Por Mundo Sustentável | janeiro 20, 2016 1:12 am

 

Quis o destino que eu estivesse de férias em Dubai – nos Emirados Árabes Unidos – durante a nova série de notícias ruins para o mundo do petróleo, especialmente para o Brasil do pré-sal.

A queda do preço internacional do barril (que desabou para U$30, o patamar mais baixo desde a década de 1980), o novo corte de investimentos da Petrobras (com desdobramentos negativos em cascata para a economia brasileira) e, dias depois, o reingresso do Irã no mercado internacional de petróleo – pressionando ainda mais para baixo o preço do barril – com o fim do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos e países aliados.

Dubai está numa parte do planeta onde o petróleo fez a incomensurável riqueza de monarquias constitucionais que seguem – cada qual a seu modo – o islamismo. A descoberta de petróleo em Dubai na década de 1960 inseriu o país no seleto grupo de nações que enriqueceram rápido às custas do “ouro negro”. Mas esse crescimento vertiginoso não impediu que a classe dirigente do país – a família que controla tudo por lá – percebesse a armadilha embutida nesta enorme dependência de uma única só fonte de riqueza.

Hoje menos de 7% do PIB de Dubai vem do petróleo. Turismo e construção civil ocupam lugar de destaque no planejamento estratégico do país, gerando mais riqueza e empregos. O Emirado se orgulha de ser um dos principais destinos turísticos internacionais com atrações superlativas (invariavelmente luxuosas) como o maior edifício do mundo (entre 300 arranha-céus), o maior shopping-center, um gigantesco condomínio em forma de palmeira que avança para o mar, redes de hotéis e resorts suntuosos e caríssimos, pistas de esqui no gelo em pleno deserto, entre outras bizarrices. A criação de uma companhia aérea que liga o Emirado ao mundo, transformando Dubai num dos mais frenéticos hubs da aviação comercial, complementa o pacote de inovações.

Mais de 80% dos habitantes são estrangeiros que chegam ao país prontos para ocupar as vagas disponíveis no mercado de trabalho. Há, entretanto, muitas denúncias de exploração dessa mão-de-obra pouco qualificada e barata, que vem majoritariamente de países africanos e asiáticos. À medida em que se abre para o resto do mundo, Dubai também fica exposto a cobranças crescentes pelo cumprimento de direitos trabalhistas e outros.

Voltando à questão do petróleo: de que maneira a experiência de Dubai pode ser útil ao Brasil, que se descobriu refém desse mercado (a tão decantada “maldição do petróleo”) e não tem plano “B” para se livrar disso por enquanto? Que retorno ainda devemos esperar do pré-sal num mundo que dá passos firmes na direção de uma economia de baixo carbono, com a competitividade crescente das fontes renováveis de energia, e comprometido com o acordo climático aprovado recentemente em Paris por ocasião da COP-21?

Perguntas que inquietam, mas que devem inspirar coragem na busca de novos horizontes. Precisamos de um novo planejamento estratégico de longo prazo, redesenhando o papel do petróleo em nossa economia e dos recursos auferidos a partir dele. Não se trata de abandonar a Petrobras e o pré-sal à própria sorte, mas posicionar melhor o Brasil no tabuleiro das nações quando o petróleo e o gás não tiverem a mesma importância que já possuíram.

A decadência dos combustíveis fósseis está cenarizada e, em alguns mercados, precificada. Melhor não deixar o dever de casa para depois.

 

André Trigueiro