Por Mundo Sustentável | março 24, 2016 5:19 pm

 

Quis o destino que nesta semana em que se celebrou o “Dia da Água” (22/3) registrássemos um preocupante vazamento de óleo da Petrobras no rio Cubatão, na Baixada Santista ; a divulgação de um estudo inédito da Fiocruz e do Instituto Socioambiental mostrando a contaminação dos índios Yanomami por mercúrio (metal pesado descartado pelos garimpeiros nos rios da Amazônia); e um levantamento do Instituto Trata Brasil mostrando que metade da população brasileira não tem o esgoto coletado (aproximadamente 5.000 piscinas olímpicas repletas de matéria orgânica são descartadas a cada dia nos corpos hídricos do país). Pelo andar da carruagem, a universalização do saneamento básico – que avançou apenas 3,6 pontos percentuais nos últimos 5 anos – só será alcançada em 2050.

Não me parecem que sejam situações isoladas, desconectadas entre si. Minha convicção é a de que construímos no Brasil a cultura do descaso, do desleixo e da profunda ignorância do que está em jogo quando malbaratamos dessa forma um dos mais valiosos capitais naturais da atualidade. Água doce e limpa já vale mais que petróleo.

Sim, o Brasil ainda é o país campeão mundial de água doce (superficial de rio ou subterrânea). E sim, o Brasil é o país onde a depredação das bacias hidrográficas (São Francisco, Doce, Paraíba do Sul, etc.) ocorre em uma velocidade impressionante com respostas tímidas, quase inócuas.

Tive o prazer de conhecer o saudoso professor da USP Aldo Rebouças, um dos maiores hidrologistas do Brasil e maior autoridade mundial em aquífero Guarani. Em uma entrevista que me deu em 2003, Dr. Aldo cunhou uma frase que demolia o mito da abundância que muitos brasileiros desinformados ainda sustentam em relação a água:

“Os países hoje em dia são avaliados pela forma como sabem usar a água, e não pelo que têm de água. Porque é mais importante hoje sabe usar a água do que ostentar a abundância”.

A frase inspiradora deveria ser objeto de reflexão do Governador Geraldo Alckmin, que decretou precocemente, dias atrás, o fim da crise hídrica em São Paulo, ao se apropriar politicamente (sem o aval de seus próprios técnicos) do volume morto do Cantareira como nova parte integrante do sistema.

Acorda Brasil!

Quantas crises hídricas ainda serão necessárias até que a gente perceba o óbvio? A situação, que já inspira cuidados, não tem justificado as respostas mais energéticas e eficientes.

Ou prosseguimos nos deslumbrando com a falsa abundância, ou testemunharemos cenários ainda mais sombrios. O Brasil é gigante por natureza. Mas vale lembrar o que Drummond nos deixou por escrito:

“A natureza não faz milagres; faz revelações”.

Que prestemos mais atenção aos sinais. Porque eles são gritantes.

 

André Trigueiro