Por Mundo Sustentável | novembro 30, 2015 12:55 pm

 

Por Rogério Pacheco Jordão, jornalista e sócio-diretor da Fato Pesquisa e Jornalismo (FPJ), Mestre em política comparada pela London School of Economics (LSE).

Fonte: Blog do Rogério Jordão

 

No dia seguinte ao rompimento da sua barragem em Mariana (MG), em 5 de novembro, a Samarco, mineradora controlada pela Vale e BHP, informou ao público que o rejeito era “inerte” formado em sua maior parte por sílica (areia); esta semana, no dia 25, especialistas da ONU disseram outra coisa: a lama que desce o Rio Doce e atinge o Atlântico é “tóxica”. Conforme se desdobra o maior acidente ambiental brasileiro, em quem acreditar?

O comunicado da ONU, feito a partir de Genebra, na Suíça, surtiu um efeito imediato: a Samarco respondeu. Em uma nota em seu site a empresa rebateu a posição da ONU. Mas ofereceu uma informação nova ao leitor. Vinte dias depois do acidente, a empresa admitiu que, para além da sílica (areia) o rejeito continha “partículas de óxido de ferro” (veja aqui o comunicado). Por que não informou isso antes? De fato, que uma barragem de rejeitos de mineração de ferro não contivesse restos de ferro seria bastante incomum.

Em ocorridos desta dimensão e gravidade, é fundamental que a empresa e autoridades públicas forneçam todas as informações disponíveis, principalmente nas 48 horas iniciais. Diante do desencontro dos relógios, é justo se perguntar: além de água, areia e óxido de ferro, haveria algo a acrescentar?

O comunicado da ONU foi em sentido contrário às afirmações da Samarco. Dizem os especialistas internacionais: “Nova evidência mostra que o rejeito despejado no Rio Doce (…) continha altos níveis de metais pesados e outros elementos químicos tóxicos. Hospitais em Mariana e Belo Horizonte… receberam muitos pacientes”. Para a íntegra em inglês, ver aqui. A Samarco negou estas afirmações, citando laudos que apontavam não ter havido aumento da presença de metais pesados na água.

Em seu comunicado a ONU não cita suas fontes. O que os especialistas internacionais dizem, porém, coincide com exames de água feitos pela prefeitura de Baixo Guandu (ES), quando a água passou por lá algumas semanas atrás, e que indicaram, quando os rejeitos já estavam a algumas centenas de quilômetros de distância do acidente, a presença excessiva de elementos como ferro, arsênio, bário e manganês. Teriam, estes elementos, vindos do rejeito armazenado na barragem ou teriam sido carregados pela lama ao longo do caminho, de forma que compusessem a poluição já previamente existente na água do rio?

Seja como for, a população de Governador Valadares (MG), cidade à beira do Rio Doce, tem hesitado em beber da água que voltou a ser retirada do rio; já em Colatina (ES) o fornecimento continuou suspenso esta semana – e um protesto terminou com oito presos, segundo a imprensa.

O pronunciamento da ONU sobre a lama da Samarco é um sinal da gravidade do acidente ambiental de Mariana (MG) e que este tem repercussões mundiais. Até aqui são 13 mortos, 10 pessoas desaparecidas, e uma lama de restos industriais que se dispersa pelo Atlântico ao mesmo tempo que ainda escorrega, enquanto escrevo, por cidades capixabas à beira do Rio Doce. A história do maior acidente ambiental do Brasil está apenas em seus primórdios – e seus desdobramentos imediatos sequer sumiram no horizonte.

 

 

 

 

Postado por Daniela Kussama