Por Mundo Sustentável | novembro 9, 2015 12:41 pm

 

Por Sérgio Abranches

Fonte: EcoDebate

 

Queria falar na CBN sobre a água que nos está faltando. Quando pensei no comentário sobre da última quinta-feira (5/11), afligia-me apenas a escassez de água e algumas de suas causas diretas: o desmatamento e as queimadas. Mas, algumas horas depois, haveria o desfecho de mais um desastre anunciado. As duas das três barragens de rejeitos tóxicos da Samarco/Vale/BHP que existiam acima de Mariana, próximo a Outro Preto, se romperam. Essas barragens de altíssimo risco, por sobre a cidade, como uma espada de Dâmocles ameçadora, não deveriam existir ali. A localização é imprópria, o licenciamento discutível sob todos os aspectos, a capacidade de governança da empresa provou-seabsolutamente insuficiente. Um desastre empresarial e regulatório, com intoleráveis consequências humanas e ambientais. A lama tóxica e espessa, que levou vidas, casas e soterrou sabe-se lá quantas pessoas, espalha-se por centenas de quilômetros.

Ela já chegou a Governador Valadares, a 338,7 quilômetros. Seriam um pouco mais de cinco horas de viagem de carro. Essa lama trágica é uma nova ameaça para as águas de Minas e do Espírito Santo. Nas cidades por onde passa provoca tamanha turbidez, que obriga as autoridades a interromperem o abastecimento das cidades. A onda de lama corre ao longo do rio Doce, que sofre severa seca e, só por isso, a onda de cheia que ela provoca e que poderia causar inundações nas cidades ribeirinhas, não é um perigo iminente. Mas preocupa. E por isso as cidades estão em alerta. A lama incontrolável chegará na segunda (9) ao Espirito Santo e ao mar. Vejam só, das montanhas da Ouro Preto Inconfidente, ao mar, no Espírito Santo espalha-se a mancha nojenta da mineração desregrada, da irresponsabilidade empresarial e da omissão conivente das autoridades federais, estadual e municipal.

Em minhas últimas andanças pelas Minas Gerais, antes do megadesastre da Samarco/ Vale, em Mariana, ouvi, em toda parte, a mesma reclamação: não choveu ainda e a água está acabando. Em alguns lugares a situação é dramática, já estão racionando água. Os dois grandes rios de Minas, o Rio São Francisco e o rio Doce, estão secos em regiões onde costumavam ser volumosos. Em várias localidades, a água está por um fio. Na pequena reserva que mantemos na Mantiqueira mineira, uma RPPN com 18 hectates de Mata Atlântica bem preservada, todas as nascentes e áreas de preservação permanente estão rigorosamente protegidas e florestadas, como deviam estar. Outros 20 hectares estão sendo reflorestados com 35 mil mudas já e estão em estágio avançado de recuperação, com árvores de 3 a 5 metros de altura. Há quatro minas d’água identificadas e testadas, vários olhos d’água abastecem a reserva e o riacho que passa em sua parte baixa. Só duas fontes estão jorrando água e pouquinha. A umidade da mata está preservada, a água nao acabou, mas escasseou.

Em uma outra RPPN, a 400 quilômetros, quase na fronteira com o Espírito Santo, são 900 hectares de Mata Atlântica muito preservada. Protegida desde os anos de 1940. Ela tem um valiosíssimo patrimônio natural, de biodiversidade, primatas ameaçados de extinção. Quando estive lá, há poucas semanas, ela estava ameaçada por uma queimada. Culpa de um fazendeiro vizinho que achou que controlaria o fogo que ateou no pasto seco. A chuva que chegou naquela noite, apagou o fogo que já lambia suas bordas. Mas não foi suficiente para recuperar os riachos que a cruzavam. Uma propriedade vizinha, cujo proprietário tem trabalhado na sua conservação e está em processo de transformá-la também em reserva privada, tem uma cachoeira caudalosa. Ele me disse que o volume da queda já diminuiu em mais de um terço, embora o rio saía de uma área de Mata Atlântica bastante densa.

O que essas três áreas têm em comum, além de estarem vendo a água diminuir, apesar de preservarem as matas? Seus vizinhos não preservam. No Brejo Novo, as fontes são locais, mas todo o trabalho localizado de conservação não é suficiente para proteger a água subterrânea. O entorno não tem nascentes protegidas, não respeita as áreas de preservação permanente. A água da região está secando. E isto afeta quem protege matas e nascentes. Na reserva dos macacos e na da cachoeira, a água nasce fora delas, as nascentes estão desmatadas, não há matas ciliares, nas margens dos rios e córregos. Resultado, quando a estiagem é grande a seca atormenta a todos. Omissão das autoridades, irresponsabilidade de proprietários e moradores das áreas de nascentes e margens de rios e riachos. Todos pagam pelo erro de alguns.

Meu comentário na CBN

 

 

Postado por Daniela Kussama