Por Mundo Sustentável | junho 29, 2015 4:15 pm

Eu estive lá para ver de perto, e devo dizer que foi emocionante.

Moro e trabalho no Rio de Janeiro, cidade que hoje detém a maior malha cicloviária do continente.

Mas devo dizer que nenhuma inauguração de trecho de ciclovia no Rio chegou perto do que vi acontecer ontem na Avenida Paulista.

Foi a maior conquista do cicloativismo até hoje no Brasil, celebrada no coração da cidade mais motorizada do país.

Uma pressão que veio debaixo pra cima, mobilizando diversos segmentos sociais em favor de um outro projeto de cidade. Perdoe-me quem acha que a vitória é da atual Prefeitura de São Paulo, mas essa luta vem de longe e seus heróis não se arriscaram nas ruas por afinidades político-partidárias.

Foi um movimento espontâneo e sincero de gente que insistiu em pedalar pela cidade – sendo hostilizada, ridicularizada, humilhada – sem nenhuma ciclovia ou ciclofaixa, só para exercer, a seu modo, o legítimo direito de ir e vir. Foi assim também em muitos outros lugares do mundo, onde os projetos cicloviários foram antecedidos por muitos acidentes e mortes.

Gente que transformou a dor da perda de um ciclista atropelado (e foram vários) em um novo gênero de funeral com diretivo a bicicleta pendurada em poste. E isso não passou despercebido.

Gente que viralizou na internet a “causa das bicicletas”, conquistando corações e mentes de quem sequer anda de bicicleta. Que seduziu as grandes empresas de tecnologia a ofertarem aplicativos que tornaram os deslocamentos de bicicleta mais inteligentes e seguros.

Gente que foi percebida pelo radar dos maiores bancos privados do país. Um banco (Itaú) instalou a primeira rede de bicicletas públicas do país no Rio de Janeiro e levou a experiência para outras capitais (com custo zero para as Prefeituras e pagamento de royalties para o município). Outro banco (Bradesco) já quer ter sua imagem associada aos 400 Km de ciclovias previstos para São Paulo até o ano que vem.

São bem-vindas todas as críticas quanto ao custo das ciclovias, traçados eventualmente mal planejados e acabamento infeliz das obras. Democracia sem transparência não funciona. Que se investigue, apure e, se for o caso, que se corrija e se puna.

Mas nada tira o brilho da justa conquista dos ciclistas.

Misturados à multidão, encontrei domingo na Paulista alguns aguerridos amigos que vem lutando há muitos anos pelo entendimento de que a bicicleta deve ser entendida como um modal de transporte. E que o ciclista também deve ser cobrado para seguir à risca as leis do trânsito, não transferindo para os pedestres a pressão que sofre dos motoristas.

A eles, e principalmente aos que já partiram sem ter visto um dos principais cartões postais de São Paulo com pistas exclusivas para bicicletas, dedico essas linhas.

 

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Foto: Arquivo pessoal

 

 

André Trigueiro

 

 

Fonte: G1 – Blog Mundo Sustentável