Por Mundo Sustentável | novembro 16, 2015 3:08 pm

 

Fonte: BBC Brasil

 

A ameaça de ataques em solo francês não era uma novidade para as autoridades do país: há apenas alguns meses, 17 pessoas morreram em um atentado contra o jornal satírico Charlie Hebdo, que, até sexta, era o pior ocorrido em solo francês em décadas.

Se o país estava em alerta, por que as agências de segurança francesas não conseguiram evitar os ataques que deixaram cerca de 130 mortos e outras três centenas de feridos?

A resposta parece apontar para eventuais falhas dos serviços de segurança, mas ela não é tão óbvia assim.

Desde janeiro, as ruas do país são vigiadas por milhares de militares, e 25 mil policiais patrulham lugares com potencial para serem escolhidos como alvo de atentados.

O problema é que as autoridades “não podem prever onde será realizado o próximo ataque”, analisou Frank Gardner, correspondente de Segurança da BBC. E muitos especialistas vão na mesma linha.

Para a porta-voz do Partido Socialista (governista) , Corinne Narassinguin, “obviamente houve uma falha da inteligência francesa”, e as investigações sobre o que ocorreu mostrarão no que os serviços de segurança devem melhorar.

Em conversa com a BBC, porém, ela ponderou que “é impossível garantir segurança absoluta hoje em dia, especialmente porque os terroristas operam em uma escala muito menor. Os terroristas entendem que é mais fácil organizar um grupo muito pequeno de pessoas que vão a lugares muito lotados com armas automáticas e provocam um banho de sangue”.

 

Autodefesa

Após o ataque ao Charlie Hebdo, a França sinalizou, com sua política externa, que estava ciente da possibilidade de novos ataques.

Quando o governo de François Hollande decidiu, em setembro deste ano, lançar bombardeios contra o autoproclamado grupo radical “Estado Islâmico” na Síria, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, afirmou que esses ataques atingiam lugares “onde são treinados aqueles que atacam a França”.

O correspondente da BBC em Paris, Hugh Scholfield, assinalou à época que tais ataques poderiam ser interpretados na legislação das Nações Unidas e do direito internacional como uma ação legítima de autodefesa.

Nesse sentido, um questionamento sobre eventuais falhas das agências de segurança francesas ao não conseguir evitar o atentado de sexta talvez seja simplista ao desconsiderar a complexa realidade atual e os vários fatores em jogo.

“Até que saibamos mais sobre a organização do ataque e seus autores, é impossível culpar esse ou aquele serviço de segurança”, afirmou Yves Trotignon, ex-funcionário da unidade antiterrorismo da Direção-Geral de Segurança Exterior da França, ao jornal britânico The Guardian.

Segundo Trotignon, durante muito tempo os serviços de segurança temiam que um ataque como o de sexta-feira pudesse acontecer, ainda mais com o precedente deixado pelo atentado executado em 2008 em Mumbai, na Índia, no qual morreram 166 pessoas.

 

‘Quase inevitável’

Para alguns, não dá para acusar as agências de segurança francesas de terem falhado, pois seria humanamente impossível seguir os passos de seus próprios cidadãos e de cada pessoa que se movimenta pela União Europeia, espaço de livre trânsito para seus integrantes.

Para Peter Neumann, professor de estudos de segurança do King’s College, em Londres, as agências de segurança europeias já trabalham na capacidade máxima há alguns anos.

“Colocar uma pessoa sob vigilância 24 horas requer 30 policiais. Não é possível monitorar centenas de pessoas”, afirmou o especialista à BBC.

“É quase inevitável que algo assim aconteça”, acrescentou.

A verdade é que muitos serviços de inteligência e de segurança “têm recursos limitados para seguir e monitorar grupos terroristas que conheçam ou aqueles dos quais suspeitam. E esses recursos têm de ser manejados de acordo com as ameaças identificadas”, escreveu, em um artigo publicado pela rede árabe Al Jazeera, Martin Reardon, vice-presidente da The Soufan Group, consultoria de segurança e inteligência global.

A situação, porém, ficou ainda mais complexa para a inteligência depois que o “Estado Islâmico” convocou seus seguidores em todo mundo a executarem ataques em seus países.

“É extremamente difícil se defender de um ataque desse tipo quando já começou a ser executado, disse Trotignon.

 

Sem precedentes

O fato de três homens-bomba ativaram seus explosivos em bares ou restaurantes é incomum. A França ainda não havia experimentado ataques quase simultâneos.

O que aconteceu em Paris mostra que os atiradores “não têm uma prioridade ou uma hierarquia” quando escolhem seus objetivos, afirmou à BBC Shashank Joshi, especialista em políticas de segurança do Royal United Service Institute de Londres.

O belga Pieter van Osraeyen, especialista em grupos jihadistas, assinalou parecer que o “Estado Islâmico” está enviando um sinal no qual diz que “pode atacar a qualquer momento, em qualquer lugar”.

Os ataques de Paris foram muito bem coordenados e provavelmente demandaram meses de treinamento, afirmou ele à BBC.

Sendo assim, houve erros da segurança francesa? Para Joshi e Van Osraeyen, não.

“Não é possível monitorar todos os alvos fáceis”, afirmou o primeiro. “Trata-se mais de reagir ao que ocorre, a estabelecer uma comunicação entre as diferentes partes do Estado, a uma liderança forte, a controlar o fluxo de informação, a minimizar o pânico.”

Segundo Van Ostaeyen, “a França fez tudo o que pôde. É muito prematuro dizer se (os ataques) poderiam ou não ter evitado”.

Outros estudiosos, porém, dizem que o país falhou ao não notar o inimigo em seu próprio solo.

 

Olhar para dentro

Uma corrente de pesquisadores acredita que as agências de segurança da França não deveriam focar no extremismo islâmico gestado fora de seu território, mas sim no que acontece em algumas das áreas mais pobres do país.

“Por muitos anos, alguns bairros desfavorecidos dos subúrbios de Paris e de outras cidades têm sido um terreno fértil para extremistas islâmicos. A chamada jihad (guerra santa)tem sido um elemento sedutor para alguns jovens muçulmanos alienados de regiões abandonadas, onde o desemprego é alto”, afirmou o repórter da BBC Laurence Peter, especialista em Europa.

Segundo os estudiosos, mais de 500 muçulmanos franceses engrossaram as fileiras jihadistas na Síria e no Iraque, o maior número entre os países ocidentais.

“Minha impressão é de que a substancial população muçulmana da França, que quer ser francesa, que quer se integrar e ser aceita, não está realmente integrada por completo”, afirmou à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, Abkar Ahmed, embaixador do Paquistão no Reino Unido e professor da American University, de Washington, e do Instituto Brookings.

“Isso está causando tensão e, dessas comunidades na França, surgem dois ou quatro indivíduos preparados para cometer atos violentos”, acrescentou Ahmed.

Para o especialista em Islã contemporâneo, os meios de comunicação deveriam “diminuir o volume” de sua constante associação entre muçulmanos e a palavra terrorismo.

“Ainda que haja algumas pessoas envolvidas com isso, talvez duas dúzias, três dúzias de pessoas, a comunidade inteira está sendo estigmatizada pela imprensa. Isso tem que parar, afinal pode levar mais muçulmanos, especialmente os jovens, a atos de violência por se sentirem com raiva, desencantados, sem esperança”, acrescentou.

 

 

 

Postado por Daniela Kussama