Por Mundo Sustentável | abril 18, 2016 4:22 pm

 

Por Nuño Domínguez

Fonte: El País

 

Pela primeira vez, uma equipe de cientistas ocidentais cruzou as fronteiras da Coreia do Norte para estudar um dos vulcões mais desconhecidos do mundo. A expedição, na companhia de cientistas norte-coreanos, foi um exemplo sem precedentes de cooperação científica num país hermético e castigado por sanções internacionais.

O objetivo da expedição é o monte Paektu, um vulcão de 2.744 metros de altitude, situado na fronteira com a China. O pouco que se sabia dele é que no século X causou a Erupção do Milênio, uma das maiores já registradas. Entre 2002 e 2005, o Paektu deu sinais de atividade, o que fez disparar os alarmes em Pyongyang diante de um vulcão imprevisível, especialmente sem a tecnologia necessária. Diante dessa situação, o regime ditatorial lançou um grito de socorro, na forma de uma solicitação de colaboração científica através de ONGs, as quais foram parar nos ouvidos de dois britânicos, Clive Oppenheimer, vulcanologista da Universidade de Cambridge, e James Hammond, da Universidade de Londres.

Em 2013, eles participaram de uma expedição internacional ao Paektu, a primeira desse tipo desde a instauração da ditadura comunista liderada por Kim Il-sung, em 1945. O Paektu é a montanha mais alta da península coreana e, dentro das fronteiras do regime, é o monte sagrado da revolução. Seu topo nevado aparece em mensagens televisivas do regime, em escudos e nas esculturas de louvor aos ditadores em Pyongyang. É também um lugar de peregrinação para qualquer norte-coreano, seja escalando até o espetacular topo ou apenas visitando os campos revolucionários dos arredores, incluído o suposto local de nascimento de Kim Jong-il, filho de Kim Il-sung e pai do atual dirigente, Kim Jong-un. Em sua cratera, o Paektu abriga um lago de 14 quilômetros de circunferência, que, no caso de erupção grave, poderia causar uma enorme enchente, que se somaria à de lava. Dezenas de milhares de pessoas vivem nos arredores do vulcão, nos dois lados da fronteira com a China, país que também participou do projeto.

“Este vulcão poderia causar uma erupção 100 vezes maior que a do vulcão islandês [Eyjafjallajökull] em 2010”, diz Clive Oppenheimer ao EL PAÍS. Aquela explosão sísmica perturbou o tráfego aéreo europeu há seis anos, causando prejuízos de 5 bilhões de euros (20 bilhões de reais, pelo câmbio atual). “Embora seja impossível saber quando o Paektu irá voltar à atividade, uma nova erupção do milênio poderia ter um alcance global e prejudicar a agricultura, as comunicações, a infraestrutura energética…”, ressalta Oppenheimer. A montanha, além disso, fica a 100 quilômetros da instalação subterrânea onde Pyongyang realiza seus experimentos com bombas nucleares.

Os especialistas norte-coreanos “perceberam que seu equipamento de vigilância sismológica não estava atualizado”, relata Oppenheimer. O primeiro objetivo do projeto foi instalar uma nova rede de sismômetros de banda larga, capazes de captar tremores em uma ampla gama de frequências, mas antes era preciso obter a verba necessária. Tratava-se de um enorme desafio geopolítico, porque a Coreia do Norte está submetida a sanções internacionais que impedem esse tipo de colaboração científica. O mais delicado é que alguns dos instrumentos avançados para estudar o interior das formações geológicas podem ter um duplo uso militar, como por exemplo para detectar submarinos. “Depois de dois anos de discussões com as autoridades, conseguimos os instrumentos necessários para estudar o interior do vulcão e conhecer sua estrutura”, contou James Hammond, por telefone, de Pequim.

Os primeiros resultados científicos desse insólito projeto acabam de ser divulgados na revista Science Advances. Além de Oppenheimer, Hammond e outros especialistas que já estiveram vinculados ao Departamento de Pesquisas Geológicas dos EUA, assinam o trabalho geólogos norte-coreanos da Administração de Terremotos e do Centro Internacional de Novas Tecnologias e Economia da Coreia do Norte. Mais raro ainda, os cientistas norte-coreanos viajaram a Londres para participar de um seminário da Royal Society de Londres sobre a expedição – uma presença inédita na história dessa prestigiosa organização fundada em 1662.

Este primeiro estudo apresenta uma detalhada análise da espessura da crosta do Paektu (ou Changbaishan, em chinês), no primeiro estudo desse tipo já publicado a respeito da hermética Coreia do Norte. As conclusões indicam que há zonas onde a crosta é mais fina e foi modificada pela atividade magmática. “O que vemos é que há bolsões de rocha fundida sob a superfície que possivelmente foram a origem da instabilidade detectada entre 2002 e 2005”, explica Hammond.

O trabalho é um exercício de ciência básica, mas pode ter aplicações importantes. “Em qualquer vulcão, os três grandes objetivos são vigiar a atividade sísmica e o escape de gases, conhecer a geologia, o tipo de rochas de que é feito, e detalhar suas características geofísicas, ou seja, sua estrutura interna até a área mais profunda”, detalha Oppenheimer. “As coisas mais importantes em um vulcão acontecem em pontos muito afastados da superfície, por isso precisamos de métodos desse tipo para saber o que está ocorrendo a 10 ou 20 quilômetros sob o solo”, acrescenta. O estudo recém-publicado ajuda a entender essa terceira parte da equação.

E quanto a previsões sobre uma nova erupção do Paektu? “Realmente não sabemos quando pode acontecer”, reconhece Hammond. Seu colega britânico aponta que normalmente as erupções grandes são menos frequentes, mas que prever sua intensidade é “extremamente difícil”. “Em sismologia estamos muito piores do que na previsão meteorológica, e um pouco melhores do que na previsão de terremotos”, resume.

Este primeiro projeto internacional de vulcanologia na história da República Democrática Popular da Coreia foi muito modesto, mas suas implicações são enormes. Seu orçamento foi de apenas 100.000 dólares (cerca de 353.000 reais). Agora, a equipe quer ampliar a colaboração para continuar reforçando a rede de monitoramento sísmico em torno do vulcão, o que permitiria melhorar a capacidade de reação em caso de uma nova explosão.

Outro aspecto estudado pela equipe científica é como foi a grande Erupção do Milênio, acontecida no ano 946. Seus dados vêm do estudo geológico realizado durante a expedição de 2013 e em outras subsequentes, em 2014 e 2015. “Não há nenhum relato escrito deixado por testemunhas daquela explosão, então realmente não sabemos quais foram suas dimensões exatas”, conta Oppenheimer. Os dados sobre este outro aspecto serão publicados em breve, naquele que será o segundo estudo vulcanológico internacional assinado por especialistas ocidentais e norte-coreanos.

 

 

 

Postado por Daniela Kussama