Por Mundo Sustentável | julho 14, 2015 4:54 pm

Fonte: Portal Solar

O conceituado Jornalista André Trigueiro concedeu uma entrevista exclusiva ao Portal Solar falando sobre as perspectivas do mercado de energia solar no Brasil e os seus desafios.

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ onde hoje leciona a disciplina “Geopolítica Ambiental”, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor de diversos livros. É editor-chefe do programa Cidades e Soluções, da Globo News, comentarista da Rádio CBN e colaborador voluntário da Rádio Rio de Janeiro.

Quais são os principais desafios da energia solar fotovoltaica no Brasil?

André Trigueiro: “ Nós estamos chegando um pouco tarde nesta corrida tecnológica que já tomou conta de países como a Alemanha, China e Estados Unidos”. O Primeiro leilão de energia solar fotovoltaica realizada em 2014 pela EPE foi um teste para verificar o quanto o mercado estaria pronto para participar de investimentos nesta fonte de energia. O leilão foi um sucesso extraordinário motivando assim a EPE a realizar, agora em agosto de 2015, um outro leilão específico para a fonte solar: Mais de 350 projetos de usinas de energia solar foram registrados para participar deste leilão (Em termos de potência instalada o equivalente a usina de Belo Monte). “Portanto, o mercado ao meu ver, está pronto para participar de forma mais agressiva destes investimentos. ” André Trigueiro ressalta que infelizmente, tal como aconteceu no começo com a energia eólica, o Brasil vai agora viver um “boom” na energia solar dependendo de equipamentos que ainda não produzimos localmente em escala para atender esta crescente demanda. Ou seja, o Brasil terá que, inicialmente, importar a grande maioria de componentes do sistema fotovoltaico como o painel solarinversor grid-tie e outros insumos específicos que ainda não tivemos chances de desenvolver aqui por falta de políticas públicas.

Hoje, a única política de incentivo que nos ajuda a reduzir a nossa dependência absurda que temos de outros países para desenvolver este setor de energia solar, é o plano de nacionalização progressivo do BNDES que visa auxiliar a indústria através de financiamento a juros baixos ou competitivos.

Hoje o Brasil tem nas instituições brasileiras como UFSC, UFPE, USP, UFRGS e UFPA, dentre outras, experts e técnicos que com os devidos incentivos e apoios, seriam capazes de desenvolver o parque industrial, ou construir uma rotina de inovação tecnológica similar a aquela que determinou uma projeção de destaque ao Brasil no desenvolvimento do etanol, do biodiesel e do motor Flex. “Portanto, largamos tarde nesta corrida, mas antes tarde do que nunca! ”

O que o Governo pode fazer para incentivar o uso da energia solar fotovoltaica no Brasil?

André Trigueiro: “ O Governo tragicamente deu um incentivo com a elevação caótica das tarifas de energia”. Os reajustes das tarifas de energia, em muitos lugares no Brasil, foram maiores que 60%, desta forma impactando diretamente o orçamento familiar e o orçamento das empresas. Contabilizando o nível de insolação que você recebe onde você mora ou trabalha, a área disponível para a captação desta energia solar e a tarifa média de energia cobrada na sua localidade. Você chegará em um resultado onde hoje temos, em relação ao ano passado, uma situação muito mais favorável para a energia solar fotovoltaica. Ou seja, a amortização deste custo na linha do tempo se reduziu drasticamente. Isso ocorre, principalmente pela elevação das tarifas de energia no Brasil.  Quando falamos de condições normais de mercado, não temos que “inventar a roda”, mas sim fazer como outros países fizeram. Quando se transforma política pública em um desejo de incrementar a participação da energia solar em um país tropical como o Brasil, evidentemente é necessário criar-se estímulos fiscais. Diferente do que foi feito inicialmente por uma decisão do CONFAZ, onde a energia solar estava sendo tributada pelo ICMS!! “Não quer ajudar tudo bem, mas não atrapalha”. Estímulos fiscais são importantes e isso deve acontecer no Brasil ainda este ano. A medida que os leilões de energia acontecem, e a fonte solar começa a crescer aí então não serão necessários mais estímulos e esta fonte de energia renovável amadurece e “caminha com as próprias pernas” como hoje é o caso da energia eólica. Em outros países se deu o mesmo, assim como no Brasil aconteceu para o Etanol. O Brasil tem tudo o que precisamos para que este setor cresça muito.

Como a energia solar pode ajudar na crise do setor elétrico?

