Por Mundo Sustentável | fevereiro 3, 2016 2:37 pm

 

Sou carioca, moro no Rio, como ex-baterista sou um bom “batuqueiro”, aprendi a gostar de samba e já pulei carnaval no passado. Eram outros tempos. Os blocos de rua eram poucos e bem menores. Reuniam basicamente a vizinhança e não tinham nenhum apelo comercial. Fora isso, havia os bailes nos clubes e o desfile das escolas de samba na avenida.

Quem não gostava de carnaval costumava dizer que esse era um período maravilhoso para curtir o Rio de Janeiro, invariavelmente vazio – muita gente aproveitava o feriadão fora da cidade – com praias, restaurantes, cinemas e outras opções de lazer ou passeio mais acessíveis e sem confusão.

A atual Prefeitura transformou o carnaval de rua em evento estratégico sob o pretexto de movimentar a economia e reforçar a imagem do Rio no mapa do turismo momesco. A ideia pode até ser interessante, mas na prática há muitos problemas pouco discutidos e que merecem atenção. Aliás, parte desses problemas diz respeito a outras cidades que exploram comercialmente o carnaval.

Não há clareza sobre os critérios da Prefeitura em licenciar blocos para desfiles nas ruas nem consenso sobre os protocolos mínimos de segurança para que se evite a ocorrência de tragédias. Este ano 505 blocos (49 a mais que no ano passado) ganharam o direito de ocupar por mais tempo os logradouros públicos tornando o carnaval carioca uma festa com aproximadamente um (longo) mês de duração.

Mais de 350 desses blocos são patrocinados por uma marca de cerveja que repassa dinheiro ou latinhas para as agremiações. Se sobra cerveja, falta fiscalização para impedir a venda de bebida alcoólica a menores de idade. O número de pais invigilantes ou ausentes pode ser percebido pela quantidade de meninos e meninas em estado deplorável de embriaguez ou dopadas por misturas inusitadas. Também não há banheiro químico que dê conta do recado, nem multa que iniba a ação dos mijões. Além do odor fétido, há o constrangimento de adultos – principalmente homens – fazerem suas necessidades fisiológicas a céu aberto sem se importarem muito com quem esteja assistindo involuntariamente a cena, eventualmente crianças. Aumento do volume de lixo, destruição de canteiros e abordagens agressivas por parte de foliões embriagados fazem parte do pacote. “Relaxa! É carnaval!”, alguém dirá.

Mas como relaxar se houver a necessidade de se deslocar rapidamente pela cidade num dia de blocos, por motivo de saúde ou outro qualquer? É uma missão indigesta. Dependendo da hora e do local, o jeito é esperar o bloco passar. Simplesmente não há o que fazer. Difícil imaginar que o licenciamento dos blocos tenha levado em conta a mobilidade urbana, rotas de fuga em casos de emergência ou o simples direito de ir e vir. A prioridade é a folia.

Do alto de seu bloco, comandando uma multidão de 300 mil pessoas uma semana antes do carnaval, Preta Gil precisou parar a música três vezes pra dizer o que todo mundo já sabia. ”Cadê a polícia militar? Não estou vendo nenhum policial”. Incomodada com sucessivas brigas e roubos – a visão do alto do carro de som é privilegiada – ela desabafou: “O Rio de Janeiro tem que entender que precisa treinar uma polícia especializada em grandes eventos de rua.” Bem, pode-se dizer que há outras prioridades na área da segurança pública, como por exemplo, aumentar o efetivo nas ruas, com ou sem evento. Simples assim.

Nada contra o carnaval. Tudo a favor da cidadania. Se por um lado é legítimo o direito de abrir espaço para manifestações culturais que emprestam identidade ao carnaval, por outro é preciso respeitar os direitos de quem não é folião. Acho sinceramente que decisões importantes como a que tornou o Rio um dos principais destinos para quem curte carnaval de rua deveriam ser objeto de um amplo debate, mobilizando diferentes setores da sociedade. Esse é o melhor desenho para o carnaval do Rio? Há controvérsia.

 

André Trigueiro