Por Mundo Sustentável | junho 26, 2016 12:28 pm

Elas são pequenas, frágeis, aparentemente vulneráveis, mas não há força conhecida que tenha conseguido erradicá-las do planeta. Já resistiram a glaciações, inundações, incêndios, formicidas… Preconceituosamente, há quem as considere uma praga, principalmente ao rivalizar conosco a disputa por alimentos.

Pode até ser. Mas as formigas que chegaram por aqui antes de nós, há aproximadamente 100 milhões de anos, nos trazem um ensinamento valioso nestes tempos de crise (ou de múltiplas crises que se entrelaçam caprichosamente).

Se elas ainda não desapareceram do mapa é porque, na base da sofisticada organização social de um formigueiro, está implícito um conhecimento adquirido ao longo de um complexo processo evolutivo, “ensinando” que a resiliência do grupo passa por um projeto coletivo. Podemos chamar esse comportamento -comum a muitas espécies- de instinto de sobrevivência.

Enquanto as formigas se mantêm em constante estado de alerta, nós, que também somos dotados de instinto, seguimos perigosamente distraídos, indiferentes ou distantes dos acachapantes sinais de perigo que nos cercam. Todos causados por nossos estilos de vida e atuais padrões de consumo.

Já percebemos a nossa parcela de culpa na crise climática, na falta d’água ou na péssima qualidade do ar que respiramos. Abalamos o software inteligente da vida, mas hesitamos em instalar o antivírus correto porque sabemos que isso implicaria em uma profunda revisão de valores, atitudes e comportamentos.

Que tal um novo mundo onde a Black Friday não tenha efeito hipnótico, o closet só guarde o que seja efetivamente útil, tenhamos objetivos existenciais mais nobres do que consumir, acumular, ostentar?

Há um ano o papa Francisco apresentou em sua encíclica “Laudato Si” o que para muitos vem a ser a grande síntese dos tempos modernos. Segundo ele, o atual modelo de desenvolvimento promove a exclusão social e a destruição da natureza, enquanto a ganância, o individualismo e o consumismo ameaçam a nossa espécie.

Que as formigas nos inspirem. Nada pode ser mais importante que a sobrevivência. Ainda há tempo.

 

André Trigueiro

 

Fonte: Folha de S. Paulo