concentrada num segmento muito específico: homens, brancos e ricos.

Mais de três bilhões de telespectadores receberam uma aula sobre a maior tragédia ambiental do nosso tempo, o aquecimento global. E viram os atletas de todos os países serem convidados a depositar sementes em pequenos tubetes que serão a gênese de uma nova floresta no bairro de Deodoro, na zona oeste. A semeadura ocorre num momento em que boa parte do país arde em chamas com a proliferarão das queimadas, as taxas de desmatamento voltem a crescer de maneira preocupante, e muitos projetos absurdos – inclusive o do atual Ministro da Agricultura, Blairo Maggi – tentam implodir a exigência de licenciamento ambiental.

O orçamento da festa correspondeu a apenas 10% do que foi gasto na cerimônia de abertura dos Jogos de Londres. Ponto para os responsáveis pela concepção do evento, entre os quais, o cineasta Fernando Meirelles, que recentemente, ao ser indagado por um jornalista como se definiria, respondeu sem titubear: “quando não sou ecochato, sou biodesagradável”.

Abençoada seja toda ecochatice que denuncia as gigantescas contradições do único país do mundo com nome de árvore.

 

 

André Trigueiro

 

 

Fonte: G1 – Blog Mundo Sustentável