André Trigueiro: “Depende do lugar, depende da capacidade que a pessoa tenha de fazer um investimento, um aporte de capital sem ter pressa no retorno do investimento” O Payback deste tipo de investimento tem um prazo mais longo. Existem vários fatores que precisam ser considerados ao colocar o Brasil no debate da energia solar. É preciso perceber a velocidade com que esta indústria cresce na China, na Alemanha, nos Estados Unidos e no nosso continente, o Chile, que já investe neste setor. Isso tudo precisa ser analisado de um ponto de vista geopolítico a longo prazo, e não a curto prazo como o Governo faz com o Pré-Sal. “O Plano de Investimentos divulgado duas semanas atrás pela Petrobrás, para o próximo quadriênio, exclui qualquer investimento em fontes limpas e renováveis”. Isso significa uma aposta temerária por parte do Governo. “O mundo avança na direção do solar, esta tecnologia se torna cada vez mais barata”. A Tesla Motors e a Daimler Chrysler anunciaram em um intervalo de 2 meses suas baterias domésticas, inspiradas em baterias para automóveis, sinalizando um futuro muito promissor armazenando e estocando energia solar dentro de casa. Existe uma conjuntura, que quando bem percebida determina uma atitude. “Ou seja, não basta não atrapalhar. É preciso estimular e ter uma visão estratégica”. O Brasil precisa se preparar para o crescimento da participação da energia fotovoltaica na matriz energética, por exemplo, capacitando engenheiros do setor elétrico a pensarem na rede de energia com uma participação cada vez maior das fontes intermitentes (Solar e Eólica). O Mundo está mudando rápido e não é possível utilizar como argumento que a maior participação das fontes intermitentes na matriz representa um risco pois isso nunca foi estudado a fundo no Brasil. Existem diversos países no mundo que utilizam amplamente as fontes eólica e fotovoltaica, em uma quantidade muito maior do que o Brasil tem hoje, sem ter problema algum em sua rede de energia. “Precisamos perceber o Sol e o Vento, que são fontes intermitentes de energia, tendo um protagonismo crescente na matriz energética brasileira”.

Com a popularização da energia solar no Brasil, quais serão os principais ganhos para população? E para o meio ambiente?

André Trigueiro: “Para o meio ambiente é óbvio! Teremos menos emissões de gases do efeito estufa”. Existem diversos desafios tecnológicos para baratear o custo desta fonte e usar matérias com cada vez impactos menores ao meio ambiente.  Desta forma elevando o coeficiente de sustentabilidade do “kit de energia solar”. Para a população, de uma forma geral, teremos um outro “desenho” do setor elétrico com a vinda do Smart Grid (redes elétricas inteligentes). Neste novo formato de redes de transmissão e distribuição de energia a microgeração contribuirá com a segurança do sistema trazendo mais estabilidade ao sistema como um todo e também demandando menos obras, como grandes hidrelétricas ou novas centrais nucleares, que sempre geram muita apreensão pelos impactos ou pelos riscos inerentes a essas tecnologias. Vamos reduzir a nossa dependência através da microgeração de energia e assim conquistar mais autonomia. “Estamos falando de um mundo novo”. Ainda não sabemos exatamente como será, mas sabemos que os países citados anteriormente, como a Alemanha (o país mais rico da Europa), a China (responsável pelo fenômeno de estabilização da emissão de seus gases estufa, por conta da redução da queima de carvão e ao incremento do uso da energia solar) e dos Estado Unidos (que criou atratividade para as fontes limpas e renováveis), também não sabem exatamente como será este “novo mundo”, mas eles estão investindo muito neste novo mundo. “É outra cultura, é outro conceito, é outro aprendizado é um outro sistema. Uma outra forma de se pensar Geração – Distribuição – Consumo”. Aonde promove-se o debate, a troca sadia de ideias e aonde as divergências naturais sejam pontuadas por uma “boa ciência” com um bom “lastro de conhecimento”, invariavelmente este debate vai apontar para a microgeração distribuída, a microgeração de energia no sistema compartilhado. “Esse é o caminho, o smart-grid. Esse é o futuro e alguns países não estão esperando o futuro chegar para promover uma ampla reformulação nas rotinas, nas práticas, nos investimentos, nas políticas públicas e fiscais, estimulando este setor nesta direção”.

Quais são as expectativas para energia solar no Brasil e no mundo nos próximos 5 anos?

André Trigueiro: O que temos visto é o crescimento vertiginoso da Energia Solar na China, na Alemanha, que foi consolidado através da política do “Energiewende”, (política que determinou o desligamento das usinas nucleares após o incidente de Fukushima e a migração para uma política de energia renovável, descentralizada e mais segura) e os Estados Unidos que também mostraram um horizonte importante neste setor. No verão Europeu, existem dias na Alemanha em que a principal fonte de energia do país é o Sol.

Com a massificação dos produtos e o barateamento dos preços, a economia passa a assimilar e estar mais aberta a esta tecnologia independentemente das razões ambientais. “Estamos falando de business” Então, quando temos o mercado percebendo uma boa “atratividade” neste gênero de negócio, através do retorno financeiro que ele pode trazer, o mundo começa a ter o seu “norte-magnético” apontando para o Solar.